Conto: Nighthawks

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Tela: Nighthawks - Edward Hopper / Obrigada pela indicação, João 

O barman observou um rapaz e um moça entrarem e sentarem juntos no canto do bar. Perguntou pelo seus respetivos pedidos, e ambos optaram pela bebida mais forte. Aurélio, o barman, deu-lhes algo razoável. Os dois aceitaram, sem pestanejar, e travaram uma conversa frenética aos cochichos. Logo depois, entrou um rapaz solitário, cujo punho sujo com sangue seco não pôde esconder. Serviu aos três, em silêncio.

"Estou falida, Marcelo, não tenho rumo" disse a moça ruiva para o rapaz ao seu lado, que era seu irmão. Ele lhe respondeu "não se preocupe, Maísa, você tanto cuidou de mim a vida inteira, agora é minha chance de cuidar de você", embora, no fundo, também estivesse despedaçado. Maísa sabia que, sem dúvidas, o irmão poderia ajudá-la financeiramente, pois a ele foi dada a oportunidade de estudar. No entanto, ela precisaria ser muito mais cuidadosa. Trouxe-o para aquele bar, naquela noite fria, para que ele tomasse um pouco de ar, pois há tempos só saia de casa para ir ao trabalho. Tinha encontrado o pobre Marcelo no chão do seu apartamento, chorando baixinho, precisando de colo. A ela só restava ignorar os males de seu dia e ajudá-lo. Era tudo que poderia fazer para salvá-lo e, no fundo, salvar a si também.

Marcelo não contou à irmã o porquê de estar deitado, degrado e encolhido no chão. Bastava que ele soubesse, no seu íntimo, a verdade. Um coração partido não tem ao certo explicação. Entretanto, Marcelo não era o único a sofrer por amor naquela noite fria. Benício, recolhido em seu canto, com lascas de sangue nas mãos, bebia para matar o demônios que uma paixão maldita plantara no seu peito. Recordava muito bem daquela tarde lastimosa, por isso bebia para apagar cada vívido detalhe em sua mente.

Por fim, havia Aurélio. Calado e solícito em sua posição. Sempre olhando pela janela e devaneando sobre o passado, sempre em modo de lamentação. Não podia beber, estava em serviço. Restava a ele envenenar outras pessoas.

Maísa 

Maísa se recorda de acordar junto com o sol e acender um cigarro para iniciar o dia. Sua rotina foi habitual. Fumar junto à janela, vestir algo indiscutivelmente decente, ouvir os cochichos perversos das vizinhas - que não se conformavam em dividir o prédio com uma mulher solteira - e seguir seu rumo para o trabalho. Mal chegou na pequena editora de livros na qual trabalhava, e seu chefe já a recebeu ao seu modo particular, como fazia quase todas as manhãs. A exceção eram os dias em que recebia clientes importantes antes do meio-dia. 

"Vermelho é minha cor favorita. Se adequou muito bem ao seu corpo" começou o chefe, abrindo um sorriso maldoso. Maísa deu um meio sorriso de desagrado e tornou a realizar suas atividades matutinas. Haviam dezenas de documentos para serem organizados até o fim do expediente, pois ela planejava ir ao cinema com um simpático rapaz que trabalhava em um café na mesma rua, então não poderia fazer hora extra. 

"Combina com seus cabelos ruivos" insistiu o chefe, dessa vez se atrevendo a passar os dedos por algumas mechas do cabelo de Maísa. Ela se esquivou rapidamente, contrariada. "Por favor, para de me importunar. Não vou conseguir trabalhar desse jeito" retrucou. "Não consegue se concentrar comigo por perto, docinho?".

