Comida não é estorvo, é carinho

15:06

riped banana on pink surface
Photo by Mike Dorner on Unsplash


Uma das conversas mais interessantes que ouvi nos últimos tempos ocorreu essa semana no episódio do podcast Um Milkshake Chamado Wanda com a Rita Lobo, criadora do Panelinha. Desde que tenho me dedicado mais ao autocuidado, alimentação é um assunto que me interessa bastante e minha relação com a comida tem mudado. No episódio, eles conversaram sobre como os hábitos alimentares se alteraram ao longo dos últimos anos e duas partes me chamaram a atenção: quando a Rita comenta que as pessoas estão mais atentas à alimentação “saudável” e quando se fala que nós somos uma geração má relacionada com a comida (licença para minhas adaptações).

Eu não coloquei as aspas por acaso. A gente não está entendendo mesmo o que é comer saudável, inclusive eu, seduzida pela pressão estética. Ao meu ver, nós colocamos a alimentação como algo secundário em nossas vidas (ainda que sejamos dependentes disso para viver) e pautamos nossas escolhas principalmente no tempo disponível e no que emagrece. Nesse último aspecto, há bastante alienação sobre a comida, porque existe uma tendência muito forte a tratar a alimentação de uma forma muito mecânica, intragável. Vou explicar:

Como alguém que já caiu na onda dos perfis fitness de Instagram, posso dizer que ali é vendido um estilo de vida insustentável para a maioria das pessoas, porque se trata comida como números. São quantidades de calorias, quantidade de nutrientes, comidas que são do bem, comidas que são do mal, cardápios engessados. Sem generalizações, claro, mas esse tipo de conteúdo é muito popular. Essa maneira de tratar comida também é válida, especialmente para profissionais da área, como nutricionistas, que enxergam muito além de nós. Mas, para alguém comum, é insustentável tomar café da manhã todos os dias contando quantas gramas de banana pretende consumir para não exceder a meta de carboidratos do dia. Falo por experiência própria. Quando se enxerga a comida como ALIMENTO e que todos eles geram benefícios únicos para o corpo, COMER bem se torna mais fácil e prazeroso. 

Além disso, as pessoas precisam entender urgentemente a diferença entre alimentação saudável e restrição alimentar. Sinto essa confusão na pele há anos, desde que me descobri intolerante à lactose, e conhecidos me parabenizam por ter a alimentação restrita. Falo sério. Já ouvi gente dizer que me inveja por isso... só porque supostamente não vou engordar comendo doces e etc. Inveja porque eu literalmente tenho dor de barriga caso tome leite demais. Absurdo, não é? Em síntese, muita gente acha que se restringir é ser saudável – enquanto, na verdade, uma boa alimentação é o mais diversa possível. 

Existem restrições voluntárias, por questões ideológicas, como o veganismo e o vegetarianismo. É provável que você, ao aderir a um deles, passe a consumir outros tipos de alimento e redescobrir seu paladar, mas não é regra. Existem, também, restrições por questões de saúde, como diabetes, intolerância à lactose, intolerância à glúten, alergias. Elas igualmente não significam um estilo de vida mais saudável. De fato, reduzir o consumo de açúcar é NECESSÁRIO, mas substituir tudo por adoçante não é uma estratégia boa. Consumir menos leite também não é ruim, mas não é como se esse alimento, rico em proteínas, fosse um grande vilão. O glúten também não é. Nem o carboidrato. Nem nada, sabe? É tudo importante na medida certa. 

No podcast, a Rita Lobo comenta também sobre valorizar a alimentação típica do Brasil, nosso arroz e feijão que é tão popular por ser acessível e alimentar bem. A comida caseira, aquela que nosso pais e avós cozinhavam e ainda cozinham para nós, é a forma mais saudável e sustentável que existe. Não é necessário racionalizar a quantidade de macronutrientes em cada refeição do dia se houver a preocupação de priorizar os alimentos naturais e de, principalmente, ter variedade. Não precisa se deixar seduzir pelas dietas da moda e pela pira de um objetivo com a alimentação. Nem muito menos devemos endoidar como o resultado disso na balança, não mesmo. Comer não é pra ser tortura, estorvo. Comida serve pra gente ficar vivo (e ainda nos dá prazer, veja só!). Trate-a com o mesmo carinho que ela te oferece. 

Postado por Ana Letícia Dantas

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