Caso de família

13:58

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OBSERVAÇÃO - meu computador está com problema nas duas teclas SHIFT. faço o que posso, mas é difícil pontuar assim. perdão pela falta de crases. 


Postado por Ana Letícia


Parei em frente ao portão com as dobras dos dedos doloridas após caminhar vários quarteirões com pesadas sacolas. Ao encontrar os produtos sobre a mesa da sala e o respectivo endereço de entrega, deduzi que minha mãe me enviou para deixar a encomenda daquela noite por julgar ser uma oportunidade de extrema importância para conquistar seu espaço como comerciante local. Era a casa de uma das famílias mais abastardas da região, seio de um colega de classe com o qual nunca troquei uma palavra sequer, porque ele era um garoto com vasto ciclo social e eu não possuía as mesmas habilidades.

Consegui apertar a campainha com o ombro, de maneira humilhante, para não ter que largar as sacolas no chão. Tratavam-se de produtos de beleza variados e gosto duvidoso, mas que ajudavam bastante a complementar a renda de nossa casa. Nós éramos novos naquela cidade pequena, então minha mãe visitava os vizinhos para fazer suas ofertas e tentar conquistar a fidelidade da clientela. Estava dando certo, até o momento, mas não tanto quanto precisávamos. Muitas dívidas haviam sido deixadas em nossa antiga morada e os cobradores enviavam-nos os lembretes de cobrança quase todos os dias.

Alguns intermináveis segundos se passaram até que alguém surgisse do outro lado do portão. Durante esse tempo, pude observar alguns aspectos curiosos da residência. A vegetação que penetrava os muros era verde e florida, mas parecia ir definhando aos poucos a medida que se aproximava da casa. Manutenção de aparências, pensei. Parecia-me uma construção extensa, envolta por um interminável jardim, no entanto, tinha ares de abandono. As janelas da fachada estavam cobertas por cortinas, mas pude notar uma luz fraca lá dentro.

- Você deve ser o filho de Elena Aguiar! Entre, por favor, entre – disse a mulher de meia idade e cabelos rubros que abria o portão. Enquanto isso, tagarelava, sem que eu estivesse muito atento.

Ela pediu, alegremente, que a seguisse para dentro. Respirei e caminhei junto a sua sombra, pensando sobre o fato de aquela ter sido a maior encomenda recebida pela minha mãe desde então. Dona Lívia não parecia uma senhora vaidosa. Seus fios avermelhados estavam espalhados desordenadamente em uma tentativa de prende-los no alto da cabeça. Seu rosto envelhecido lhe daria uns vinte anos a mais com facilidade. Pensei se aqueles produtos seriam para ela, numa súbita vontade de se parecer com as outras senhoras endinheiradas do bairro, ou se eram apenas presentes para terceiros.

A impressão que tive das flores no portão era verdadeira. O jardim era deprimente quando próximo a casa. Ao notar minha expressão curiosa, Dona Lívia pareceu querer se justificar.

- Nosso jardineiro faleceu recentemente. Que Deus o tenha, mas as flores que aqui existiam não eram tão queridas por ele quanto as roseiras lá na entrada. Uma tremenda injustiça, não?

Limitei-me a concordar, para parecer atencioso com aquela excêntrica cliente. Entrei na casa. Era uma antessala bastante decorada, com uma poltrona vermelha desgastada, um jarro de flores falsas, papel de parede escurecido e vários retratos na parede. Todos os olhares pareciam tristes e voltados para mim.

Segui para a sala de estar, onde havia uma mesa de centro antiquada na qual Dona Lívia me orientou a deixar os pacotes. Em poltronas exageradamente vermelhas, tão encardidas quanto o sofá do cômodo anterior, estavam sentados o seu marido e o meu colega de classe, Tomás, arrastando tediosamente peças de xadrez sobre o tabuleiro. O homem mais velho me sorriu com dentes amarelados e me causou um estranho incomodo, como se ele pudesse me ferir daquele modo. O jovem prodígio, colecionador de títulos esportivos e em competições de matemática, levantou-se e caminhou até mim com um sorriso afável para apertar a minha mão.

