Resenha: Chernobyl, respeito e vaidade

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Imagem de Angelina Protein

Eu sempre tive algum fascínio por locais abandonados e na internet descobri se tratar de um interesse relativamente comum. Já despendi, também, longas horas lendo artigos sobre desastres nucleares ocorridos no mundo todo – radioatividade é uma questão interessante, embora os conceitos químicos sejam complexos demais para mim. Esse também é um assunto comum, especialmente agora, com o lançamento da série Chernobyl pela HBO, a qual motivou a origem desse post. 

Não é novidade a atenção recebida por essa catástrofe, afinal, foi o maior acidente nuclear da história até então. A ocorrência de turismo local existe há vários anos, porém é recente o crescente número de influenciadores digitais produzindo conteúdo (por vezes duvidoso) em cima dessa temática. A princípio, também tive interesse. Histórias de fantasmas não me assustam – eu não sinto nada de energias ou misticismos em locais os quais as outras pessoas consideram ‘pesados’. Mas hoje questiono a validade de colocar-me em risco por entretenimento ou simples curiosidade. 

A série Chernobyl reforçou minha noção de que esta é uma região extremamente arriscada. Logo no primeiro episódio, ver o que ocorreu aquelas pessoas me impactou bastante e quase me faltou estomago para continuar. O estrago foi grande e poderia ser ainda maior, mas os danos também poderiam ter sido menores. Além de um retrato da ambição humana, esse é um caso escancarado de como um Estado controlador pode ser perigoso para o bem-estar da população. A princípio, tentou-se negar a todo custo e abafar a circulação de informações. No momento em que vivemos, no qual alguns brasileiros clamam o retorno da ditadura e o governo procura descredibilizar a mídia a todo custo, relembrar Chernobyl é necessário para evitar cometer erros novamente.

Os episódios subsequentes são mais tranquilos, porque abordam mais o drama que a tensão. Recomendo, no entanto, ler um pouco sobre o que é real ou fake quando acabar. Não para desmerecer a série, que é muito boa, mas para não confundir realidade e ficção. Afinal, trata-se de um fato histórico, mas a produção recorreu a dramas um tanto exagerados e atos controversos para causar comoção no espectador. Ainda sim, é difícil mensurar o impacto causado na vida das pessoas na contemporaneidade, além do quanto as consequências vão reverberar pelos próximos milhares de anos.

Muitas pessoas morreram no desastre de Chernobyl. Na série, algumas narrativas são inseridas para nós criamos vínculos com os personagens – e vê-los sucumbir pouco depois. Tudo o que existe lá são histórias abandonadas, vidas apagadas, sonhos deixados para trás. Pois o ser humano é ambicioso e facilmente troca a segurança pelo poder, especialmente a segurança de terceiros O mínimo esperado de nós é respeito pela situação. Será?

Mais ou menos na mesma semana em que devorei a série, Matando Matheus a Grito, um dos meus youtubers prediletos, publicou um vídeo debochando das pessoas que tentam chamar atenção a qualquer custo na internet, mas que geralmente buscam camuflar – sem sucesso – esse desespero. Sensatíssimo, Matheus aponta que estamos passando dos limites para sermos notados no meio digital e que existe uma ansiedade muito grande para obter engajamento. As pessoas estão tão bitoladas por números que ultrapassam as barreiras do absurdo. Até quem não trabalha com isso entrou na pira dos likes.

Um dos casos citados no vídeo é justamente o fenômeno turístico em Chernobyl. Eu poderia inserir muitos exemplos de fotografias sem noção em lugares onde ocorreram tragédias, mas creio que esse seja um caso bem emblemático porque não trata apenas de desrespeito, é também um risco a própria vida. Veja bem, eu não condeno os turistas. Eu mesma tenho muita curiosidade sobre o local e sei que há empresas confiáveis realizando a visitação. Mas é uma zona perigosa, ninguém pode negar. Calculam-se cerca de 20 mil anos até a área ser habitável novamente. Por isso, agir de maneira irresponsável em Chernobyl não é apenas desrespeitoso, é uma condenação. 

