Diário de viagem: histórias, igrejas, barroco e açaí

20:46

desenho da fachada do mosteiro de são bento

Há tempos tenho um bocado de conteúdos em mente para escrever, mas sempre falta tempo e, principalmente, disposição para transformá-los em textos. Dessa vez, tenho uma hora e meia livres sentada no trabalho da minha mãe enquanto espero a minha hora de eu ir trabalhar, logo, não tenho desculpas para não atualizar o blog.

Semana passada fui a Olinda e estive esses dias todos ansiosa para escrever a respeito. Tratou-se de uma viagem de campo da faculdade organizada para que nós tivéssemos contato com a arquitetura barroca do centro histórico da cidade. A viagem quase deu errado, porque estava marcada justo na quarta-feira em que ocorreu o protesto a favor da educação e talvez a UFRN não liberasse o ônibus para nós. No final, deu tudo certo: saímos a tarde, perdemos o protesto, mas a maioria de nós conseguiu colaborar com a organização pela manhã. Foram quatro horas de viagem de Natal até Olinda, horas que pareceram mais curtas por eu estar cansada demais para manter os olhos abertos. Chegamos no comecinho da noite. 

A universidade não bancou nada além do ônibus, então escolhemos o Hostel do Cajá, na Rua São Bento, em frente a casa de Alceu Valença, que cobrou um preço muito amigável para minha turma dormir dois dias e ainda consumir dois cafés da manhã. É uma casa cor-de-rosa com cerca de 400 anos de história e um pé de cajá enorme aos fundos - que não pode ser podado, devido ao tombamento da região como área de interesse histórico. A construção evidentemente sofreu intervenções modernas, mas, conversando com o pessoal do hostel, descobri que ainda há paredes constituídas de areia de praia e banha de baleia, além de outras peculiaridades. Eu adorei ficar em um lugar tão antigo e cheio de histórias, mesmo sabendo que algumas não foram felizes (provavelmente o quarto em que dormi era um local onde escravos moravam, por exemplo). Descobri, também, que a banda Academia da Berlinda ensaiava no porão. É tudo bem simples, das acomodações ao café da manhã, mas satisfez bem nossas necessidades. Há também um pequeno bistrô e notei que eles promovem alguns eventos legais. Ah, torta de brigadeiro é simplesmente maravilhosa!

desenhei a fachada do hostel mas faltou espaço pra parte de cima hihi

momentos antes de cecília derrubar todos os guardanapos da mesa em frente

Devidamente acomodados, eu e meus colegas saímos em busca de diversão pelas ruas. Afinal, a aula de fato começaria apenas na quinta-feira às 8h. O problema era achar um rolê bacana em Olinda em plena quarta-feira. Felizmente, havia um bar aberto com DJ que entrou na nossa onda e tocou um monte de músicas animadas. Voltei para o hostel relativamente cedo porque não sou jovem o bastante, mas soube que meus amigos, animados, tentaram subir a ladeira da misericórdia correndo depois desse rolê.

Na quinta-feira, encontramos os professores bem cedinho em frente a Igreja de São Pedro para começar nosso roteiro. Iríamos subir e descer o centro histórico, parando para fotografar, desenhar e fazer anotações. O desenho era obrigatório. Começamos pela Igreja do Carmo, mas só a parte exterior, porque o prédio estava fechado - o funcionário responsável estava atrasado nesse dia. Os professores apontaram que o morro sobre o qual a construção se encontrava era instável, por isso foi necessário derrubar parte do complexo no início do século XX a fim de evitar acidentes. Ainda é possível notar que a torre direita é levemente inclinada, pelo mesmo motivo. Seguimos, então, para o Convento de São Francisco, subindo por uma rua cheia de construções charmosas e janelas visuais para a praia. Algo legal na arquitetura e no traçado urbano barroco é o elemento surpresa sempre presente no caminho. Do nada, avista-se o mar ou a torre de uma igreja. As construções vão surgindo na paisagem com certo enquadramento e encantam a medida que a gente se aproxima. 

