Rabiscando a cidade

21:34

rabiscos na Ribeira

Acabei deixando as semanas passarem e já faz algum tempo que participei desse evento, mas haverá um novo encontro no próximo sábado e lembrei que valeria a pena escrever sobre a experiência. No início de junho, participei do primeiro encontro norte-nordeste de urban sketch – desenhos urbanos. Os encontros acontecem periodicamente em Natal com organização de alguns professores de arquitetura e urbanismo há algum tempo, mas esse foi o primeiro evento oficial da porção norte do país.

Para quem não conhece o movimento, os urban sketchers são pessoas que vão para as ruas registrar a cidade através de desenhos e pinturas. Trata-se de um trabalho de observação muito gostoso. Considero que o desenho tem uma vantagem sobre a fotografia porque capta a realidade e as cores de acordo com a nossa percepção muito melhor do que uma máquina fotográfica. Às vezes aquele tom que não aparece na lente pode ser criado perfeitamente misturando algumas cores de aquarela. Além disso, colabora para que nos atentemos ao espaço urbano e o ocupe, em uma época em que as pessoas estão cada vez mais reclusas em espaços fechados.

No primeiro dia, recebemos alguns brindes. O ponto de encontro foi o Nalva Café Salão, na Ribeira, onde já estive algumas vezes em outros eventos relacionados ao meu curso. Nalva é uma das principais figuras nesse bairro que as pessoas costumam esquecer, mas que guarda tanto a memória de Natal. O prédio onde se localiza o salão também possui grande importância – Edifício Bila, construído por volta da década de 1950. Nós desenhamos, houve um momento para conversa e a noite se encerrou com música. Eu desenhei um trecho da rua, sem muito compromisso com as leis de perspectiva e ainda um pouco receosa de me permitir errar os traços.

Algo que sempre escuto sobre urban sketch é que são desenhos rápidos e não devemos ter medo de errar. Às vezes os errinhos se incorporam ao desenho e quem sabe podem se tornar um charme.

O segundo dia começou na praça Padre João Maria, por trás da Igreja Matriz de N. Sra. Da Apresentação, na Cidade Alta. Sentamos em meio a um bocado de moradores de rua que vinham olhar nosso desenhos, interessados. Fiquei escutando a conversa deles. Alguns estavam discutindo porque fulano esqueceu de trazer a maconha de sicrano. Outro questionou por que nossos desenhos não estavam expostos em um museu. Ao terminar, eu e minha amiga gastamos nosso tempo entrando em lojas de maquiagem barata na Av. João Pessoa, comemos biscoito Trovo e terminamos sentadas na área de sapatos da Riachuelo só para aproveitar o ar-condicionado.

eu e minha amiga ds

um morador de rua apontou pra essa árvore e disse - se fosse feita de maconha, não sobrava nada

dentro do Forte dos Reis Magos

fora do Forte dos Reis Magos

À tarde, fomos para uma visita técnica no Forte dos Reis Magos. Há muito tempo eu não colocava os pés ali. O local está fechado para reforma e restauração, mas os organizadores conseguiram que nós pudéssemos entrar. De lá, uma vista sensacional da cidade e da ponte Newton Navarro.

Por fim, encerramos na praia de Ponta Negra. Foi desafiador pintar aquarela sentada na areia e contra o vento, especialmente porque sou iniciante, mas gostei do resultado. Muitas pessoas estavam sentadas em barracas, bebendo cerveja e desenhando, mas eu não passei muito tempo porque já estava cansada fisicamente e quebrada de dinheiro. Terminou que não fui para a segunda parte do dia, na vila de ponta negra, mas eu adoraria ter desenhado por lá também.

No fim das contas, fechei o final de semana com vários desenhos novos, saindo da zona de conforto e tendo construído um novo olhar sobre a minha cidade. Agora, para todos os lugares que vou, gosto de levar meu caderno e fazer uns rabiscos. Esses dias uma criança até parou para me ver desenhar e perguntou empolgada ''você desenha pessoas também?'' e eu respondi sinceramente ''não, eu gosto é de desenhar paisagem''. 

descobri que desenhar guarda-sóis é difícil

me arrisquei na aquarela

Publicado por Ana Letícia Dantas

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