O que nos conecta

22:07


Cansada desse excesso de autocrítica que me impede de escrever. Sempre que tento, eu paro, porque no meio de uma frase qualquer já penso "não está bom o bastante". Não está bom para quem? Preciso que esteja bom para alguém? É o maldito ego que nos clama para que chamemos a atenção dos outros. É esse ridículo desejo de aprovação. Trata-se de uma tarefa muito difícil olhar para o próprio trabalho e pensar "está bom" sem se questionar o que os outros pensarão ou até perguntar diretamente.

Ás vezes penso cruelmente que há pessoas medíocres por aí produzindo histórias extremamente previsíveis e recebendo aplausos. Essa pode ser uma navalhada no ego de escritores como eu, provavelmente também medíocres, mas que julgam ter algo melhor a dizer. No entanto, se afirmo escrever por paixão e necessidade de fluir os sentimentos, por que diabos tais aplausos importam? Seria esse só mais um mecanismo de aprovação social?

A arte é a expressão do âmago de quem a produz, mas parece necessitar também de um expectador. Não parece fazer sentido uma pintura elaborada com esmero sem que se exponha em um museu ou na sala de jantar de alguém. No íntimo, ainda precisamos do olhar alheio. Evoluídos são aqueles que o renegam, porém, não conheço nenhum desses heróis. Logo, eu poderia escrever todos esses textos em um documento em meu computador e guardar numa pasta, ou ainda apagá-los em seguida. Mas sigo publicando cada um deles neste espaço há mais de seis anos.

Desse modo, acho bastante complexo definir o papel da superação (ou da tentativa de superação) do ego na produção artística. Produzimos para expressar quem somos puramente ou para que os outros vejam quem somos? Será que eles veem tantos defeitos em nossas obras como nós mesmos? Sou uma expectadora difícil de agradar, admito. É complexo entender por que necessito tanto dessa perfeição impossível. É complexo, também, entender por que sigo escrevendo e por que preciso disso.

Após tantas incógnitas, me ocorre a possibilidade de eu ter uma visão muito negativa da vida, colocando os óculos do pessimismo e praticando a autossabotagem de maneira inconsciente. Assim, desperto para outras ideias. Lembro-me que, quando leio as produções de outras pessoas, busco conhecimento ou identificação. Quando escrevo, também espero que as pessoas se sintam acolhidas pelas minhas palavras ou aprendam algo comigo. Vai além dos aplausos, é conexão. 

Dessa forma, concluo algo diferente: a arte é a expressão do âmago de quem a produz, e sua exposição é a busca por conectar-se com o íntimo do expectador. Os aplausos, quando ocorrem, são apenas um sintoma dessa epifania de identificação.  Não somos apenas marionetes do ego, afinal. Somos mais profundo e complexos que isso. 

É muito vazio pintar aquele quadro somente para expor em algum lugar. É muito seco escrever apenas para que os outros leiam. Sinto-me mais leve ao perceber que não importa quantas visualizações o meu blog tenha, eu continuo conta histórias porque julgo ter algo a dizer - não me importa se ninguém vai escutar.

Desse modo, admito não precisar ser tão rígida quanto à "qualidade" dos meus textos, pois o que importa é a mensagem. Não preciso me preocupar com o que os outros vão pensar, apenas como vão se sentir. E também me torno menos rígidas com aqueles escritores que, em outro momento, classifiquei como medíocres. Somos apenas um amontoado de ideias que transformam isso em algo concreto - tal qual todos os criadores são. Cada um a sua maneira, não existe a melhor. 

O importante, enfim, é se expressar: sem a dureza dos próprios julgamentos, sem a preocupação da opinião alheia, sem o olhar duro do pessimismo. Não somos tão individualistas e egocêntricos no fim das contas, assumo. Estamos apenas buscando nos conectar.

Publicado por Ana Letícia Dantas

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