O passado alerta: o amanhã será melhor

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Não banalizem a saúde mental!

Estou sem muito ânimo para escrever hoje, então não vai ser lá um texto muito bem elaborado. Mas, como estou presa num interiorzão do Rio Grande do Norte, ignorando o fato de que preciso estudar e não tendo muitas opções do que fazer, escrever é o que me resta. 

Estive lendo meu blog-diário do ano passado. Era um blog secreto no qual eu tentei escrever meu cotidiano e cujo o nome tinha a ver com "virando minha de cabeça para baixo". O objetivo desse projeto pessoal era externar meus sentimentos e usar como motivação para transformar tudo que eu estava passando. Não queria ser outra pessoa, nem viver outra vida (bem, no fundo eu queria...), eu desejava apenas me orgulhar de quem sou e viver com tranquilidade, algo muito mais difícil do que parece. Porém, estava decidida: não aguentava mais sentir o que eu sentia. 

As primeiras postagens já tinham peso bem negativo. Eu contava que alguns amigos estavam preocupados comigo, especulando se não havia algo de muito errado acontecendo. Eu negava, dizia que estava bem. Falava que meus sentimentos não eram nada e num instante passaria. Passei semanas sem escrever nada. Voltei para contar sobre minha primeira consulta com um psiquiatra, indicado pela minha psicóloga, porque eu estava com suspeita de depressão. É, foi um baque. Isso e mais alguns acontecimentos na minha família, que vieram para complicar ainda mais as coisas. 2016 não foi um ano fácil. 

Eu não sabia ao certo como pedir socorro. Pedi, muitas vezes, aqui pelo blog mesmo, em forma de textos enigmáticos cujo objetivo não era nada além de dizer "ei, alguém me ajude". Com o apoio de amigos, familiares e profissionais, além de, é claro, eu mesma, meu pedido por socorro foi aos poucos saindo da garganta. Nada nesse processo foi fácil. Abrir-se nunca é uma tarefa tão simples. Mas é necessário. Ninguém nunca saberá o que está se passando conosco se nós mesmos não falarmos. Nem todos saberão lidar com isso (a maioria, confesso), mas sempre existirá aquele amigo-anjo para jogar alguma corda até o fundo do poço.

Comecei o ano fazendo Ioga. É uma prática que eu recomendo para todo mundo que sofre de ansiedade! Aprendi a ter mais controle sobre o meu corpo e, principalmente, sobre a minha respiração, algo fundamental em momentos de crise. Ter domínio sobre si, eu aprendi com os anos, não é estar sempre sobre o controle (o que é, afinal, impossível), é saber lidar consigo em todas as situações. E também saber lidar com o fato de simplesmente não saber lidar. Sim, porque às vezes a gente perde o controle da situação mesmo. Porém, não é para se culpar ou se deixar abalar. É para respeitar a si mesmo, apenas. 

Tive que parar a Ioga porque era caro e eu estava com pouco tempo. Mais por questão de tempo, na real, pois há lugares (como no campus universitário da minha cidade) onde se consegue praticar a atividade gratuitamente, além da grande disponibilidade de canais no YouTube voltados para isso. Tentei usar Florais, compostos que se utilizam da energia das flores para a cura. Minha mãe se dava bem com eles, mas em mim não serviu muito. É o tipo de coisa que a gente nunca sabe se funciona mesmo ou se é coisa da nossa cabeça. Mas, quer saber? O que funciona mesmo é o que dá resultado. Se dar três pulinhos do lado da cama toda noite te ajuda a se sentir melhor, dê os benditos três pulinhos, mesmo que te digam que você parece ridículo fazendo isso. Só você sabe o que é melhor pra si. 

Apelei, por fim, para a acupuntura. Muita gente tem medo das agulhinhas, mas eu achava bem tranquilo. Nem doí (ok, doí no pé). O ruim era apenas ficar meia hora parada sem fazer nada, um inferno para mim, que sou agitada. Fiz por alguns meses e, sinceramente, me ajudou bastante. Muitos não acreditam nessa terapia também, confesso que até eu não tenho 100% de fé, embora tenha sentido efetivamente os resultados. Mas é aquela coisa que eu disse lá atrás: o que funciona é o que te faz bem. Só não levem essa conclusão ao pé da letra e vão fazer coisas irresponsáveis porque acham que vai ajudar, tá? Sejam cuidadosos com seus corpos. 

