É natal ou hipocrisia?

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Períodos natalinos parecem sempre abrir uma insistente discussão acerca da hipocrisia e o amor ao próximo. Questiona-se a validade de uma data que, para além dos princípios religiosos, carrega o sentido de perdão, gratidão e carinho para com os outros. Se demonstrações de afeto e virtuosidade são possíveis em qualquer época do ano, por que, então, aguardar um único feriado para realizar tantas boas ações? 

A prática do bem, de fato, deveria ser corriqueira. Sabe-se, no entanto, que sequer no Natal tais ações ocorrem tal qual ilustram os comerciais de televisão. Encontrar a família, quando se tem apreço, precisa ser um hábito. E festejar com quem não se ama não deveria, jamais, configurar uma obrigação. Concordo com esses argumentos, afinal, não tenho os pensamentos em nenhum mundo de fantasia. É mesmo hipocrisia pensar em um momento de paz e fraternidade enquanto reclama dos parentes nas redes sociais. Mas simbolismos aparentam ser profundamente necessários para a maioria dos seres humanos, e o Natal nada mais é que um compilado de fortes símbolos.

Segundo Leslie White, antropólogo estadunidense, a capacidade de criar símbolos difere o homem do animal, pois constitui a unidade básica do comportamento humano. Não sou especialista, nem realizei uma pesquisa profunda na área, mas minhas leituras me levam a enxergar muita força na formação de certas simbologias, como ícones, mitos e religiões. O crucifixo, por exemplo, exerce um poder profundo sobre os fiéis do Cristianismo. Marcos no calendário podem ter grande influencia também, sob diferentes perspectivas e proporções.  

É notório que, ao trocar a página de um calendário, nenhum poder transformador atua sobre nós. Um novo ano é apenas mais um dia. Um novo dia é simplesmente mais uma volta da Terra sobre seu eixo central. A perspectiva física encerra toda a atmosfera mágica do Réveillon. Entretanto, esse símbolo torna a maior parte das pessoas muito mais propensas a reflexão, e o Natal se torna um momento interessante para refletir o que aconteceu desde a última volta da Terra em torno do Sol. 

Eu encontro meus familiares quase todos os meses em alguma reunião. Tenho verdadeiro prazer em estar na companhia de alguns deles. Outros, nem tanto, pois famílias não são perfeitas. No Natal, nós nos reunimos em volta de uma mesa e jantamos tal qual fazemos diversas outras vezes, mas, desta vez, permitimo-nos realizar alguns atos especiais. Trocamos presentes cheios de carinho, realizamos nossas preces, gargalhamos bem alto e, acima de tudo, recordamos o que nos faz unidos. Há sempre algo especial para agradecer. Seja o sucesso de um, ou simplesmente o fato do outro estar vivo. A vida apresenta provações constantes a cada um e nós nos fortalecemos juntos. O fato de partilharmos o mesmo sangue é mera coincidência. O carinho que nos cerca transcende qualquer relação de DNA. 

Por isso, defendo o Natal, sim. Não somente o Natal, mas os símbolos que atuam sobre nós e movem as engrenagens em nosso interior para nos tornar pessoas melhores. Não espero que os outros se sintam da mesma forma que eu, mas atuo de modo a promover o bem. A mim não cabe curar o coração daquela tia rancorosa ou resolver os problemas daquele primo que não dá paz a ninguém, mas posso ser a pequena e valorosa parcela de mudança do qual o mundo precisa. Não se trata de esperar o Natal para deixar a luz acesa, apenas encontrar força para que ela brilhe mais forte. 

Nota final: compreendo perfeitamente que boa parte das famílias sanguíneas não se encontra em situação pacífica. É doloroso, para muitos, aproximar-se dos familiares. Porém, o sentido de família, hoje, transborda laços como "pai", "mãe", "tia", "avô". Há sempre algum lugar confortável com pessoas que nos incentivam independente da relação genética que há entre nós. Não encare o Natal como a única oportunidade de encontrá-los, apenas como mais uma desculpa para estar junto a eles <3

Publicado por Ana Letícia Dantas

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