A moça se levantou com violência e se virou para encarar o chefe. Seus olhos não demonstravam raiva, medo, interesse, ou qualquer outro sentimento que não fosse de puro enojamento e desprezo. Ela se aproximou do homem que, desde sua entrada na empresa, há dois anos, cortejava-a de modo invasivo e ousou apontar-lhe o dedo, dizendo: "Eu estou esgotada. Pare de insistir, eu jamais vou me envolver de qualquer forma com você. Não adianta me mandar presentes caros, ir ao meu apartamento, inventar boatos sobre nós. Nunca vai acontecer nada" e tornou a repetir, enfaticamente "nunca".

O chefe desmanchou seu sorriso maldoso e transformou a expressão em algo tenebroso. Segurou o dedo que Maísa lhe apontava e torceu até arrancar dela um gemido de dor. Quando ela, por instinto, tentou revidar, foi empurrada com força, batendo as costelas na aresta do armário. Porém, foi um ato mal planejado, pois o que se seguiu foi ainda mais inconsequente. Bastou que virasse as costas para que a moça jogasse o vasos de flores que estava em cima do armário em sua cabeça, derrubando-o entre diversos pedaços de vidro quebrado e gotas de sangue vermelho vivo, como o vestido de Maísa. Ele ameaçou se levantar, segurando o maior caco de vidro que encontrou, porém, ao ouvir as vozes se aproximando no corredor, voltou a se debruçar no chão. 

Os outros funcionários abriam a porta da sala de Maísa e davam gritos de horror ao se depararem com a cena. Todos acreditavam piamente que os dois eram amantes, ainda que Maísa se esforçasse em negar os boatos, e aos poucos começaram a levantar a suspeita de que aquele ato tinha sido em nome do desespero, pois o chefe, Romeu, queria acabar com o romance. Maísa permanecia estática próxima ao armário enquanto as pessoas especulavam sobre o acontecimento como se ela não estivesse ali. Alguns a xingavam, outros faziam ameaças e ainda tinha os que cuidavam de Romeu, o qual encenava sentir dores terríveis e falsos desmaios momentâneos. 

"Você é desequilibrada mesmo, sempre suspeitei" repetia a recepcionista, uma quarentona roliça e de bochechas bem avermelhadas que nunca simpatizara muito com Maísa. No início, costumava insinuar que ela fazia trabalhos duplos como dançarina à noite, pois não aceitava que uma mulher sem marido pudesse se manter sozinha naquela enorme cidade. 

Após conseguir a distração dos colegas, Maísa escapou para os fundos do prédio para acender um cigarro e racionalizar sobre o que tinha ocorrido. Precisou fumar uns cinco para assimilar o que acabara de fazer. Sentia um misto de arrependimento e orgulho, por temer as consequências dos seus atos, mas estar satisfeita de ter retribuído de algum modo a dor que Romeu lhe provocava. Sabia que, no fim das contas, ele se sairia bem na história, enquanto ela seria, provavelmente, demitida. Ninguém a suportaria mais naquela empresa. Os funcionários amavam Romeu. Ninguém acreditava que Maísa valia de alguma coisa. Talvez, nem mesmo ela. 

Ao ser encontrada encostada no muro, tirando outro cigarro da carteira, Maísa foi rudemente arrastada até a saída, onde já se encontravam todas as suas coisas jogadas de qualquer maneira dentro de uma caixa. Ela verificou se estava tudo lá. Não possuía muitos bens. Disseram-lhe que, antes de ser levado ao hospital, Romeu insistiu para que não a denunciassem. Que bom homem ele era. Admirável. Perdoava até as vadias desalmadas.

"Vocês vão mesmo me colocar para fora sem nem mesmo saber o que realmente aconteceu?" ela tentava argumentar. "Louca traiçoeira", respondiam-lhe. Seus esforços para justificar foram todos ignorados. Raivosa, tentou voltar à sua sala para buscar alguma última prova, mas foi detida por dois rapazes, tendo a possibilidade apenas de se debater e rebaixar ainda mais a sua imagem ao ridículo.

"Vão à merda", disse, por fim, recolhendo sua caixa e se dirigindo até a saída.

