Descobrindo vida na cidade grande

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Ao realizar um trabalho no bairro de Ponta Negra, passei pela experiência de andar a pé por alguns trechos da região, algo que evito bastante, mesmo sendo moradora, por medo ou puro desinteresse. Eu e mais dois amigos iniciamos nossa jornada na igreja da Vila de Ponta Negra e adentramos essa área tão negativamente visualizada por boa parte dos moradores da cidade sem conseguir construir expectativa alguma sobre o que nos aguardava. Conhecida como um antro de drogas e turismo sexual, a Vila carrega sim as suas cruzes, mas não merece ser reduzida a isso. Descobrir a sua história é uma excelente lição sobre a formação e desenvolvimento da cidade moderna de Natal, e conhecer os seus caminhos é uma prova de que essa mesma cidade ainda carrega, em alguns pontos, a energia das pessoas comuns, que se encontram, que conversam e que vivenciam a comunidade. 

Descobri-me preconceituosa por temer essa experiência, porém, como eu sempre digo, o primeiro passo para vencer o preconceito é reconhece-lo. Desde que iniciei o curso de Arquitetura e Urbanismo, venho descobrindo diversos preconceitos geográficos incutidos em mim, nos quais venho trabalhando incessantemente para desconstruí-los desde então. É óbvio que Natal tem se mostrado uma cidade com índices de violência alarmante, mas... será que somos só isso? Olhemos com um pouco mais de carinho para o nosso lar e deixemos nossos olhos apreciarem até mesmo aqueles detalhes mais ínfimos do cotidiano, eu apelo. Tenhamos carinho pela nossa cidade! Se desistirmos de lutar por ela, então a perderemos de vez.

Postado por Ana Letícia 


Agora, aliado ao vídeo, contarei um pouco sobre a experiência de gravar esse trabalho: 

A vitalidade que existe na Vila de Ponta Negra é contagiante. Enquanto caminhávamos, elementos tão distintos, pela avenida principal, vários olhares de moradores atentos se voltavam em nossa direção. O que três jovens estranhos fazem com uma câmera na mão gravando o nosso bairro? Eu imagino que eles pensaram. A minha vontade de era correr até cada um deles e lhes explicar o ocorrido, mas era impossível. Restava a nós tentar adentrar um pouco naquele mundo sem parecer tão invasivos, captando seus detalhes e sentindo suas paixões da forma mais discreta que conseguimos. 

Nós encontramos casas abandonadas tão belas que mereciam ser protagonistas de alguma crônica qualquer dia desses. Havia uma cor-de-rosa, totalmente alheia à modernidade, perto de outra com paredes verde-musgo, e nós precisamos parar nesse trecho para observá-las porque não se encontra belezas como essas todos os dias. Mas a minha preferida foi uma toda de pedra, com a vegetação do jardim tomando a fachada, como uma casa perdida num bosque encantado bem no meio da cidade. Ela era bastante convidativa, mas bem inacessível. Parecia o último resquício de magia perdido no meio de um vale de asfalto. Queria adentrá-la, mas não era possível. Conformei-me em filmar a fachada. 

Na pracinha, as crianças brincavam de correr e os idosos faziam exercícios na academia comunal. Havia muito movimento e o vaivém dos carros gerava um barulho incessante, impedindo o silêncio de se instalar. Ao fundo, era possível ouvir o canto dos pássaros enquanto nenhum ônibus estava passando, comprovando a existência da tranquilidade mesmo em meio a toda aquela agitação. As cores das fachadas se confundiam com as cores das flores da praça e dos transeuntes para lá e para cá. Os sons das conversas e os barulhos de risadas formavam uma só sinfonia. Até mesmo as pedrinhas do asfalto pareciam ter alguma vida nesse lugar. Nós realmente não queríamos ir embora.

Mudamos o cenário. 

As ruas dos prédios elegantes eram vazias e cheias de muros. As câmeras de segurança e cercas elétricas eram os únicos que nos faziam companhia. Apenas o silêncio se atrevia a preencher aquele vazio, sendo quebrado, ver por outra, pelo som de algum carro passando ou qualquer pedestre desavisado. Não havia sequer moradores curiosos nas sacadas dos prédios observando nossas atividades. Não fomos muito além de duas ruas. Nossa aventura se encerrou ali.

Para não terminar o relato em clima melancólico, acrescento que o passeio pela Avenida Eng. Roberto Freire despertou bastante o nosso olhar para a beleza da nossa cidade, assim como os outros locais por onde andamos (e os demais que conhecemos pelos vídeos de nossos colegas de turma). Natal é tão linda, tão maltratada. Bastava a nós um pouco mais de carinho pelo nosso lar – e um pouco mais de responsabilidade na hora de escolher os governantes – para deixar aflorar toda essa beleza que ainda se sustenta na cidade. 

Depois disso, descemos para a praia e eu tirei algumas fotos bem legais dos meus amigos. Infelizmente, não gostei das minhas, mas a gente supera. A praia de Ponta Negra estava excepcionalmente bonita naquele dia. Fechamos a tarde de frente para as ondas, bebendo água de coco e despertando olhares curiosos dos banhistas só porque estávamos de mochila e roupas normais numa praia. Houve quem questionasse se éramos turistas também..., mas acho que foi tudo culpa de Letícia, que já parece gringa mesmo.





















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