- É um prazer recebe-lo aqui – disse, enquanto apertava meus dedos vigorosamente.

- O prazer é meu.

- Nos acompanhe – convidou, apontando para uma garrafa de vinho aberta e, curiosamente, três taças cheias próximas ao tabuleiro de xadrez – fique conosco enquanto minha mãe trás o seu pagamento.

- Obrigado – respondi, desconsertado – mas preciso voltar logo para casa.

- Fique, querido, sei que ainda não fez muitos amigos nesta cidade, esta é uma ótima oportunidade de estreitar os laços – reforçou Dona Lívia, antes de sumir pelo corredor. Senti um pouco de vergonha ao saber que minhas inabilidades sociais tinham se tornado um assunto possível.

Acabei concordando em me sentar um pouco e beber uma taça com eles. Afinal, aprendi com minha mãe que era preciso fazer alguns sacrifícios as vezes para agradar os clientes. Tomás me ofereceu a taça de vinho tinto e eu acabei esbarrando nos seus dedos gélidos. Sorri e tomei um gole para disfarçar o susto. O liquido desceu em chamas pela minha garganta, porque eu não tinha muito costume. Enquanto isso, olhei ao redor e analisei aquela sala, que parecia ter muito mais que o dobro do tamanho da minha. Seguia a mesma decoração pavorosa da antessala e exalava um luxo ao qual minha família jamais se permitiria.

Eles eram donos de vários estabelecimentos na região, enquanto nós éramos apenas uma mãe solteira falida e um estudante sem grandes perspectivas para o futuro. Meu pai me enviava dinheiro mensalmente para ajudar com as despesas e anualmente me levava para as passar férias com ele, porque suas condições eram um pouco melhores, então eu podia desfrutar de certos luxos vez ou outra. Mas eram sempre semanas tediosas e constrangedoras partilhadas com ele e suas namoradas (a que estivesse com ele naquele mês), pois nunca foi possível estabelecer uma amizade verdadeira entre nós dois. Éramos completos estranhos um para o outro, essa era a minha amarga realidade.

Entretanto, há meses ele não me telefonava ou depositava qualquer quantia na poupança. Gostaria de questionar a minha mãe sobre a razão pela qual ele havia sumido, se estava passando por alguma dificuldade ou apenas desistiu de mim. Mas não era possível, porque, nos últimos tempos, nem ela se dispunha a trocar palavras comigo. Embora fosse uma família estranha, eu me senti um pouco menos solitário na casa de Tomás, porque dialogar com outras pessoas vinha sendo um evento raro em minha vida desde a minha mudança.

- Tem gostado da cidade? Não te vejo em muitos lugares além da escola. Acho que não teve oportunidade de explorar direito.

- É, eu não saio muito.

- Poderia sair comigo e meus amigos qualquer dia desses.

- Agradeço o convite.

- Acredito que Lorelai te acharia um rapaz interessante – disse Tomás, referindo-se a uma colega de classe que eu achava particularmente bonita – podia apresentar vocês dois.

- Sério? – era impossível não perceber a expectativa carregada em minha pergunta.

- Por que não?

- Sei lá, eu não imaginaria isso – ele riu, como se eu tivesse dito algo muito engraçado.

- Você não sabe de tantas coisas, meu amigo... – respondeu, pensativo – já foi ao nosso restaurante, na rua principal? Temos um cardápio muito elogiado e a melhor vista para as montanhas.

- Não – eu disse, sem jeito de lhe dizer que aquilo estava muito além das minhas possibilidades.

- Que tal jantar em nossa casa esta noite? – sugeriu o pai, amavelmente.

- Minha mãe está me esperando para jantar – menti. Minha mãe estava trabalhando como garçonete numa lanchonete de baixa categoria naquele momento.