Sem rumo e despejada como um vira-latas, Maísa seguiu pelas ruas até o metrô. Na hora de comprar novos bilhetes, descobriu o que faltava: tinham tirado o dinheiro da sua carteira. Ela se pôs a caminhar de volta até seu apartamento, não muito próximo dali, aproveitando que ainda era sol e seguro para uma moça como ela. As roupas amassadas, o caixote e a maquiagem borrada faziam com que a mulheres que passavam a olhasse com jeito de desprezo, enquanto os homens, cada vez mais interessados, como predadores vislumbrando uma presa fácil.

Com calos nos pés os braços doloridos, Maísa chegou em casa, tirou suas vestes e se acomodou na banheira. Os calmantes eram para parar de sentir aquele aperto sufocante no peito, o cigarro para tentar pensar no amanhã e a taça de vinho pelo cansaço da caminhada. Entre seus pensamentos, correu até o de que estava mesmo errada. Não devia ter se imposto contra o chefe. Deveria mesmo é ser mais reservada, quem sabe até arranjar, enfim, um marido. Sem essa de paixão. "Homens provêm a família, ama-se o conforto, não a companhia" dizia sua mãe.

Nem deveria estar viva, talvez. O destino certamente a castigava pelas vidas em seu ventre as quais, outrora, entregou a Deus. Ele havia a abandonado assim como ela mesma abandonara sua família alguns anos antes para seguir algumas aventuras. Restava-lhe apenas o seu irmão. Era por ele que Maísa permaneceria viva. A única coisa boa que em sua vida conseguiu manter. Embora, atualmente, despedaçada.

Vestiu-se novamente, agora com outro vestido vermelho, e foi à casa de Marcelo. Precisaria de sua ajuda para se manter enquanto não encontrasse um novo emprego, ou não conseguisse voltar para o antigo. Parecia uma ideia terrível, mas não lhe restavam muitas opções. Entre morrer de fome e morrer de humilhação, Maísa preferia estar de barriga cheia.

Marcelo

Quando ela lhe sorria da ponta da cama, era apenas um amontoado de travesseiros. Quando ela acariciava seu rosto com cuidado, era apenas o tecido da cortina roçando a sua pele. Quando ela lhe preparava um café bem quente e cheiroso, era apenas a sua janela aberta que dava para a do vizinho. Quando ela lhe dizia que o amava, era apenas um sonho. Apenas uma lembrança.

Marcelo se lembrava com detalhes do dia em que perdera sua amada Lorena. Naquela manhã, em especial, as memórias vieram vívidas à sua mente. Isso porque, de algum forma, ele podia sentir que ela estava na casa. Era impossível explicar, impossível provar tal fato. Mas ele sentia. Ele sabia que, no momento em que parou para admirar o antigo porta-retrato, algo além de seu coração tinha se mexido lá dentro.

Pôs o porta-retrato no lugar e olhou em volta. Estava tudo apagado e, pelas janelas, entrava pouca luminosidade. Marcelo foi até a cozinha. A mesa se encontrava como ele a deixou. A faca estava no mesmo lugar. Ainda sim, ouvia uma voz distante: algo o chamava. No banheiro, não encontrou nada demais, só um frasco do xampu que Lorena costumava usar ainda na prateleira. Abriu a tampa e cheirou. O odor de rosas frescas invadiu seus pensamentos.

Lembrou-se dos piqueniques que costumavam fazer no parque. Não era um lugar tão bonito, mas eles fingiam estar no paraíso, pois, tendo um ao outro, qualquer canto no mundo poderia ser. Com o tempo, a medida que os dois se envenenavam, foram perdendo o hábito, deixando para lá. Até tentaram repetir o feito certa vez, mas só conseguiram desencadear novas discussões.

Chegando ao quarto, as vozes se tornaram mais fortes. Marcelo se debruçou na janela pela qual Lorena ameaçara se jogar certa vez. Na época, ele a chamou de mentirosa e fez pouco caso da atitude. Nas semanas seguintes, Marcelo teve de arcar com todas as responsabilidades, porque sua amada estava com um braço e uma perna fraturados e o corpo repleto de hematomas. Mas ela não o deixava chegar perto para que ele cuidasse. Preferia fazer tudo sozinha a ter sua companhia.