O criador da série já se manifestou nas redes sociais pedindo que as pessoas se comportem com respeito em Chernobyl, como aponta a matéria da BBC. É citada a moça que fez uma ensaio sensual no local, o caso que me deixou mais consternada. A modelo aparece em espaços abandonados, seminua, por vezes usando roupas que lembram aquelas destinadas a conter radiação. As fotos viralizaram, claro. O pior – ou melhor, não sei – é que foi tudo uma farsa. A fotógrafa veio a público afirmar que as fotos foram tiradas na Rússia, eram para arquivo pessoal e marcar Pripyat na geolocalização foi apenas uma referência. Ainda criticou a mídia por não tê-la procurando antes de noticiar. Ambas estão aproveitando bastante a fama que lhes rendeu toda a repercussão. 

Apesar de ser mentira, é extremamente irresponsável sugerir tirar as roupas num local no qual a radiação é expressiva – e ainda será por milhares de anos. É desrespeitoso demais colocar-se em risco em um lugar onde as pessoas não tiveram escolha sobre poupar suas vidas. Muita gente gostaria de ter tipo a opção de estar bem longe dali. Elas merecem ter sua memória conservada. 

Como eu disse, a modelo e a fotógrafa estão aproveitando a fama. E é isso que importa para elas. E é isso que importa para nós. Não há problema em postar uma fotografia no Instagram e esperar que seus amigos curtam. Mas é doentio conferir o engajamento a toda hora, sentir-se triste por não atingir os números esperados e forçar situações para ser notado. Principalmente se você não ganha dinheiro com isso. Nós estamos desesperados por atenção e não enxergamos sequer os limites do ridículo. 

Eu não me excluo. No dia em que assisti ao vídeo citado, meu ônibus quebrou quando eu voltava para casa. Achei a situação inusitada. Eu tinha feito logout dos aplicativos Instagram e Twitter porque estava precisando de um tempo das redes, e eu fiz exatamente o que eu estava evitando. Abri a câmera na mesma hora para postar um Storie da situação. Precisava? Eu não me contive em esperar chegar em casa e contar à minha mãe. Eu queria que todo mundo soubesse na mesma hora. Não, não precisava. 

A gente tá viciado nisso, sabe? Sente um prazer inexplicável em ser notado na internet, mesmo que as pessoas nem nos cumprimentem na rua. Fica desesperado para contar a alguém o que nos ocorre o tempo todo. E anseia tanto aprovação social quanto um dependente químico anseia pelas substancias. 

Tenhamos responsabilidade para com os outros e nós mesmo, por favor. Precisamos nos preservar, até mesmo quando os números nos geram dinheiro. Não há nada mais tosco que um criador de conteúdo que não transmite a sua verdade, não publica o que gosta, mas o que os outros querem ver. É totalmente OK postar fotos de quando estamos nos sentindo bonitos e felizes, querer que nossos amigos saibam das nossas vidas. Mas é importante se atentar para que as respostas a essas postagens não se tornem algo essencial para nós. E, por fim, precisamos preservar a memória daqueles que morreram ou sofreram em tragédias. Sua selfie sorrindo é totalmente irrelevante. A dor das pessoas importa muito mais.

Retornando ao assunto da série, para finalizar a resenha, queria acrescentar que vi pouquíssimas críticas negativas. Não é perfeita, claro, nem do ponto de vista histórico nem na produção, mas supera expectativas. Assisti em questão de poucos dias, só por questão de tempo e porque a história é horripilante demais para digerir rapidamente.

Acidentes envolvendo radiação são interessantes, porém devastadores. Por menor que seja a tragédia, as consequências reverberam por milhares de anos. Infelizmente, muitos países dependem da geração de energia nuclear para o seu desenvolvimento – e por motivos bélicos. Além disso, todas as formas de produção energética geram consequências para o Planeta. De uma forma ou de outra, é certo: estamos nos destruindo – depressa.



Publicado por Ana Letícia Dantas

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