- Ah, ela não vai se importar de fazer essa refeição sozinha. Hoje a nossa cozinheira está muito inspirada. Já provou um verdadeiro Cassoulet, meu jovem? – neguei com a cabeça – então nos acompanhe. Você parece alguém de paladar refinado, irá gostar.

Deixei a taça quase intocada de vinho na sala de estar e os segui para a sala de jantar, onde havia uma extensa mesa de madeira escura sob a qual se destacavam preciosos pratos de porcelana. Sarah, irmã mais nova de Tomás, já estava sentada. A cabeça baixa e os cabelos negros ocultavam seu rosto tímido. Dona Lívia apareceu com um envelope marfim, que deduzi conter o meu dinheiro, mas o guardou assim que soube que o jantar seria servido. Não seria adequado, segundo ela, tratar de negócios na hora de refeição.

Acomodamo-nos nas cadeiras e eu observei a família conversar sobre assuntos os quais eu pouco compreendia e nenhum interesse tinha. As luzes daquele cômodo eram tênues, mergulhando-nos em uma penumbra incomoda que distorcia as feições das pessoas. Eu não podia enxergar nada do rosto da garota silenciosa a minha frente. O pai de Tomás tinha o sorriso ainda maior e ainda mais pavoroso sob aquela luz. Dona Lívia parecia mais velha, com mais rugas e expressões não tão simpáticas. Já Tomás ainda conservava sua beleza cativante, mas com algum toque tenebroso em sua face, e eu sentia que seu olhar penetrante poderia ler facilmente todos os meus mais íntimos pensamentos.

Quando o jantar foi servido por empregados muito sérios e silenciosos, notei que o Cassoulet não se assemelhava muito ao que eu pensava conhecer. Esse prato de origem francesa costumava ser feito com feijões e carnes variadas, mas aquilo que se apresentava a minha frente possuía um aspecto bastante asqueroso. Uma tigela com líquido escuro e espesso também foi posta a mesa, mas eu não conseguia identificar do que se tratava. Pôs-se também frutas podres, massas escuras e mais vinho. Enquanto os empregados me serviam, notei que a louça usada não parecia tão límpida.

Meus anfitriões iniciaram a refeição, enquanto eu, um tanto enojado, pedi licença para ir ao banheiro. Queria escapar da casa imediatamente, mas eu precisava do dinheiro. Limitei-me a tentar respirar um pouco de ar puro pela janela do banheiro, porque aquele lugar inteiro estava irritantemente impregnado por um odor de incenso e cinzas de cigarro. No entanto, não havia janela.

Encarei-me no espelho. Pensei ter visto a minha sombra mover-se, mas era apenas um delírio. Surgiu-me a ideia de lavar o rosto, mas a crosta de imundice que cobria a pia me desencorajou. Era um cômodo ridiculamente sujo. Algum odor desagradável subia pelo encanamento e eu já não conseguia me concentrar em mais nada por causa disso. Após algum tempo tentando avaliar as minhas possibilidades, abri a porta e saí pelo corredor escuro com pouca vontade de voltar a sala de jantar, porém disposto a inventar qualquer mentira convincente.

Estava vazio. Os pratos haviam sido retirados. Estranhei, porque eu não havia passado tanto tempo trancafiado no banheiro. Ou havia? Restava apenas um jarro de flores apodrecidas sobre a mesa e a decoração cafona. Aproximei-me e parei para observar a fotografia pendurada em uma das paredes. Os quatro familiares estavam juntos, mas não se tocavam e tinha um aspecto sórdido. Perguntei-me se eles costumavam se parecer assim ou se aquela foto só era muito estranha mesmo, mas não consegui regatar nenhuma boa memória sobre eles.

Estremeci com um toque gélido em meu ombro.

- Venha brincar comigo – disse a menina de cabelos negros, puxando-me pela mão e guiando-me mais uma vez pelo corredor desalumiado.