Atormentado por esses pensamentos e pelas vozes que chiavam em seu ouvido, Marcelo encheu as mãos de comprimidos e tomou. Uma dose de Whisky ajudou a descer. Ele se arrastou pela parede até o chão, derrotado. Demorou um tempo para que os gritos cessassem e ele parasse de ver o fantasma de Lorena pela casa. Logo depois, recordou do dia em que ela foi embora. Não se matou, como ameaçava, e nem morreu de tristeza. Só fez as malas e se foi. Triste e sozinha. Em busca de um homem que não a fizesse tão mal.

Benício

Benício colocou sua gravata nova e o melhor terno. Não tinha ares de quem está para casar, mas tinha certo charme. Penteou os cabelos, ignorando as falhas que já teimavam em aparecer, e passou um pouco de gel para tornar seu aspecto um tanto mais luminoso. Sorriu para si no espelho. Jamais estivera tão bem trajado.

Era fim de tarde quando ele chegou à igreja. Os pais do noivo já o esperavam na escadaria. Lá dentro, via-se moças radiantes em seus mais belos vestidos e senhores arrumados à rigor, embora já sem tanta paciência. Estava previsto um breve atraso para a noiva. Benício não entendia. Tão bela quanto era, nem precisava gastar tanto tempo se enfeitando. Poderia aparecer como fosse, que ainda teria mais formosura do que qualquer uma que a assistisse casar naquele dia. Homem de sorte, o noivo. Era o que todos diziam.

Benício se escondeu atrás das árvores enquanto o grupo se preparava para entrar na igreja. Em fileira, foram entrando, um a um, ao som do cortejo nupcial, pais, padrinhos e damas de honra. Ele se esgueirava entre os galhos para assistir tudo, com cuidado para não ser notado. Ainda não havia sinal da noiva. Desejou, por algum momento, que ela tivesse desistido. Seus anseios foram enfim derrotados quando um luxuoso carro preto estacionou em frente à Casa do Senhor.

As mais belas rendas cobriam seus braços delicados, os quais seguravam um primoroso buquê de rosas brancas. O véu que lhe cobria o rosto, também cuidadosamente rendado, era carregado pelas damas de honra, as quais nunca se entenderam muito bem com Benício. Cada centímetro de seu vestido branco cintilava, mas não mais que o brilho da própria noiva, tão parecida com um anjo que lhe bastariam apenas as asas. Porém, seu rosto não refletia o mesmo esplendor. Seus olhos tristes e o frágil sorriso denunciavam as incertezas em seu coração. Assim, Benício se enchia, inocentemente, de uma estranha esperança, a qual o impulsionava a sair de trás daquelas árvores e se revelar para todos naquele exato momento.

Não o fez. Esperou os convidados se acomodarem na Igreja para encontrar alguma brecha discreta na porta de madeira. Assistiu toda a cerimônia. O padre pulou a parte do "fale agora ou cale-se para sempre", o que fez Benício pensar que essa era apenas uma invenção cinematográfica, uma ilusão dos filmes adocicados que ele costumava assistir com Bianca quando a levava ao cinema escondida dos seus pais. Foi lá que ele roubou o primeiro beijo e ganhou o último. Depois do noivado, eles nunca mais tornaram a se encontrar.

Já na casa dos pais do ex-noivo, agora, oficial marido, aconteceria uma pomposa festa. Os senhores, detentores de uma enorme fortuna, não pouparam para prover ao único filho uma recepção de casamento digna de rei. Benício entrou pelo jardim, com cuidado para não sujar ou rasgar o terno nos espinhos das flores, pela sua habilidade de invadir lugares sem ser notado. Tantas foram as vezes que ele penetrara o quarto de Bianca no meio da noite, que ele nem conseguia contar. Seus pais nunca percebiam nada. E ela, sorridente, se dispunha a revelar todos os seus segredos.

