A solidão de não estar sozinho

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Photo by Sasha Freemind on Unsplash

Meu melhor amigo costuma me escrever cartas. Ele está morando em Curitiba por causa da graduação há seis meses e tem me relatado a experiência em textos deliciosos — incentivo-o a escrever mais vezes. Apesar de ser alguém que já fez intercâmbio e se viu sozinho em outro país, ter que se virar completamente só em um lugar estranho tem sido desafiador para ele. Em suas cartas, ele me conta a dificuldade de estar longe das pessoas que gosta e sobre solidão. Quando ele se sente só, escreve para mim, e quando eu me sinto só, lembro das cartas dele.

A questão é que eu me pego refletindo sobre os tipos de solidão que existem. Ele, sozinho em outro estado, sente-se só por não ter ninguém por perto e porque às vezes as pessoas distantes não respondem suas mensagens. E eu, geograficamente perto da maioria das pessoas que conheço, sinto uma solidão profunda que advém de outras razões. Para ele, às vezes bastaria apenas estar no meu lugar — mas para mim muitas vezes não basta.

Conclui que se sentir sozinho mesmo com outras pessoas ao redor é uma questão de expectativa. Quase todos os sentimentos ruins parecem ser. A gente se doa para os outros e espera receber isso em troca — quando não recebemos, nos sentimos só. Mas não enxergue vitimismo, certamente agimos da mesma forma com terceiros. A solução mais viável é alinhar as expectativas: prestar atenção a quem está nos entregando afeto de verdade e ser recíproco.

Por mais solitário que o mundo pareça, penso que sempre há alguém que se importa. A frustração surge porque aquelas pessoas que não demonstram um pingo de consideração parecem muito maiores do que as que demonstram interesse de fato. É tempo perdido com quem não vale a pena. Não adianta esperar mudar alguém, culpá-lo ou amaldiçoar o vento. Desconectar-se dessas pessoas e se dedicar àquelas que realmente se importam é um investimento de tempo muito melhor.

Assim, estou cada vez mais atenta a quem me oferece uma escuta ativa, um abraço sincero, preocupação. A lista é bem restrita, mas sinto solidez. Por muito tempo achei que ficar sozinha era meu lugar seguro, porém confesso que essa é uma zona de conforto muito dolorosa. Conectar-se com amigos de verdade também é um autocuidado. Por isso, tenho buscado me aproximar cada vez mais dessas pessoas.

E para isso não é preciso conversar o tempo inteiro ou sair todo final de semana. Existem singelos e poderosos indicativos de que alguém se importa com a gente. Às vezes só parar para escutar, de verdade mesmo, já é uma ação forte o suficiente. Às vezes enviar umas cartas. Da mesma forma que o descaso fica escancarado até nas entrelinhas. Fiquemos atentos.


Publicado por Ana Letícia Dantas

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