Pude analisar seu rosto pela primeira vez. Era alvo e polido, ausente de qualquer expressão, em contraste com seus lábios débeis e avermelhados. Os olhos grandes, destacados pelos cílios naturalmente volumosos, pareciam ser esculpidos em vidro. Porém, algo nessa face tinha uma áurea nefasta, sem que eu pudesse identificar bem o que, pois Sarah era apenas uma criança e eu acreditava que elas eram todas cheias de vida, bondade e inocência.

Ela me levou a um quarto banhado por uma luz âmbar, com paredes cor-de-rosa e dezenas de bonecas de porcelana espalhadas pelos cantos. Eram todas muito delicadas e repletas de detalhes, tão pálidas quanto sua proprietária. A irmã de Tomás era assustadoramente semelhante a elas, como se fosse apenas uma boneca que ganhou vida naquela noite.

Ela me fez sentar no chão em um círculo de brinquedos e sentou-se ao meu lado.

- Não tenha medo delas. Estão vazias, sem espírito e sem virtudes – disse com uma voz doce, um pouco solene demais para os seus dez anos.

- Eu não tenho medo de bonecas.

- E não precisa. Só não deixe que elas roubem a sua alma – respondeu, com um sorriso malicioso.

A garota travou uma discussão acalorada e solitária com as suas bonecas, reproduzindo suas vozes e parecendo muito interessada no que elas supostamente tinham a dizer. Fiquei observando a brincadeira, sem entender ao certo porque eu ainda estava ali. Sentia-me cansado, foi um dia exaustivo na mercearia na qual eu trabalhava meio período a tarde. Meus superiores eram uns gananciosos escrotos, mas eu precisava ajudar a minha mãe com as despesas de casa. Se os cassinos não fossem tão atrativos para ela, talvez não estivéssemos precisando passar por aquela situação. De qualquer modo, era tarde demais para pensar sobre isso.

Meu corpo pesava como nunca e minha cabeça estava começando a girar. Nunca tinha me sentindo tão cansado quanto naquele momento. Comecei a fechar os olhos lentamente, quando Sarah tocou em minha pele novamente com seus dedos frios.

- Oh não, eu te avisei.

- Avisou o que? – perguntei, ingenuamente.

- Que elas estavam sedentas pela sua alma.

Senti um arrepio imediato quando entendi sobre o que ela estava falando. Levantei-me devagar, tentando me dirigir até a porta. O quarto parecia ter ainda mais bonecas do que havia quando entrei. Minha visão turva começava a me impedir de identificar se eram mesmo brinquedos ou espectros demoníacos. Sarah continuo brincando no chão, rindo de uma maneira desconcertante. São apenas brincadeiras de uma garotinha solitária, pensei, não há nada a temer, repeti. Encontrei a saída com dificuldades, reuni as forças que me restavam para girar a maçaneta e me larguei no corredor.

- Estava a sua procura, meu rapaz. Não pode ir embora sem seu dinheiro – disse o pai de Tomás, com seu sorriso sinistro – tenho aqui o envelope, mas minha adorável esposa gostaria de se despedir de você. Ela está em nosso quarto, subindo as escadas.

- Obrigado.

- Foi um prazer tê-lo conhecido.

Apertamo-nos as mãos, o que me deixou bastante desconfortável. Coloquei o envelope marfim no bolso, caminhei alguns passos rumo a escada e olhei para trás. Aquele senhor continuava estático, observando-me com o olhar vago, como um manequim. Sob a penumbra ele parecia ainda maior e o seu sorriso, mais tenebroso.

Dei três batidas na porta antes que obtivesse resposta. Penetrei o cômodo sorrateiramente, ainda com pouco folego após o episódio no quarto da caçula, sobre o qual minha mente confusa não me permitia mais definir a veracidade das memórias. Era muito mais luxuoso e nauseante do que qualquer outro naquela casa. Dona Lívia se encontrava em frente a uma penteadeira pútrida, com o rosto fora de meu campo de visão, e sob ela estavam vários dos produtos que eu entreguei.