Por sorte, em algum momento, distanciando-se da música e das conversas animadas, a recém esposa caminhou até uma parte mais silenciosa do jardim, distraída em seus pensamentos. Parou na estufa de flores para admirar as orquídeas que ali cresciam. Nenhum delas, garantiria Benício, com a beleza comparada à dela. Nessa hora, ele saiu das sombras.

"Enlouqueceu?" exclamou Bianca, levando as mãos à boca em um gesto de horror e olhando para os lados para ver se não vinha ninguém. "Sempre fui louco por ti, Bianca" ele começou. Tinha fé de que ela responderia emocionada, cairia em seus braços e pediria para que ele a levasse dali. Ao invés disso, recebeu um olhar muito diferente dos que recebera no passado, e a exigência firme de que fosse embora imediatamente.

"Por que pede que eu vá embora como se nunca tivesse me enchido de juras de amor?" indagava. "Porque eu quero ser feliz, Benício, e não posso fazer isso com seu fantasma me rondando" ela dizia, repetidas vezes. Ele sabia que ela não poderia ser feliz com o homem com quem casou. Era um rico industrial com belas feições e um coração amargo. Exibia a nova esposa tal qual exibia os novos veículos que adquiria. E ela, submissa, restringia-se a sorrir para os amigos, como se estivesse bem feliz na posição de objeto.

Foi só pensar no diabo, para ele aparecer. Edgar, o marido, surgiu entre as flores na hora que Benício arriscava pegar a mão de Bianca. Ele empurrou o ex-namorado-proibido e pôs sua mulher para trás de si. Esbravejou que Benício se retirasse rapidamente de sua residência, ameaçando chamar os seguranças. O pobre rapaz, que não era de levar desaforos e nem de ponderar muito sobre seus atos, tascou-lhe uma bofetada no rosto logo em seguida.

Edgar caiu nos braços de Bianca, coberto em sangue, mas ainda acordado. "Vai embora!", gritava a jovem esposa. Os convidados começavam a se aproximar aos cochichos. Benício se retirou antes que chegassem os seguranças, mas passou pela porta da frente, em afronta. E saiu pela rua, sem mulher, sem destino e sem dignidade. Seguindo o curso das sombras em concordância com seu coração. Pensando se, afinal, Bianca conseguiria ser feliz, e finalmente se convencendo de que não poderia ser com ele.

Aurélio 

Homens bêbados regridem à selvageria. Ao senhor Aurélio, resta limpar os estragos. Ele recolhe, pacientemente, os vidros quebrados no chão. O motivo, não sabia ao certo. Uns brigavam por dinheiro, outros por mulheres e alguns por puro tédio. A bebida derramada no chão não contava mais história enquanto Aurélio passava o rodo, e o sangue seco servia apenas de recordação.

Estrago resolvido. Enfim, era hora do pobre homem ir para casa descansar. Saudoso era o tempo em que chegava à porta de casa e sentia o odor de bolo quentinho vindo da cozinha, onde sua mulher o esperava desde cedo para acompanhá-lo no café da manhã. As crianças corriam em volta da mesa, o mais velho, Samuel, e o mais novo, Danilo, que sempre precisou de mais cuidados. Naquela manhã, no entanto, a casa não cheirava a nada delicioso. Na cozinha vazia, Aurélio comia pão mal assado e bebia uma xícara de café quase frio. Os filhos, àquela hora, já haviam saído para trabalhar. Nos últimos anos, Aurélio tinha ficado no bar até cada vez mais tarde.

Os retratos nas paredes denunciavam os anos de ouro. Ele colocava Samuel e Danilo para dormir, beijava-lhe as testas e apagava as luzes com um "boa noite". Deitava-se com Sara, sua esposa, e eles conversavam por algum tempo sobre o dia antes de cair no sono. Essa era a parte menos interessante. O cotidiano delicado era tão mais belo que os sonhos, que Aurélio nem fazia questão de os ter. Hoje, dorme pesadamente aguardando apenas não sofrer com mais algum pesadelo.

