Sete

14:19


Lembro-me bem de uma história, antiga como o mundo, que escutava em minha infância. Escutei-a de várias visões diferentes. A versão da qual eu mais gostava era contada pela protagonista do acontecido, minha tia. Ao conta-la ela mantinha em seus olhos o sentimento de conquista e orgulho, relembrava sobre como, aos 17 anos, ela havia pulado de um penhasco. A água fria, como seu coração, a tempos fechado para amores e paixões. A queda quase a matou, foi encontrada depois de sete horas (ela sempre dissera que esse era seu número da sorte) a levaram ao hospital as pressas. Quase inconsciente na ambulância, ela jurou que, se sobrevivesse, iria aproveitar cada segundo como seu último, afinal poderia realmente ser. Ela brindaria sua vida todos os dias com espumante de alegria e comeria banquetes com os mais finos alimentos de glória e triunfo. Após, por um milagre, sobreviver e passar uma torturante estadia em um hospital ela partiu, nunca olhou para trás e muito menos se arrependeu. Sempre me disse que aquele ato inconsequente que quase lhe custou a vida foi o maior ensinamento que ela teve.

Quando ela nos visitava minha mãe tentava obrigar sua irmã a passar mais que suas habituais duas semanas conosco antes de partir para mais uma de suas peripécias. Minha tia voltava periodicamente, nunca sabíamos quando ela iria retornar de suas viagens e façanhas. Ela nos falava sobre suas aventuras como um cavaleiro falava sobre como, bravamente, havia matado um dragão. Gostava de me encorajava a sair de minha vida pacata e parada, sempre ovacionou tudo que eu fazia. Titia sempre foi a maior apoiadora de minhas armações, planos e atitudes. Mamãe nunca gostou de como ela nos tratava, segundo ela, nossa tia nos mimava. Com o tempo, ao crescer minha irmã parou de dar ouvidos a minha tia, apenas virava e dormia a noite, enquanto eu viajava pelo mundo por meio de histórias emocionantes.

Minha tia acariciava meus cabelos longos e pretos com uma de suas mãos, enquanto eu me agarrava em seu outro braço pedindo, implorando, por mais relatos. Por vezes eu conseguia ver minha mãe nos olhando por entre a porta, com um pouco de julgamento em seus olhos, porém eu sempre tive o sentimento que ela estava mais feliz por sua irmã estar lá, a salvo. Ela sabia lidar com minha progenitora. As duas irmãs, com base no que minha tia contava, foram próximas, até o momento que titia decidira partir, em seu olhar eu desvendei mistérios nunca proferidos por minha mãe. Segredos sobre saudade, amor e orgulho, coisas que minha família jurava que escondia muito bem de mim, mas nunca conseguiram.


Durante meus primeiros 15 anos de vida eu aprendi muito com as breves visitas da minha tia. Creio que ela me ensinou mais com suas partigas do que com suas fascinantes histórias. Ela se ia, mas eu ficava para observar minha irmã trabalhando o dobro em casa enquanto minha mãe definhava aos poucos em seu quarto pela dor de, mais uma vez, ter que ver sua irmã a abandonar. Via também no olhos de minha tia a breve expressão de arrependimento, que apenas duravam uma fração de segundo, sendo logo substituída por sua usual expressão de júbilo. Ao entrar no carro ela abaixava a janela e me dizia para cuidar bem delas, havia mais naquela frase do que jamais ela iria admitir para mim e, principalmente, para si própria.


A notícia de seu parecer veio em uma manhã nublada, propícia para péssimas novidades. Para meu desgosto fui eu quem abriu a porta para um homem engravatado do consulado, me disse que ela havia morrido em Milão. Faleceu dormindo, seu pobre coração, a muito tempo morto, havia parado de bater de vez, um pequeno enfarte a abateu, por sua solidão crônica não houve quem a acudisse. Foi encontrada no outro dia, as sete da matina, sete horas após sua morte. Lembro-me de não conseguir proferir uma única frase com sentido completo para minha impaciente mãe, que teve que ouvir a mesma mensagem pronta com palavras rebuscadas vinda de um homem de gravata que eu havia escutado. Por um momento pensei que perderia meu outro pilar, tudo em um mesmo dia. Minha mãe, pálida, caiu no chão. A levamos ao hospital as pressas. Por uma bela ironia do destino o mesmo mal de minha tia surtiu efeito em minha mãe. Segundo os médicos ela tivera sorte de nos ter por perto, sete minutos de atraso no socorro ela poderia findar como minha tia: Finada.

Hoje fazem 7 anos desde que minha bela tia se fora, ano após ano minha família visita seu túmulo, com flores e tristeza no olhar. Mamãe apenas chora nos braços de minha irmã, que a conforta da melhor maneira que pode. Eu apenas fecho meus olhos e sinto a brisa energética vinda de qualquer lugar do mundo e, imediatamente sei que titia está lá, nos mandando aproveitar e continuar vivendo, porque ela está bem. E todo ano, como numa bela tradição, é como se eu pudesse ouvir sua voz falando calmamente para mim: "Eu faria tudo de novo".

Postado por: Tuane Peres

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