Aproximei-me devagar, disposto a dar um adeus rápido e solene para voltar a minha casa o mais depressa que eu pudesse. Dona Lívia estava passando um batom escarlate quando eu avistei seu rosto. Ela estava com os cabelos soltos e emaranhados, mas agia como se aquele fosse um penteado muitíssimo luxuoso. Suas vestes me lembravam outra época, provavelmente um tempo no qual as senhoras usavam esses vestidos para ir à igreja nas tardes de domingo e não haviam programas de auditório na televisão para distrai-las. O rosto era o aspecto mais chamativo. Ela estava maquiada de modo extravagante, realçando prováveis intervenções cirúrgicas e exageros estéticos. As bochechas estavam cobertas por uma coloração rosada e cintilante, enquanto os olhos estavam pintados de azul. Ela sorriu para mim e pediu que me aproximasse, mas eu dei um passo para trás.

Sem se importar com a minha atitude, a medonha senhora avançou em minha direção e eu me afastei até tropeçar e cair de costas no colchão mofado. Fiquei sem reação quando ela começou a desabotoar o vestido antiquado e tentar subir em cima de mim. Ela parecia se deliciar com a situação e a minha expressão de terror, enquanto arrastava as unhas sem delicadeza pela minha pele. Segurei seus braços para impedi-la de continuar e a joguei de lado, bem no momento em que o filho entrou.

- Tomás! – gritou Dona Lívia, chorosa – Tomás, o seu amigo não entende que sou uma senhora casada!

- Acalme-se, mamãe – disse o rapaz, sempre com sua expressão incomodamente amável – esses jovens são todos cheios de hormônios e com pouquíssimo juízo.

- Tomás, não é isso que você está pensando... – comecei.

- Não se preocupe, meu amigo. Quem nunca se encantou por uma senhora bem-apessoada, hein? – respondeu, piscando um dos olhos.

- Falo sério, eu só estava tentando ajudar...

- Não precisa se desculpar, só me acompanhe. Deixe mamãe se recuperar em paz.
E eu o segui, sem pestanejar, mais por vergonha do que por qualquer outra razão. Dona Lívia voltou para a penteadeira e continuou a se arrumar, passando os dedos pelos seus cabelos ruivos e admirando uma beleza inexistente. Assim como o marido, de longe, ela se assemelhava a um manequim. Parecia uma boneca montada de maneira grotesca para compor o cenário. Quando sai do quarto, ela estava estática. 

- Pedro, eu não tenho uma família comum.

- Notei – respondi, com receio.

Entramos no quarto de Tomás e eu me senti imediatamente reconfortado ao perceber que se tratava de um ambiente perfeitamente comum. As paredes eram pintadas de branco e os móveis de madeira clara pareciam confortáveis a minha visão. Sentei-me em sua cama de lençóis límpidos e permaneci quieto enquanto Tomás procurava alguma coisa em suas gavetas. Ele se desculpou pelos ocorridos daquela noite, insistindo que deveria fazer algo por mim antes de me deixar ir embora. Eu só queria correr para fora da casa.

- Fiquei muito feliz quando mamãe me contou que você viria a nossa casa – iniciou Tomás, ainda sem se virar.

- Como ela sabia que seria eu quem viria?

- Foi apenas um palpite – disse, olhando sombriamente para mim.

- Desculpa, Tomás, mas eu realmente preciso voltar para casa. Minha mãe está esperando por mim e eu já causei muitos transtornos por aqui.

- Não, meu amigo, ela não espera mais por você há meses.

- O que quer dizer com isso?

Tomás se virou completamente. Suas mãos seguravam um revólver apontado para mim. Levantei-me instintivamente da cama, com o terror preenchendo todo o meu corpo. Varri a sala com meu olhar em busca de possíveis rotas de fuga, mas não havia. Eu estava completamente encurralado. Ele permaneceu sustentando o revólver com firmeza e experiência enquanto se aproximava, mas eu não tinha chances de ter qualquer reação. Resolvi apelar por minha vida, deixando os resquícios da minha dignidade se esvaírem.  

