Barcelona

17:46

essa sou eu, muito pensativa no bairro gótico


Há um ano, a memorável Barcelona me recebia e eu caminhava destemida pelas suas Ramblas. Foi uma emoção indescritível realizar aquele sonho, o qual nunca pensei que se tornaria real tão cedo em minha vida. Minha paixão pela cidade nasceu em A Sombra do Vento, e cresceu à medida que eu devorava mais romances do Zafón. Assim que pus os pés no Bairro Gótico, ocorreu em mim o pensamento de que, entre aqueles rostos estrangeiros, dentro do pitoresco universo da minha mente, eu poderia acabar esbarrando com Daniel Sempere, David Martín ou até mesmo um figurão como Fermín Romero de Torres, embora supostamente tivessem vivido em uma época muito anterior à minha.

Não vou negar, foi um pouco decepcionante. Sei que não é esse o comentário esperado, mas vou explica-lo a seguir. Conheci Barcelona pelas narrativas empolgantes de Zafón, não por acaso meu escritor predileto. Aprendi a olhar a cidade com os olhos e corações tempestuosos de seus personagens, com uma áurea mística e fantasmagórica. Tinha quase um mapa detalhado dos seus bairros, das suas ruelas e dos seus mistérios. Além disso, minha visão se perdeu no início do século XX, no qual a maioria dos livros são ambientados.

Ao desembarcar do taxi, em frente ao apartamento onde eu e meus tios nos hospedaríamos por quatro dias, tão próximo à Sagrada Família, meu coração estava cheio de expectativa. Mas, no decorrer dos nossos passeios, percebi que eu era somente mais uma turista na multidão. A cidade estava cheia de nós. Haviam pichações nas paredes, feitas pelos moradores, manifestando o desejo de que os visitantes fossem embora, porque ‘‘a vizinhança precisa descansar’’. Senti-me uma intrusa.

O Parque Guell não estava absorto pela atmosfera encantada que existia em meus devaneios. Na entrada, exibia-se um quadro de preços bem grande para fazer a visitação. Na sua colina mais alta, era impossível permanecer por mais de cinco minutos, tamanha era a circulação de pessoas e abordagem insistente dos vendedores ambulantes. Não ocorreu nada diferente nos demais locais visitados. Eram todos pontos turísticos.

Hoje, a cidade é moderna, dinâmica, cosmopolita e eletrizante. Nada parecido com as descrições carregadas de melancolia com as quais eu estava acostumada. Não havia nem sombra do suspense e do aspecto macabro que tanto me encantava e invadia meus pensamentos ao ler meus romances prediletos. No lugar, existia uma metrópole digna do século XXI e bem mais fiel ás expectativas de qualquer outro turista.

Não pensem que estou desmerecendo a beleza e as atrações da cidade com esse texto, porque eu continuo totalmente apaixonada pelo lugar. Voltaria mil vezes e passaria muitas tardes para lá e para cá no metrô – o primeiro que usei – para visitar pontos que deixei de fora no meu primeiro roteiro. Trata-se apenas uma confissão de uma leitora ávida, um tanto sonhadora, que constatou que a literatura guarda encantos que a realidade jamais poderá proporcionar.


Obs. – fico triste ao lembrar que nunca terminei meus relatos sobre essa viagem, mas infelizmente não vejo mais sentido em postar, tantos meses depois. Esse é um pedido de desculpas para mim mesma. 

Postado por Ana Letícia

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