Por que as piadas que você escuta por ser magro não se comparam à gordofobia

00:26

woman holding tape measure
Photo by rawpixel on Unsplash

Em primeiro lugar, preciso dizer que este não é meu lugar de fala. Apenas reuni brevemente informações que coletei de criadores de conteúdo e pesquisadores, principalmente de mulheres gordas, empoderadas e com muita propriedade no assunto. Não que gordofobia seja uma temática pertinente apenas ao gênero feminino, porém, os influenciadores que tenho contato e abordam o tema são predominantemente mulheres. E há questões de gênero nisso, é claro.

O objetivo deste post é tratar a questão de um modo didático e resumido, porque, como eu já disse, não é meu local de fala e eu não tenho repertório para me aprofundar nisso. No entanto, espero que seja um ponto de partida para os leitores buscarem mais conhecimento e desconstrução em relação ao assunto.

Qual é, afinal, a diferença entre ser ridicularizado por ser magro ou por ser gordo? Essa é uma questão muito vívida na internet há anos. É quase certeza existir algum comentário do tipo "eu sou magro e também sofro preconceito" em qualquer publicação de denúncia contra a gordofobia. Sem diminuir a dor de ninguém, eu diria que a resposta provavelmente está numa simples análise de conceitos: gordofobia x pressão estética. Esses dois mecanismos de repressão corporal estão muito atrelados, mas não são iguais, e agem distintamente sobre indivíduos magros e gordos. 

No vídeo a seguir, a maravilhosa Alexandra Gurgel faz um ótimo resumo: pressão estética é a pressão que todos os indivíduos da nossa sociedade sentem e tem como finalidade nos forçar à busca pelos padrões de beleza. No plano de fundo, estão grandes marcas que geram fortunas anualmente em cima das inseguranças das pessoas. Enquanto isso, gordofobia pode ser sintetizado em privação de direitos.


Sabe quando a você escuta aqueles comentários desagradáveis sobre o seu corpo magro, seja de um colega maldoso ou de um familiar inconveniente? Essa é a pressão estética atuando na sua vida. As pessoas recebem estímulos para se sentirem inferiores por diversos meios - internet, televisão, revistas, ciclos sociais. Ao se sentirem inseguras, elas tendem a pressionar os outros também com suas próprias frustrações. Quem costuma apontar muitos os "defeitos" alheios não consegue enxergar nada de bom em si. Experiência própria - já convivi com muitas amizades tóxicas assim. A pressão estética é como um vírus que vai se espalhando. É uma construção social. É uma artimanha do capitalismo. É isso que você sente quando seu corpo é ridicularizado. 

Gordofobia, como a Alexandra coloca, se manifesta de outros modos além da pressão estética. Elaborei uma pequena lista de exemplos: 

Piadas de gordo: é uma expressão familiar para a maioria de nós. Uma breve busca no Google revela o estoque absurdo de piadas com essa temática e não é difícil lembrar de situações "humorísticas" que viralizaram na internet com a figura de uma pessoa gorda. Normalmente a piada é só essa. Ser gordo. Simplesmente não há nada de engraçado nisso e está mais do que evidente que piadas MATAM. O caso que mais me dói e vem a mente quando penso nisso é o suicídio de Dielly Santos, sobre o qual Maíra Medeiros discorreu no vídeo a seguir. A tentativa falha de humor virou bullying, e o bullying, por sua vez, tornou-se insuportável. 


Representação no cinema e na televisão: recorrendo ao tópico anterior, é bastante comum a representação de indivíduos gordos como pessoas inseguras, deprimidas, cômicas e que raramente estão em papel de destaque. Quando são protagonistas, seus dilemas com o corpo costumam ser a questão principal, como se nada na vida de um gordo fosse mais significativo que seu peso. Os estigmas e esteriótipos pioram quando os atores que interpretam essas pessoas são magros usando enchimento, pois ocorre a exclusão de oportunidades na vida real.

Em minhas pesquisas, encontrei um artigo recente e interessante sobre a representação do gordo nas principais produções do cinema nacional, e refleti especialmente sobre o seguinte trecho: "Quando analisados os filmes, de forma geral, apresenta-se o papel do gordo reforçando os estereótipos de que todo gordo come muito, tem preguiça e é, por natureza, engraçado". Não precisei me esforçar muito para pensar em, no mínimo, dez produções atuais as quais apresentam o esteriótipo citado. 