- Por favor, não atire – minha voz era trêmula, assim como minhas mãos.

- Não lhe fará mal algum – respondeu, com frieza.

- Eu não estou brincando, é sério, guarde essa arma.

Fiz um movimento de aproximação e, sem avisos prévios, Tomás atirou. O tempo congelou naquele instante. Senti o objeto metálico perfurar meu corpo e um frio cortante percorreu toda a minha extensão. Fechei os olhos, sentindo que a qualquer instante eu perderia a consciência para sempre. Mas não foi isso que aconteceu. Meu colega se aproximou e retirou, ele mesmo, a bala cravada em meu peito. Fui tomado pela estranha sensação de que já tinha passado por aquele momento antes, embora não recordasse de nenhuma ocasião na qual tivesse sido baleado. Ao abrir os olhos, ainda temeroso, olhei para minha camiseta e não havia nem sinal de rasgo. Minha mente foi imediatamente invadida por um turbilhão de pensamento, entre os quais estava o questionamento: estou louco?

- Ela não pode te fazer mal, porque você já está morto, Pedro. Você morreu naquela noite em que sua mãe não pôde pagar as dívidas e levaram o bem mais precioso que lhe restava. Ela lhe trouxe, em memória, a essa cidade infernal porque não consegue te deixar partir e você veio por não conseguir deixa-la sozinha.

- Você é um monstro – rebati, andando rápido em direção a saída. Eu não queria ouvir mais nada daqueles absurdos. Tomás me acompanhou.

- Não sou, meu amigo, eu sou uma alma tão amaldiçoada quanto você. Perdi-me nesse mundo vazio e criei essa família maldita para mim. Mas você não precisa ficar aqui. Você pode ir embora.

- Eu estou indo embora! –gritei, andando cada vez mais depressa, embora ele sempre parecesse estar falando bem atrás de mim, sobre meus ombros.

- Fuja de mim, mas não tente escapar do seu destino – ouvi-o falar no momento em que cruzei a porta de entrada.

Quando meus pulmões já não tinham mais forças para me manter correndo, parei no meio da estrada e me atrevi a olhar para trás. Aquela distancia, a construção que outrora me pareceu uma casa suntuosa, não passava de um casarão abandonado. Recolhi o envelope em meu bolso para descobrir se ao menos a estranha visita me rendera um bom dinheiro, no entanto, existiam apenas algumas cédulas, que há muito tempo não circulavam mais. Joguei no lixeiro mais próximo, sem saber como explicar isso a minha mãe.

Ao chegar a minha casa, resolvi não a acordar, pois já estava dormindo e eu, muito abalado com aqueles clientes desastrosos. Meu corpo pesava de cansaço, mas, como em todas as noites, eu não conseguia dormir. Passei a noite em claro com minha mente atordoada pelos meus pesadelos.

Na manhã seguinte, chegando na sala de aula, não havia sinal de Tomás, nem parecia que qualquer um de seus colegas se lembrava da existência dele. Tentei perguntar a um deles sobre seu paradeiro, mas nenhuma daquelas crianças mimadas quis olhar em meus olhos para responder.

Fui para casa com raiva, decidido a descobrir aonde aquele degenerado havia se escondido. Entrei na cozinha e encontrei minha mãe sentada a mesa, tomando uma xícara de café forte. Seu olhar estava perdido e a expressão vazia, enquanto o café esfriava sobre a mesa sem sequer ter sido tocado. Chamei pelo seu nome, vencendo todas as nossas barreiras e tentando forçar uma socialização real pela primeira vez em meses, mas não fui respondido. Tentei abraça-la, sem obter correspondência. Então, ela se levantou e jogou a xícara com força contra a parede, espalhando cacos de vidro por todo o chão. Sentei na cadeira onde ela estava e li a notícia estampada na capa de um jornal "Assassinato de Pedro Aguiar completa 11 meses e polícia ainda consegue apontar culpados".

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