O veneno dos dias

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Photo by Gabriel Barletta


Postado por: Ana Letícia


O veneno dos dias corrói o meu peito e desfaz os meus profusos devaneios. A monotonia é a cadeia cotidiana da obrigação de provar ao mundo que somos alguém, sem arriscar as valentias ou se perder em nuvens de ideias lunáticas. As multidões me empurram adiante, em seu fluxo contínuo e inconsciente, enquanto eu escorrego sozinha para trás. Mas os segundos correm ininterruptamente, não é possível abandonar esta jornada. As minhas células definham em meu infinito particular. Um relógio parado é ilusão: estou cada vez mais perto do fim. 

O veneno que nasce em mim percorre meus ossos como ácido, rouba-me o ar e consome meu ânimo. Sinto-me como as “cidades que não dormem”, obrigadas a manterem freneticamente seu ritmo ludibriante enquanto os indivíduos se envenenam em busca dos instantes perfeitos. Não posso fechar meus olhos ao anoitecer e abandonar meu corpo sobre a tranquilidade, pois tormentos sempre aparecem em sombras maiores quando caem as trevas. Não consigo ler as placas nas esquinas das ruas para saber onde estou, portanto tomo sempre os mesmos caminhos, caindo em um vórtex de sensações e lembranças desagradáveis conhecidas apenas por quem está genuinamente perdido. 

Eu caminho pelas cicatrizes da cidade envolvendo meus braços para não revelar as feridas abertas que o tempo não fecha e estaciono em um semáforo qualquer sem poder seguir em frente mesmo quando o verde ilumina o asfalto. As silhuetas que enxergo do outro lado me indicam para prosseguir, mas meus pés não se movem sequer um centímetro. Estou estagnada, como o presságio de uma tempestade negra que nunca chega, mas ameaça. Não sei se ainda posso fugir, porém, algo em mim insiste para ficar. Sinto que os pingos gélidos que cairão pesadamente sobre a minha pele escura me tornarão mais forte e que aprender a brincar na chuva mais é agradável do que esconder-se dela. O único requisito, no entanto, é a força da coragem, a qual há tempos junto as migalhas dentro do meu coração.

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