igreja do carmo

casa bonita no meio do caminho

casa mais bonita ainda no meio do caminho

Dentro do convento é preciso pagar uma taxa simbólica de 1 real (estudante), e a água mineral também é bem barata. Adentrando o complexo é possível pegar o caminho da direita, onde há um pátio com vista para o mar, ou da esquerda, que vai dar no claustro, uma área aberta destinada a orações. As paredes do claustro são todas cobertas por belos azulejos que narram a história de São Francisco, além da área dar acesso a outros espaços igualmente belos, como a própria Igreja. Esta é riquíssima em detalhes, além do ouro presente no altar. O teto é pintado com passagens bíblicas e há azulejos nas paredes também. Foi um dos locais mais difíceis para desenhar, na minha opinião, devido a riqueza de detalhes que compunham a sua arquitetura.

Em contraste, a próxima igreja visitada foi a Catedral da Sé, sem dúvidas a mais simples entre todas as quais entrei. Já assumiu muitas formas exteriores, devido, entre outras razões, a interferência dos holandeses que atearam fogo em vários templos. Na lateral, há um mirante, pois esta é a igreja mais alta da cidade. É possível avistar as torres do Carmo, do convento e de outros templos menores, além de visualizar o mar e Recife ao fundo. Nesse momento, é perceptível também o quão arborizada é aquela área. Por ser um perímetro tombado pelo IPHAN, é proibido promover alterações tanto nas edificações quanto na vegetação sem que seja autorizado. Trata-se do entendimento de que a vegetação existente também faz parte do contexto e algumas árvores, inclusive, têm interferência direta na estrutura do prédio (como era o caso do nosso hostel).

Próximo a Catedral da Sé existe também a famosa Caixa D'água, que é um prédio modernista e um dos primeiros no Brasil a usar cobogó. Atualmente, existe um elevador ao lado para levar as pessoas até a cobertura, pois é um local de onde a cidade inteirinha pode ser vista. Um vendedor ambulante perto de nós o classificou como o prédio mais feito de Olinda e nós achamos o apontamento dele bem engraçado. 

catedral da sé

desenhando no claustro

A essa altura, já era meio-dia, horário ideal para visitar a Igreja da Misericórdia. Sob o cuidado das freiras, esse templo só abre uma vez ao dia para um momento de oração delas, que é quando as pessoas podem visitar e conhecer o interior. Aproveitamos e visitamos antes de sair para almoçar. É realmente bonito, mas as freiras bem velhinhas em seu momento de oração conseguiram tomar mais a minha atenção do que a arquitetura. 

Bom, vou pular a parte do almoço porque não foi tão bom, então sequer quero lembrar. Tudo o que tenho a dizer é que subir a ladeira da misericórdia após uma refeição é um grande desafio. Outro desafio é encontrar local para sentar na região, porque os vendedores de artesanato ocupam todos os bancos com seus produtos. Porém, ainda deu para sentar e um pouco e desenhar. 

Seguimos, então, para a Igreja do Amparo e Igreja São João Batista, mas não entramos em nenhuma das duas porque estavam fechadas. A primeira só abre aos domingos para missa, e a segunda realmente não tem celebrações. Depois, paramos no penúltimo ponto: o Mercado da Ribeira, um antigo local destinado ao comércio de escravos. Hoje, vende artesanato. Há algo parecido em Natal, no Centro de Turismo, que já foi uma cadeia e hoje as celas são ocupadas por lojas de bolsas de crochê. Acho meio bizarro pensar nos usos tão diferentes dessas mesmas edificações.

igreja da misericórdia

igreja do amparo

O Mosteiro de São Bento foi a última parada e a minha favorita. A fachada é encantadora, o que me prendeu por muito tempo desenhando enquanto meus colegas já tinham ido embora. Por dentro é igualmente bonito, especialmente o altar, que é tão importante que já foi desmontado e levado para Nova Iorque em uma exposição sobre o barroco no mundo (e depois retornou). No entanto, neste momento, final de percurso, eu já estava cansada demais para prestar atenção ao que diziam os professores, por isso não apreendi muitas informações sobre o local - uma pena, acho. 

