As lacunas de tempo na agenda

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person standing in transportation vehicle
Photo by Ant Rozetsky on Unsplash

Digo ao meus amigos que detesto conversar com estranhos – mas esta se revela uma mentira deslavada na parada de ônibus. Hoje eu estava apoiada em uma árvore, na parada da Av. Mossoró, dividindo minha atenção entre um livro e o trânsito, quando um terceiro atrativo despertou minha curiosidade. Eu não me contenho em ouvir a conversa alheia, e ás vezes também não me seguro de vontade de participar. Assim descobri que o motorista do 56 do horário mais conveniente para mim estava de férias e, aparentemente, ninguém o substituiu, pois já havia se passado muito tempo. As mulheres que me deram a informação inclusive me avisaram quando o ônibus estava finalmente chegando – enquanto eu estava distraída tentando descobrir o que aconteceu a Harriet Vanger em Os Homens Que Não Amavam as Mulheres – por isso acredito que invadir a conversa alheia não se trata de uma atividade ruim, gera inclusive vantagens. 

Não é tarefa simples retomar o hábito de leitura. Há bastante tempo eu havia deixado o costume de lado, mas retomei quando passei a trabalhar num bairro distante. Não pensei que seria capaz de ler no transporte público, afinal, eu sou o tipo de pessoa que sente tontura só de pensar nessa situação. Porém, venho desafiando os limites do meu corpo para preencher o tempo que gasto no deslocamento com algumas boas histórias. Outra alternativa seria a música ou o podcast, mas costumo reservar essas atividades para o horário de trabalho, já que preciso de olhos atentos – mas não os ouvidos. 

Estou sempre procurando formas de entretenimento. Acordo, rolo o feed do Instagram em busca de nem se o quê. Varro a casa enquanto assisto a algum vídeo no Youtube. Desloco-me de ônibus lendo mais algumas páginas de um livro. Trabalho colocando os podcasts em dia – divido-os em dias da semana. Tomo banho escutando músicas variadas. Não resta ao meu cérebro espaço para pensar em qualquer coisa, o que talvez, no fundo, seja minha intenção. 

Minha terapeuta já me confrontou várias vezes sobre a necessidade de estar em silencio comigo. Eu concordo plenamente com ela, mas continuo fazendo escolhas diferentes. Consolo-me, ao menos, em saber que não sou a única, nem a pior nesse aspecto. Dia desses avistei uma moça lendo na esteira da academia. Não consigo imaginar que ela estivesse aproveitando de verdade nenhuma das duas atividades. 

A gente está muito desesperado para consumir conteúdo o tempo inteiro. Quantidades exorbitantes de informação chegam até nós a todo minuto e nos sentimos profundamente ansiosos sobre isso. Um segundo de contemplação do vazio parece desperdício de tempo. Somos cobrados, por nós mesmo, de alta performance a todo instante. Todos os detalhes cotidianos se perdem e nós tentamos colocar não apenas os vídeos e áudios na velocidade 1,5x, mas também as nossas vidas.

O silencio se torna altamente prejudicado. Silencio esse que nos permite entrar em contato consigo mesmo, prestar atenção aos próprios pensamentos, encarar as dores e os problemas. Exatamente o tipo de confronto pessoal do qual me privo covardemente. E depois fico sem entender por que não consigo meditar nem por um segundo. Meditação começa no dia a dia. Inicia-se quando somos capazes de ficar calados e nos escutar. Quando nos perdoamos por não sermos uma máquina que processa não-sei-quantos bytes de informação por segundo. Quando percebemos que não há nada mais produtivo que se concentrar em uma tarefa por vez, pacientemente, sem nos preocupar tanto com a lista de afazeres impossível que traçamos pela manhã. 

Acima de qualquer intenção, este é um texto dedicado a relembrar a mim mesma de que é preciso ir devagar. Aproveito a deixa e te lembro disso também. Respeite seu ritmo. Consuma conteúdo por prazer ou aprendizado, mas não para preencher as lacunas da sua agenda. E permita-se estar sozinho, encare os seus pensamentos. Não fuja deles e depois fique criando arrodeios para tratá-los na sua sessão de tarapia – aconselho com propriedade. 

O transporte público sempre acaba se tornando objeto de algum texto no blog, praticamente um protagonista. Amanhã eu vou trabalhar e o ônibus não vai passar de novo quando eu voltar para casa, é uma certeza. Talvez eu consuma mais alguns capítulos ou quem sabe eu me silencie na parada, observando o movimento na avenida. Em todo caso, com certeza eu vou escutar a conversa alheia. Não garanto não invadir nenhuma delas.

Publicado por Ana Letícia Dantas

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