Observem que eu percorri um longo caminho em busca de paz. Recorri a vários métodos, juntamente à terapia, que faço há quase dois anos, para poder me sentir melhor. Existem inúmeras maneiras de cuidar da saúde mental, nenhuma é mais "correta" que a outra. Basta força de vontade e sentir-se bem. Por mais que desse vontade de jogar tudo para o alto às vezes, por mais desesperador que parecesse, eu nunca desisti de mim. Portanto, eu tento sempre convencer as pessoas a não desistirem delas mesmas também. E evito, ao máximo, causar qualquer dor nos outros, porque sempre que eu lembro de toda a dor que já senti, me vem um aperto indescritível no coração. Não desejo isso a ninguém, jamais. 

Quanto ao psiquiatra, não retornei. Ele deduziu que eu tinha problemas hormonais, mas quando fui à endocrinologista, descobri que não havia nada de errado comigo nesse sentido. Procurei outro profissional, pois aquele não me dava muita confiança. O novo me passou um antidepressivo para controle da ansiedade. Nos primeiros meses, observei uma melhora significativa quanto a parte social. Houve um tempo em que eu sequer olhava nos olhos das pessoas. Mas ainda não estava me sentindo muito bem. Ele aumentou um pouco a dose. Cada caixa da medicação, mensalmente, custa 100 reais agora. Pensem nisso da próxima vez que considerarem algum problema psicológico legal. 

Hoje, não estou dopada, feliz o tempo inteiro e nem livre de crises. Só estou vivendo uma vida tranquila, sem ter problemas para dormir todas as noites e sendo capaz de lidar com o que sinto. A cada dois meses, retorno ao médico, que sempre me pergunta se continuo na terapia, pois é fundamental. Obedeço-o direitinho. Nada de tomar decisões por conta própria. 

Daqui a alguns meses, se der tudo certo (e vai dar!), vou deixar a medicação. Quero usar o dinheiro para voltar a fazer ioga, porque realmente faz muito bem. Por enquanto, tento fazer exercícios físicos, ter uma alimentação boa e respeitar o meu corpo, hábitos muito benéficos para mente também. Eu me esforço para colocar em prática todos os ensinamentos que tirei de dentro de mim mesma nesses dois anos de terapia, embora ainda haja muito o que aprender. É difícil, mas eu sigo tentando. É uma descoberta de todos os dias e para todos os dias da minha vida. 

Voltando ao blog de um ano atrás, ao mesmo tempo que sinto dor lendo aqueles relatos sofridos, encho-me de alegria em ver que conseguir superar boa parte daquilo. Realmente, minha vida "virou de cabeça para baixo". Hoje, eu me olho com mais carinho. Eu aplico as técnicas que eu aprendi e desenvolvi em relação à ansiedade para não me deixar dominar por ela. Eu me cerco de pessoas que me fazem bem e tento fazer o bem por elas. E eu não perco a esperança, nunca. 

Outra coisa que percebi com essa leitura é que tudo é questão de perspectiva. Lembro de que, não importava a situação na qual eu me encontrasse, tudo ao meu redor parecia escuro, porque eu estava sem luz por dentro. Perdi muitos momentos magníficos por causa disso. Deixei muito de aproveitar a vida, por mais que eu quisesse, porque simplesmente não conseguia. Ok, paciência. Com o tempo, eu encontrei uma saída.

Meus relatos no blog eram cheios de aspectos negativos, mas eu sei que, se fosse hoje, eu encararia de uma forma bem diferente. Isso porque eu estou diferente, sabe? Tudo parecia terrível naquela época, mas só porque estava uma bagunça dentro de mim. Ao ajudar-me, causei uma mudança não só no meu interior, mas no mundo ao meu redor, ao enxergá-lo com outros olhos. Ele não me perece mais tão assustador quanto antes. Eu agora sou capaz de enfrentá-lo. 

Quis relatar parte da minha história lidando com saúde mental porque, numa época em que muito se fala de suicídio, queria compartilhar algo real de alguém que passou por isso. Nunca tentei me matar, porém, sinceramente, já houve momentos em que eu não me importava de estar viva. Sei que cada um tem um jeito próprio de ver o mundo e é atingido por doenças diferentes de formas diferentes, mas isso não significa que não exista saída. Para todos os problemas existe uma saída, ou melhor, várias! Tirar a própria vida não é a melhor entre elas. Você pode não enxergar isso agora, mas é uma pessoa tão linda e tão cheia de oportunidades, que merece dar a si mesmo uma chance. Por favor, acredite em si. Você é forte. Você consegue. 


Obrigada aos que foram importantes para mim nesse processo, e continuam sendo. Obrigada ao blog. Obrigada aos leitores, meus companheiros silenciosos. 

Postado por: Ana Letícia 

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