Crônica: Sem querer, chá gelado

19:36

person running on road at daytime
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Domingo, cinco da tarde. Um momento tipicamente morto na vida do brasileiro médio - como eu. Já na segunda xícara de chá, em uma tentativa aparentemente inútil de amenizar a palpitação que começou depois da terceira de café, desisto. Gastei as horas anteriores do dia em um esforço incrível para colocar a cabeça no lugar e resolver coisas que poderiam ser resolvidas depois - mas já estão há semanas na lista de para resolver depois. Esforço incrível... Incrivelmente inefetivo, sem dúvidas. A maior vitória do dia foi a louça lavada no comecinho da manhã, mas a bagunça do almoço deixou a coisa mais caótica do que estava antes. No fim, até a maior vitória de hoje acabou virando uma derrotinha. 

Queria um pouco mais de energia ou força de vontade. Aliás, usando toda a sinceridade que me resta, queria mesmo é me entregar à preguiça do dia, mas acho que isso dificultaria a luta para me concentrar no que é necessário e deixar de lado as bobagens que afloram no meu coração neste exato instante. Concentração. Nitidamente está em falta por aqui. Ei, eu tentei sim fazer o que é de fato importante, tipo botar em dia essa papelada nojenta que só cresce na minha mesa ou dar início ao desenvolvimento daquele estudo de caso que preciso entregar ao fim desse mês. Num deu. Não é minha culpa. Ok, talvez seja um pouco.

Eu sei... Tenho usado muito a desculpa do óculos. "Tá meio capenga e muito arranhado, me atrapalha na execução dessas tarefas todas, e se tá ruim com ele, sem ficaria pior." Não é mentira, mas é mais balela, sabe? O que não tem funcionado é todo o resto (não que a vista esteja ok). Enquanto meu chá esfria mais do que deveria, meu cérebro canta três canções diferentes enquanto visualiza cenários conspiratórios em Game of Thrones e ensaia diálogos amorosos que provavelmente não acontecerão. Esqueci de botar açúcar no chá, parece.

Perdi de vista - e isso não tem nada a ver com o óculos - tudo aquilo que me fez chegar aqui. Todas as pessoas e objetivos. Perdi mesmo, não sei se ficaram lá pra trás ou se pegaram um caminho à direita. Procurei pra caramba nas últimas semanas, mas parece que realmente tudo ficou muito distante. Agora fico meio sem saber pra onde ir, já que o que eu perseguia ficou largado em algum lugar pelo caminho. Até hoje não sei o que tem na linha de chegada, mas sei que a essa hora já tinha que estar lá. Todo mundo já terminou a corrida, até alguns que saíram da largada depois de mim. Deixei meu chá gelar enquanto me entregava a esses pensamentos completamente baixo-astral, acho que não deveria ter deixado as coisas ficarem caóticas assim.

Agora, de frente ao microondas, percebo que, na verdade, eu não gosto de corrida. Talvez por isso não consiga acompanhar os outros competidores, meu esporte é outro. Não importa a distância até a largada, provavelmente nunca alcançaria o fim do circuito já que eu nunca nem deveria ter entrado nele. Liberdade é um chá quentinho na mão depois de uma corrida abandonada por quem na verdade é bailarina.

Publicado por Bárbara Andrade

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