Espaços que não cabem: bom, essa parte é bastante comentada pela Alexandra no vídeo. Não se trata apenas de ir a uma loja e não caber nas roupas. É não caber numa cadeira de bar, num cinto de avião, numa catraca de ônibus. Todas essas atividades cotidianas que para nós, pessoas não-gordas, não exigem grandes esforços. E, sabe, no meu curso a gente discute muito a questão de acessibilidade para pessoas com deficiência na hora de projetar, porém, até o momento, pouco ouvi falar sobre as necessidades das pessoas gordas, para ser sincera. Sinto-me, dessa forma, responsável por promover essa mudança de atitude no futuro. Nesse sentido, encontrei este artigo sobre acessibilidade para pessoas gordas que julguei muito interessante, porque além de abordar questões básicas de direitos humanos, ainda envolve em uma discussão sobre gênero. Afinal, como o autor bem coloca, o direito das pessoas gordas à acessibilidade já existe no Brasil, é lei. Só não é prática. 

Saúde: a saúde dos corpos gordos é o tema mais manjado e principal argumento de muita gente para sustentar a gordofobia. Como explica este artigo, nem todos os gordos são doentes e nem todos os magros são saudáveis. É possível estar magro por motivo de doença (como Nara Almeira, em seu câncer), por exemplo. O IMC, o famoso cálculo entre peso e altura para revelar o índice "ideal", não leva em consideração a composição corporal: a porcentagem de músculos e gordura faz muita diferença. É óbvio que é preciso promover o estilo de vida saudável, ou seja, alimentação equilibrada e prática de exercícios físicos (prazerosos!). Mas, cá entre nós, o que tem existido é uma promoção à saúde ou ao corpo "perfeito"? O mundo fitness é extremamente agressivo contra pessoas gordas, vale lembrar. Além disso, é evidente que excluir as pessoas gordas e privá-las de seus direitos não gera NENHUM benefício. Pelo contrário: desgraça o psicológico de qualquer um e torna a busca por saúde e bem-estar corporal uma jornada muito mais difícil.

Então, deu para entender? 

Na condição de pessoa não-gorda, gostaria de reforçar nosso papel no combate à gordofobia. Não é postando fotos dos nossos corpos como se fôssemos pontos fora da curva para ganhar likes em cima da fama que o movimento Body Positivity ganhou, como existem MUITAS influenciadoras fazendo. Não é criando uma competição de "quem sofre mais pressão estética". Não é transformando essa discussão tão complexa em algo tão reduzido a nós mesmos. Não é roubando a voz das pessoas gordas como se nós fôssemos os protagonistas dessa luta. Simplesmente não é assim.

A gente pode começar parando de usar "gordo" como algo pejorativo, parando de reclamar nas redes sociais porque engordamos 200 gramas, deixando de lado aqueles comentários sobre o corpo alheio quando, honestamente, ninguém nos perguntou. Busque sua própria autoestima e pare de jogar suas inseguranças em cima dos outros. E sinta empatia. Coloque-se no lugar do outro, entenda seus sentimentos. Não é preciso ir muito fundo na minha vida para perceber o quão gordofóbica eu já fui em minhas palavras e ações - provavelmente ainda sou. Porém, desde que tenho consciência, me esforço cotidianamente para simplesmente não ser uma otária.

Para encerrar, deixo esse trecho do post sobre Pressão Estética x Gordofobia do blog F-utilidades, porque acredito que resume bem tudo o que foi colocado: 

"Eu entendo que o bullying que magras sofreram é real, machucou, deixou traumas. Nunca irei diminuir a dor de ninguém, todas as dores são legítimas. Mas não ouvi muitas histórias de pessoas magras que perderam o emprego ou uma oportunidade de emprego por serem magras. Também nunca vi histórias sobre não caber em lugares ou ser barrada em entrada de locais privados por serem magras. A discriminação de pessoas magras, ou não, acontece pela pressão estética, mas não é tirado delas o direito de ser ou estar apenas pelo tipo de corpo. Quando pensamos em uma pessoa gorda, acontece uma desumanização por meio da consideração do corpo gordo como automaticamente doente e incapaz de fazer parte da sociedade."

Publicado por Ana Letícia Dantas

Posts relacionados

0 comentários