Protetora

23:53

 

Meu curso proporciona experiências bastante incomuns às vezes. Entrei na sala de aula quarta-feira à noite um tanto desmotivada – era meu segundo turno na universidade, depois de ter passado a tarde trabalhando e tido dois contratempos com transporte público. Pensei em faltar, mas reuni coragem para estar presente. Tinha a expectativa de que terminasse cedo para dar tempo de ir à academia pela primeira vez na semana. Tenho estado cansada demais. A aula de Psicologia Ambiental seria apenas mais um check na minha agenda.

Mas a proposta de atividade para a noite era diferenciada. A fim de entendermos melhor a conexão entre arquitetura e sentimento, a professora realizou uma espécie de meditação guiada conosco. Algo que costumo fazer na terapia, porém, nunca imaginei vivenciar em sala de aula. Iniciamos agitados, dispersos, risonhos. A luz se apagou. Fechamos os olhos. As respirações foram se acalmando, cada um foi se aquietando em sua cadeira. Ficamos imersos.

Iniciava-se com uma cor. Eu, ainda muito agitada, imaginei várias. Mas a medida que éramos induzidos a pensar um algum lugar calmo, relacionado à natureza, eu respirava cada vez mais devagar e meus pensamentos se afunilavam. No horizonte, se aproximava uma pessoa. Éramos nós mesmos quando crianças. Eu me deparei com a Ana Letícia de sete ou oito anos, muito parecida com a atual, apenas um pouco menor e mais bochechuda. Ela contemplava um futuro que não era capaz de entender, e eu olhava com ternura toda aquela inocência.

Fomos juntas até um local importante para a minha infância – o apartamento onde moro hoje, desde o meu primeiro ano de vida. A disposição dos móveis, na minha mente, era a mesma de quando eu me arrumava para ir à escola assistindo aos Sete Monstrinhos. Sentei-me na sala e minha criança se aventurou pela casa, procurando alguma brincadeira inusitada. Ela explorou o condomínio, que parecia muito maior antigamente. Era enorme. Na verdade, eu era muito pequenina. Lembrei-me de quando aprendi a andar de bicicleta sozinha e de quando eu inventava histórias mirabolantes com as minhas bonecas.

Brincar sozinha significou, para mim, desenvolver bastante a minha criatividade. Eu passava a maior parte das minhas tardes no quarto, desenvolvendo as mais diversas narrativas com as minhas barbies. Gostava também de olhar pela janela e imaginar novas histórias. Hoje, vislumbro o exterior e penso em como a vista que tenho é sem graça. Sempre foram apenas os fundos de um banco e as janelas dos meus vizinhos, mas, na época, eu enxergava muito menos com os olhos e bem mais com a imaginação.

No entanto, em algum momento da infância, eu comecei a sair para brincar com os filhos dos vizinhos. Era divertido, mas frequentemente as outras crianças eram malvadas comigo. Escreviam bobagens nas paredes, colocavam-me apelidos e faziam piada com o meu cabelo cacheado. Eu era desengonçada, não corria direito e nem jogava forte a bola nas brincadeiras. Não havia nenhum motivo especial para gostarem de mim –  e nem para me fazerem de chacota.

Quando eu chegava em casa chorando, meus pais nunca sabiam ao certo o que fazer. Seus esforços jamais trouxeram resultados. Também não posso dizer que resolvi sozinha. O pesadelo cessou no momento em que todos cresceram e ninguém mais queria sair de casa para brincar de esconde-esconde. O tempo passou mas as memórias me acompanharam através dos anos.

Tive que criar uma casca rígida para não deixar mais ninguém fazer pouco de mim. Ainda me sinto uma película delgada, mas de certo aprendi a me defender. No momento da aula em que me ocorreram esses pensamentos, imaginei-me indo até a minha criança e segurando a sua mão. Eu, adulta, certa de quem sou e do que faço, olhei feio para os meninos malvados e levei a pequena Ana Letícia para casa. Fui para mim mesma a heroína que nunca existiu na minha infância.

Levei aquela criança para o quarto dos meus – nossos – pais, o lugar mais especial do mundo inteiro. Adormecemos no fim de tarde sentindo o cheiro dos dois. Deixei-a dormindo, cobri-a com um lençol e apaguei a luz. Apaguei a luz do meu quarto, repleto de brinquedos amontoados. Acenei para os meus pais na cozinha e apaguei a luz. Mamãe estava cozinhando e meu pai assistindo a TV. Apaguei a luz da sala. Fechei a porta. Desci as escadas devagar. E as luzes da sala de aula se acenderam.

Assim como eu, todos os meus colegas vivenciaram uma jornada particular. Em círculo, cada um foi compartilhando a sua. Algumas lágrimas escorreram pelos olhos dos falantes e dos ouvintes, mas eu estava descrente sobre me emocionar a ponto de chorar em algum momento. Ouvi histórias bonitas e histórias tristes, até histórias engraçadas. Entretanto, em dado momento, a emoção atingiu um nível mais alto. Não fui capaz de contar minhas memórias direito porque fui tomada por um sentimento muito forte. Nem eu sei ao certo a razão, sei apenas que, naquela noite, eu definidamente precisava chorar. Paramos o processo para dar um abraço coletivo – estávamos todos precisando.

Depois de relatos fortes e relatos bonitos, eu até me apropriei de algumas memórias dos meus colegas. Um deles falou do café da avó e eu ainda estava com o cheiro na cabeça enquanto dirigia. Todos nos sentimos muito mais motivados e próximos uns dos outros. Ignorei totalmente a academia e só pensava em voltar para casa para me deitar com meus pais e conversar com eles enquanto ainda estivessem acordados. Fiz exatamente isso.

Em meio a uma semana caótica, a lembrança dos meus piores momentos da infância me fez recordar também de um refúgio que continua funcionando muito bem ainda que eu agora (supostamente) seja uma mulher adulta. Lembrou-me de que esses momentos ficaram para trás, há pelo menos dez anos. Não defendo o bullying como ferramenta de formação de carácter, mas não posso ignorar que essas e outras inúmeras situações que vivi, em diversos espaços, também foram insumo para a construção de quem hoje eu sou, quaisquer que sejam as consequências. No fundo, ainda guardo parte daquela inocência dos oito anos, e sou mesmo a única pessoa capaz de me proteger. Por isso, luto por mim – por nós   todos os dias 

Postado por Ana Letícia Dantas

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