À tarde, quando Aurélio acordou, não tardou para que Samuel voltasse para casa. Rapaz dedicado, estudou e agora trabalhava como advogado em um singelo escritório no centro da cidade. Sempre foi muito reservado, mas, depois da morte de Sara, parece que calou-se de vez. Não trocava mais que duas ou três palavras com Aurélio, que respondia no mesmo tanto. Muitas vezes quis prolongar a conversa, conhecer melhor o filho perdido, porém, pelo medo ou comodismo, deixava como estava.

"Está agitado hoje, Samuel" começou Aurélio. "Não é nada, estresses no trabalho" respondeu. Porém, o pai percebeu que aquela batida nervosa com a colher na ponta da xícara de café era sinônimo de problema. "E seu irmão, que horas chega?" o olhar de Samuel pesou sobre o pai, ao mesmo tempo em que ele finalmente parou de batucar a louça. Aurélio percebeu, em seus olhos, que se tratava de uma terrível cena se repetindo. Uma da qual ambos tinham medo, precisavam se ajudar, mas não admitiam. "Onde está seu irmão?" insistiu. "Eu não sei".

Danilo nunca se conformou com o que aconteceu no barco, nove anos antes. A viagem foi ideia de Aurélio, Danilo sempre dizia, mamãe nunca quis ir. Era apegado à figura materna desde bem novo, porque vivia doente e precisava de mais cuidados que seu irmão. Ver sua mãe se debater na água e ser sugada aos poucos pelas correntes do rio foi doloroso demais. Enquanto Aurélio e Samuel se envenenavam com café, Danilo recorreu a vícios mais pesados.

Quando ele sumia, nunca era fácil encontrar. Samuel recitou a lista de todos os conhecidos para os quais já linha ligado e ninguém tinha notícia alguma do seu irmão. Aurélio puxou a cadeira da cozinha e se sentou ao lado do filho, pensando em que lugar desse mundo sombrio poderia estar perdido o seu caçula. Sara saberia exatamente, pensava. Era uma grande conhecedora da alma humana. Ela pensaria em Danilo e apontaria com precisão o lugar para onde ele foi. Ou melhor, ela nem permitira que ele fosse. Ele sequer gostaria de ir.

"Algumas vezes, nós o encontramos no cemitério" relembrou Aurélio. "Com cigarros e garrafas de bebida bem em cima do túmulo da mamãe" disse Samuel, com desgosto. Ambos se levantaram, pegaram seus respectivos casacos e saíram pelas ruas da cidade, olhando pelos homens-coisas despejados pelos cantos das avenidas. Era uma cena inusitada, porque, geralmente, Aurélio permanecia em casa aguardado qualquer notícia. Samuel não se manifestou de qualquer forma quanto àquela atitude.

Danilo não estava em lugar nenhum. Nem nas latas de lixo, nem jogado nas ruas. Foi mesmo no cemitério que o encontraram: deitado sobre o túmulo da mãe, desorientado pelas alucinações que provocara.

Samuel recusou ajuda para carregar o irmão, colocá-lo em um táxi e para cuidar dele ao chegar em casa. Aurélio era apenas um expectador na vida de sua prole. Pelo menos lembrou-se, antes de sair do cemitério, de roubar rosas bonitas de outros túmulos para fazer um buquê para sua mulher. Ele mesmo nunca teve dinheiro nem gosto para rosas. Mas ela adorava, sendo roubadas ou não.

