Crônica: Ensaio sobre coragem

14:37


Pra mim, começar esse texto não é fácil, principalmente por eu ser campeã no quesito acumulo de medos irracionais. Eu sempre fui o tipo de pessoa que pensa demais, pondera todas as consequências possíveis de todas as ações que, possivelmente, algum dia, eu terei que decidir se irei realizar ou não. Eu nunca fui conhecida por ser destemida ou uma pessoa forte, eu sempre tive medos. Na escola eu era aquela se escondia, chorava ao entrar na piscina com água congelando. No ensino fundamental eu não gostava de sentar na primeira fileira, por ficar exposta demais, não levantava a mão, mesmo tendo uma dúvida cruel ou sabendo a resposta de um questionamento jogado ao léu. Ainda hoje eu não sento na cadeira da frente, apesar de ninguém sentar nela - a segunda me parece ser tão mais segura. Eu não falo com nenhum menino que eu, remotamente, sinta algum interesse, por medo da rejeição ou do que ele pense de mim. Eu atravesso passarelas de olhos fechados, choro quando me imagino sozinha, não entro muito fundo no mar e nunca aprendi a andar de bicicleta. Todos esses medos podem parecer bobos ou estúpidos, mas são coisas que e fazem sofrer excessivamente.

Eu me envergonho de ser assim. Por mais que eu tente, é algo que, provavelmente, irá ficar em mim. Todos os meus medos parecem ser pequenos demais pros outros e, infelizmente, grandes demais para mim. Eu tento superar algumas coisas e me convencer que elas não são maiores que eu, mas é um trabalho árduo e desgastante que tem que ser feito todos os dias. Eu me sinto fraca por me deixar ser dominada por esse sentimento tão ruim quanto o medo, me sinto menor. Cada uma de minhas covardias parecem algo que vem dentro de mim, algo que me domina de uma forma invasiva e desesperadora.

Em uma época da minha vida eu comecei a relacionar o medo ao instinto dos bichos. Seria o ato de uma presa de correr de seu predador um ato de medo? Teria essa relação algum sentido? Ou medo é algo único e exclusivo humano? Sentimentos estão exclusivamente ligados ao ato de raciocinar que, por alguma razão desconhecida, apenas nós, humanos, temos? Logo, eu comecei a pensar que jamais superaria todas as minhas ressalvas nesse mundo, tudo que me faz parar, pensar e desistir. Eu achava que ser corajosa era ser o oposto de mim, olhar e não sentir um frio na barriga e um receio sem igual. Eu estava errada.

Coragem não é sobre não ter medos, na verdade, é exatamente o oposto. Coragem é sobre, sim, ter medos, mas olha-los de cima e ver que eles não podem ser maiores que você. Coragem vem do francês cor-age, ou seja, agir com o coração, ouvir seu coração mais alto que seus receios. Coragem é sobre pular de um lugar alto só pra saber no que vai dar, apesar do calafrio que aparece sem avisar. Coragem, a palavra que arrisco definir a tanto tempo numa tentativa frustrada de me descobrir ou me redimir de alguma forma com o universo por ser tão medrosa. Eu superei, desisti, sucumbi, disse adeus, chame do que quiser, eu decidi que coragem mesmo é parar de pensar sobre a mesma, decidi apenas me deixar levar por esse mar desgovernado que é a vida. E é isso que eu pretendo fazer. Sem pensar ou racionar, só tentar, com a coragem que me resta no coração. 

Postado por: Tuane Peres

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