Diário de viagem: MASP

17:19


Demorei mais do que o planejado para escrever o último post sobre a viagem a São Paulo, pois, ao voltar para casa, já tive de encarar, sem rodeios, a vida real. Além disso, desta vez escrevo sobre dois dias, ao invés de um, em decorrência da segunda e da terça terem sido menos cheios que o fim de semana. Adianto logo, dessa forma, que preciso voltar a São Paulo qualquer dia! Vários roteiros ficaram de fora - tanto por ser feriado, quanto por causa do meu tempo curto - e outros merecem ser revisitados com mais atenção. Sem falar do carnaval de São Paulo, a cada ano melhor, o qual pretendo curtir mais em alguma ocasião futura. 

A segunda-feira é um dia complicado, pois varias atrações, em qualquer lugar, estão fechadas por razões diversas. Pela manhã, minha mãe e minha tia foram às compras novamente, programação que pouco me atrai. Por isso, eu e meu pai resolvemos voltar ao centro da cidade para conhecer o Centro Cultural do Banco do Brasil e aproveitar qualquer exposição que estivesse havendo. O prédio é bem bonito e a exposição muito organizada. A obra exposta no período era de um artista suíço chamado Paul Klee. Nem eu, nem papai entendemos a produção dele, mas achamos interessante. Do CCBB, caminhamos para a Catedral da Sé, próxima dali. De fato, estava cheio de moradores de rua e comerciantes de todo tipo de ilegalidade, como diplomas falsos e outros documentos. Mas havia uma unidade policial no meio da praça, e dentro da Igreja também existiam seguranças, então não deixe de fazer a visita apenas por medo.

Tanto o interior, quanto o exterior da Catedral da Sé são impressionantes, bastante marcados pelo estilo neogótico. O pé direito super alto e a verticalidade dão a impressão, intencional, de que somos muito pequenos perante o divino. Os vitrais belíssimos difundem a luz em uma atmosfera quase celestial. Aparentemente haviam outros espaços abaixo do presbitério, mas, como era pago, decidimos poupar esse dinheiro. Após a visita, caminhamos pelas ruas do centro até culminar na Rua 25 de Março, onde aproveitei para fazer algumas compras antes de voltarmos para o hotel. 

À tarde, dedicamo-nos a encontrar um bloquinho de carnaval para fazer parte. Vestidos a carácter, passeamos pela Av. Paulista a fim de gastar o tempo até a hora que se iniciava a concentração de bloquinhos na Rua Augusta. Meus pais e minha tia não quiseram ficar muito tempo, então acabei ficando sozinha. Foi maravilhoso. O primeiro bloco era LGBT e o segundo homenageava a Umbanda e o Candomblé. Não desci muito a rua com eles até a Baixa Augusta para não me distanciar demais do hotel, mas adorei dançar sozinha em meio àquele bocado de desconhecidos. Era pouca gente, afinal de contas. Os blocos mais concentrados estavam em outras avenidas. 

Minha programação de domingo se resumiu ao Museu de Arte de São Paulo, porém não como eu gostaria. Minha família decidiu ir para o aeroporto assim que saíssemos do hotel (às 14h), mesmo nosso voo sendo apenas às 21h25 - teoricamente, pois decolamos já perto de meia-noite. Eu, inconformada, precisei aceitar e passei o dia inteirinho estudando em lugares variados dentro do aeroporto. O portão de embarque ainda mudou umas três vezes e paguei caríssimo para tomar um mísero suco com misto quente. 

Animadíssima, chegamos ao MASP pouco antes das 10h e já encontrei uma fila enorme debaixo do vão. O espaço estava dividido entre visitantes na fila, esperando para entrar no museu, e moradores de rua em suas barracas improvisadas. Um rapaz, que vendia revistas no local, estava comentando com outro homem, visitante, que já esteve em situação de rua, mas hoje faz parte de um projeto social e aquelas pessoas ali eram, em sua maioria, dominados pelo álcool. A fila andou ligeiro e logo estávamos subindo as escadas para longe da realidade de contrastes sociais, alienados. 

Dentro do museu, visitei a exposição de um pintor e escultor chamado Rubem Valentim, o qual utilizava a abstração geométrica para expressar referências da cultura afro-brasileira e do candomblé. Como foi a primeira, pude conhecer com mais calma, mas logo recebi o alerta para ir depressa. Então, subi para o acervo fixo, onde haviam mais de 100 peças expostas, algumas as quais estudei na Universidade e tive a oportunidade de analisar de perto, todas impressionantes. Era delicioso parar em frente às telas e esculturas e demorar o olhar sobre cada detalhe. No entanto, às vezes eu era impedida de fazer isso, porque muitos visitantes estavam mais preocupados em fotografar do que conhecer as obras do museu. Diversas vezes precisei esperar bastante para me aproximar de uma tela porque sempre aparecia alguém para posar na frente. Não há problema em fotografar, eu seria hipócrita se afirmasse isso. Mas muitas pessoas não estava nem aí para a obra, sabe? Chegavam, fotografavam e iam embora. Além disso, presenciei muito desrespeito, como ultrapassar as faixas amarelas limites e até TOCAR em esculturas centenárias. 

O mais interessante dessa visita foi que, por ser a semana do 08 de Março, todas as obras de homens estavam viradas para a trás e as de mulheres, para frente. O contraste visual era chocante. Eu não tinha reparado nessa disposição até a metade do acervo e, quando percebi, olhei em volta e quis chorar. Nós somos apenas 6% dos artistas em exposição no museu mais conhecido do país, concentrando-nos, especialmente, em produções muito recentes. Mas nossos corpos são explorados há bastante tempo... 

Saí do museu desolada por não poder passar a tarde inteira no local. Fui ao shopping fazer minha última refeição na cidade e logo estava no aeroporto, onde aguardaria horas até voltar para casa. Cheguei na madrugada na quarta-feira de cinzas, já planejando um retorno, mas encarando a realidade de trabalho e estudos a qual me aguardava. 

Em síntese, a viagem foi muito tranquila. Apesar dos pesares, conheci vários locais maravilhosos e passei um tempo agradável com minha família. Foi bom, também, fugir um pouco do clima quente de Natal. O carnaval de rua em São Paulo está ótimo! Tem que se muito boçal para olhar para essa festa tão alegre e só enxergar maldade... Eu via pessoas despreocupadas na rua, com poucas ruas e muito brilho no corpo, passeando no shopping na maior normalidade. Seria incrível assistir essas cenas todos os dias. Seria maravilhoso se nos permitíssemos ser felizes no resto do ano tanto quanto no carnaval <3

Rua Augusta






Catedral da Sé em São Paulo

Eu na exposição sem entender nada


Centro Cultural do Banco do Brasil


Acervo permanente do MASP, visto de trás para frente



A própria obra de arte rs







Publicado por Ana Letícia Dantas

Posts relacionados

0 comentários