"Saia daqui, assassino!" gritava Danilo, quando o via. Se sóbrio já era rebelde, quando entorpecido, virava o demônio. Entretanto, de que diabolicalidade Aurélio jamais poderia o acusar. Fora ele que matou a própria mulher. Fora ele quem insistiu em viajar de barco naquele rio instável. Fora ele que, distraído, permitiu que sua esposa caísse naquelas águas escuras, na frente dos filhos, e se debatesse até a morte, lenta e dolorosamente. Fora ele que construiu a barreira entre suas crianças, por não saber lidar com a culpa dos eventos. Fora ele.

No horário habitual, recolheu-se aos seus aposentos, trocou-se e saiu de casa para trabalhar. Seu rosto estampado de desgosto e suas mãos calejadas de tanto servir aos outros. Se ao menos tivesse usado o dinheiro que recebeu quando enviuvou para investir em algum negócio. Mas não o fez, por medo. Ao invés disso, envenenava com álcool as pessoas dia após dias. E limpava os estragos que elas faziam quando, enfim, se libertavam.

Todos

O telefone toca. Era Samuel. Estava ligando apenas para dar notícias de Danilo, o qual já se encontrava dormindo como um bebê, segundo suas próprias palavras. Agradeceu ao pai por tê-lo ajudado a encontrar o irmão, não teria conseguido sozinho, e disse que eles precisavam, juntos, procurar alguma maneira de ajudar o caçula. Aurélio respondeu emocionado, prometendo que faria de tudo para salvar o filho. Samuel desligou o telefone, sem mais delongas. Aurélio permaneceu estático, segurando a linha por mais alguns minutos.

De volta ao balcão, exibia um sorriso o qual não podia controlar. Maísa sorriu para ele também. "Notícia boa, meu senhor?" ela perguntou, alegremente. "Ah, a vida às vezes no surpreende de um jeito bom, minha filha. Uma hora tudo se resolve". Ela o respondeu, pensativa "Espero que isso ocorra comigo também, um dia". E ele retrucou "Jamais perca a esperança. És uma jovem muito doce, a vida há de ser doce contigo também".

Maísa virou-se para o irmão, tocada por aquelas palavras, e admitiu que sentia vontade de voltar aos estudos. Desejava se formar como jornalista, causar algum impacto bom na vida das pessoas e mostrar ao mundo o lado bom das coisas. Noticiaria apenas notícias felizes, dizia ela. Marcelo respondeu que ela era muito boa, podia fazer todo o bem do mundo na vida de qualquer um, assim como fazia na dele. Apoiou a ideia e disse que, enquanto estudasse, ela poderia viver com ele, pois estava cansado de estar sozinho.

"As sombras daquele apartamento me enlouquecem" disse Marcelo "e você merece se dar uma chance". Maísa sorriu, envergonhada, depois de todos os lisonjeios e pôs-se a pensar sobre uma possível carreira como jornalista. Não seria fácil, ela sabia, mas tinha fé de que enfim daria certo. Ao mesmo tempo, ajudaria a resgatar Marcelo, cuja alma se perdeu há meses, quando Lorena o abandonou, mas ainda possuía um resto de luz em seu íntimo pelo qual valeria a pena lutar.

Entre sorrisos e gestos de esperança, a vidraça explodiu. Um homem de vestes negras se encontrava no meio da rua com um revólver na mão. Ele guardou a arma no paletó e entrou em um carro preto, retirando-se dali imediatamente. Maísa pôs-se a chorar copiosamente, enquanto Marcelo abraçava a irmã, sem conseguir tirar os olhos da cena nem por um segundo. Aurélio, que já presenciara muita desgraça em sua vida, limitou-se a pegar o telefone e ligar para a polícia, também pensando no trabalho que teria pela manhã.

E quanto a Benício: ele estava estático, como o esperado, com a cabeça ensanguentada caída sobre o balcão. Entre os dedos, segurava um guardanapo, e nele estava escrito o nome de Bianca, em uma tentativa falha de lhe escrever um bilhete. A jovem jamais receberia o recado. Jamais seria importunada. Viveria em paz, em fim e para sempre, exatamente como queria, junto ao seu novo marido assassino.


Escrito por: Ana Letícia 

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