De volta ao hostel, era hora de planejar a noite. Nós nos esforçamos muito para nos divertir, de verdade. Inventamos nomes falsos para nós, fingindo que estudávamos em outros cursos de outras universidades, e montamos histórias profundas para nossos personagens, tudo porque estávamos em uma cidade nova e queríamos aproveitar esse fato. Jantamos no hostel (aquela tortinha maravilhosa de brigadeiro que mencionei) e saímos pelas ruas para curtir, mas não encontramos NADA de legal acontecendo. Por incrível que pareça, a noite de quarta foi mais animada que a quinta-feira. Praticamente andamos o centro histórico inteiro a noite (sem medo, inclusive, foi super tranquilo), porém, o único bar aberto com música estava cheio de pessoas acima dos quarenta anos, o que não era muito atrativo para universitários de vinte e poucos. Retornamos para o hostel nos convencendo de que íamos nos divertir assim mesmo, mas eu logo notei que era uma ilusão. A noite memorável em Olinda ficou só na nossa imaginação mesmo...

mosteiro de são bento

o mercado da ribeira tem fitinhas coloridas em cima

uma das inúmeras manifestações políticas de esquerda em olinda

Na sexta de manhã, o roteiro deveria ser criado pelos alunos em grupos de três, então eu e meu grupinho saímos sozinhos pelas ruas tentando descobrir algo de novo. Passamos basicamente pelos menos lugares, mas por caminhos diferentes, fazendo boas descobertas. Encerramos na Igreja do Carmo, que finalmente estava aberta, mas nosso objetivo central mesmo era tomar açaí numa loja que ficava em frente hehe Também visitamos a biblioteca pública de Olinda, que estava inclusive com uma exposição de bonecos gigantes, algo particularmente assustador de se ver de perto. Imagine passar de frente a esse prédio e ver vários rostos gigantes na janela.... Também desenhei a edificação, que outrora foi pintada por Frans Post, mas tenho a leve impressão de que o desenho dele ficou um pouco melhor que o meu.

De volta a Natal, tenho estado ocupada com trabalhos, inclusive um deles referente a essa viagem - porque, ao contrário do que dizem as más línguas, na universidade pública a gente não faz balbúrdia, nós só trabalhamos muito mesmo. Mas arranjei esse tempinho para falar de Olinda e dizer que foi um dos lugares mais charmosos que visitei. A atmosfera boemia, a arquitetura barroca e a simpatia das pessoas me impressionaram bastante, não vejo a hora de voltar lá para o carnaval. Porém, recomendo fortemente uma visita fora do período de folia para conhecer as igrejas e museus - além de, claro, comer açaí na lojinha em frente à Igreja do Carmo. 

Durante a viagem, era obrigatório estar munido de caneta e papel para produção de desenhos e anotações sobre o percurso, o que parecia muito trabalhoso a princípio mas acabou sendo uma experiencia agradável. Nunca mais viajo sem um caderninho - e quem estiver comigo, que me espere fazer meus rabiscos. O grande segredo é abandonar o perfeccionismo e se jogar na experiencia. Não precisa ser excepcionalmente bonito e nem fiel, só precisa representar. É um ótimo exercício para se atentar aos detalhes da paisagem e das construções. 

Em breve, escreverei mais sobre esse estilo de desenho, porque vou participar de um encontro de Urban Sketchers no fim de semana. Pretendo escrever, também, sobre minhas andanças por Natal motivadas por trabalhos do curso. Vem muita arquiteturice e urbanice por aí, me aguardem. Espero que vocês curtam :)

eu e meu grupinho

Publicado por Ana Letícia Dantas

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