Sob os holofotes

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Imagem de hands, blue, and dark

Longe dos holofotes eu me encontro. Não falo de luzes incidindo sobre mim: elas jamais me iluminariam. Mas dos flashes que cortam as sombras e exibem somente o desejado. Não se vê o ocultado no breu, ninguém se dispõe a enfrentar as guerras e os fantasmas habitantes da escuridão. E eu, sob as trevas, me encolho, mais por medo de enfrentar a claridade que por audácia de encarar os meus demônios. Opto, portanto, por mergulhar nesse tenebroso mar de pensamento conflituosos, cujas águas negras, outrora verdes e límpidas, já não permitem sequer vislumbrar aqueles flashes ilusórios. 

Você deseja sempre sorrir para o seu reflexo no espelho e que seu rosto esteja permanentemente corado, como no amanhecer. Esquece-se, pois, que depois do pôr-do-sol, se segue a noite escura, aplaudindo-o como mais um mero fragmento do seu espetáculo quebrado e acendendo todas as velas para simular o esplendor da manhã. Não enxerga que basta uma brisa gélida para transformar em fumaça os seus delírios luminosos. 

Admito: eu poderia ser como você. Exaltar-me em beleza e me prender às tardes de verão, tudo pelo medo de não estar mais sob os holofotes. Porém, aproveito a distração e a penumbra dos dias nublados, porque, ao seu oposto, tenho medo das luzes. Somos parecidos somente um aspecto, dessa forma: ambos receiam gozar dos admiráveis raios de sol para escancarar o próprio ser. Preferimos, ao nosso modo, ocultar os detalhes. Somos apenas dois covardes negligenciando os mesmos temores de maneiras distintas. 

Contudo, a ti ainda cabe o poder de ditar as leis, enquanto a mim resta o ridículo ou a obediência. Eu não me encaixo nas suas medidas, nem sei agir com os seus modos. Até quando você diz ser diferente, vejo seu rosto estampado na multidão. Digo não me importar, desviar o olhar quando você passa, embora, pelos cantos dos olhos, acompanhe todos os seus passos. Conheço as regras, o jogo e as suas táticas, mas as minhas peças, de algum modo, nunca seguem a correta direção. 

Ainda assim, não posso dizer ao todo que as luzes são ruins: seu calor é necessário à compreensão. Encará-las com coragem só é possível sem ressalvas, sem se esquecer de nada dentro da caixa, para obter, enfim, a liberdade. No entanto, eu as temo pela incerteza de poder estar sob elas. Por não sentir, sequer, a luz dentro de mim. E por me entregar tão displicentemente às sombras que acabo me tornando, assim como elas, autora dos meus próprios demônio. 

Postado por: Ana Letícia

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