Você se mudou

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Eu te escrevo cartas que nunca lhe alcançarão pois as endereço para onde não estás mais presente. A decisão foi tomada, você se mudou. E eu sei que é bobagem continuar escrevendo para o mesmo endereço. Sinto como se nada estivesse diferente, embora saiba que nada continua no mesmo lugar. Não sei como se encontra agora, com quem tem andado ou as suas aventuras. Para mim, você estancou no espaço-tempo, porque eu não mudei de endereço. Nem estou procurando outro apartamento neste instante.

A verdade é que há tempos essa não era a sua morada fixa. Eu sei das suas viagens ou dos dias em que você simplesmente não queria estar em casa. Porém, jamais cansei de lhe fazer visitas periódicas ou lhe enviar algumas palavras bobas de amor, ainda que ficassem emperradas debaixo da porta. Sei, em algum lugar em mim, que essa é uma mudança definitiva, não apenas uma viagem longa. Sei também que não devo esperar pelo seu retorno. Devo escrever para outras pessoas ou até mesmo guardar as cartas para mim. Mas, no momento, tudo o que desejo é entregá-las em mãos; e enxergar um sorriso em seu rosto enquanto seus olhos correm rapidamente pelo papel.

Sinto uma vontade imensa de apertar a sua campainha e recitar os mais belos poemas, embora eu não leve jeito para poesia. Desejo que você bata em minha porta e abra a maçaneta - eu não consigo trancá-la -, para que me encontre na cozinha te esperando com uma xícara de café na mão e um sorriso quentinhos. Ah, como eu queria lhe despertar o calor dos dias que ficaram para trás. O seu peito frio não combina com meu coração ardente, de fato. E me dói saber que não há nada que eu possa fazer. Estou de mãos atadas. Aprisionada nesse sentimento maldito.

Possuo um prazo curto por aqui, logo também precisarei mudar de endereço. Não adianta ficar, você não me enviará cartas. Deixou bem claro quando matou todas as minhas esperanças. Os fantasmas daqueles tempos não param de me visitar, enlouquecerei caso permaneça. Por isso agora me despeço, mas sem promessas sobre não voltar a te escrever.

Publicado por Ana Letícia Dantas

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