Crônica: O dançarino

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Photo by Andrei Lazarev on Unsplash

Ele se jogava na roda e me puxava. Conduzia-me pelo salão, destemido, e até sorria quando eu lhe pisava os pés. Soltei o corpo no ritmo daquela dança estranha. Agíamos como se estivéssemos a sós, os demais pares se encontravam em qualquer outro plano astral. Pairávamos sobre o chão em êxtase, sem seguir ao certo o compasso da música, mas dançando a nossa própria canção. Dois bailarinos desajustados rompendo as madrugadas em contravoltas. 

Após tantos sons, nossos passos foram desencontrando: já não estávamos em sintonia. Seu balanço se tornou vagaroso, enquanto eu continuava a dançar freneticamente. Logo não estávamos mais rodopiando, apenas balançando desarmonicamente pelo salão. Nossas mãos se desentrelaçaram, nossos corpos desuniram e retornamos à superfície. Aquela batida lhe cansou. Simplesmente não lhe servia mais. Deixou-me sozinha na pista. Diz-se exausto. Aos tropeços, eu passei a dançar sozinha. 

Ah, mas ele não se cansou de dançar, apenas desejava outro ritmo. Tamanha fadiga nunca foi tão breve. Em instantes, ele estava rodopiando ao som de outra melodia. Um outro compasso, uma outra canção. Jamais esteve tão apinhado de energia. Faz-me pensar se eu era boa dançarina. Agora, desvio o caminho e evito encontros pelo salão. Quebrei aquele CD para que nunca mais toque nossa música. Ele já havia arranhado o disco - sempre muito adiantado. E, alegremente, conduz seu novo par ao passo de outra sinfonia.

Publicado por Ana Letícia Dantas

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