Uma jornada para dentro

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Photo by Giulia Bertelli on Unsplash

É um tanto redundante escrever sobre crises criativas por aqui, visto que esse tema já foi tratado em uma dezena de posts escritos por mim antes. De fato, há anos volto a escrever sobre minha dificuldade recorrente de pôr as ideias organizadas em um texto ou de retomar a leitura dos livros esquecidos na estante. A literatura foi muito importante para mim em um período da minha vida, pois, em fuga da minha própria realidade, utilizava o seu poder para inventar outras mais amigáveis. Mas há anos tenho me afastado e penso, agora, que é preciso entender esse fenômeno para retomar a prática da escrita dentro de mim. Foram tantas tentativas frustradas de reaproximação que entendo, enfim, que tenho insistido no caminho errado. 

Tenho perdido, ao longo dos anos, a intimidade com as palavras - isso é evidente. São minhas fiéis companheiras, mas ainda sim não consegui mantê-las próximas. Não sei se mudei demais ou estagnei no tempo enquanto os ponteiros dos relógios seguiram girando. Tomei os rumos que almejei, mas cheguei em um lugar no qual não me reconheço. Meu distanciamento da literatura é apenas um sintoma da distância que tomei de mim mesma. É impossível escrever alguma coisa quando não sou capaz de me conectar comigo. Não estou distante somente das palavras, estou distante de mim. 

Conheço pouco de quem sou e o que sei, não posso dizer que gosto. É difícil diferenciar o que sou, o que quero ser e o que os outros esperam de mim. Procuro subterfúgios para fugir de tais perguntas e ocupo minha mente a todo instante. Porém, também tenho estado cansada disso. Meu corpo pede silêncio, diálogo interior, enquanto sigo fugindo do meu encontro. Eu não quero me encontrar porque tenho medo de me encarar de verdade. Temo esse amontoado de incógnitas que deixei acumular no decorrer dos anos. 

A jornada pela minha escritora interior atravessa a jornada da autodescoberta, uma das mais complexas que qualquer um pode enfrentar. Poucas coisas na vida são tão intimidadoras quanto encarar as próprias falhas, admitir os erros e, não esqueçamos, reconhecer as próprias qualidades. Ver-se sem filtros não é tarefa fácil. Expressar-se de modo eficaz depende disso. Sinto que iniciei essa busca pelo autoconhecimento anos atrás, quando criei esse blog para escrever sobre minhas visões de mundo. Cada vez que consigo condensar meus pensamentos em um texto como este é como um novo passo dado nessa jornada. Ou, talvez, em uma melhor analogia, eu esteja enfim estacionando. Afinal, não faz sentido ir a lugar nenhum sendo o meu interior o local de todas as resposta.

Publicado por Ana Letícia Dantas

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