A cidade melancólica de Henrique Castriciano

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Meu trabalho final em uma das disciplinas que cursei esse semestre foi escrever um artigo científico sobre algum tema pertinente para a arquitetura com recorte temporal até a primeira metade do século XX. Meu produto não foi um tema relevante, não vai mudar o mundo e possivelmente não é interessante para a maioria das pessoas, mas me trouxe um ganho pessoal importante que foi o contato com a produção literária de Henrique Castriciano. Foi por acaso que caí nesse tema. Pesquisando sobre a existência da figura do flâneur no início do século passado, encontrei as crônicas de Castriciano. Ele produziu outros gêneros literários, como o poema, mas confesso que é da crônica que me sinto mais íntima. O meu trabalho consistiu, em síntese, na descrição de como era morar na capital potiguar naquela época por meio desses textos. 

Henrique Castriciano foi uma pessoa da elite, com oportunidade de viajar e conhecer muito mais que os limites da pacata Natal. Também era um homem inteligente, com hábitos de leitura bastante fortes. Quando ele descreve a sua experiência na urbe, fala com melancolia, critica os prédios, os hábitos das pessoas, as ruas desertas. É impossível não associar à atualidade. Embora tenhamos mais de 800 mil habitantes, persiste aquela sensação de cidade provinciana, onde todo mundo se conhece e carece de animação. Em “A Esmo”, é tão insuportável habitar em Natal que se torna questionável permanecer vivo. Ainda hoje conheço quem concordaria. 

“Nossa capital, quando chegamos de um centro mais ativo, nos faz recordar, pelo silêncio que a envolve e pela inércia em que se arrasta, uma remota aldeia da Palestina. Sobretudo, e para ver a tristeza que nos embaça a fronte, cheia de uma palidez que eu chamarei romântica se não fosse doentia. Cada semana que passa essa melancolia se acentua, e de tal modo que é o caso de perguntar por que toda essa gente não mete logo uma bala no ouvido. As moças naturalmente graciosas andam por aí com os vestidos de preguinhas, de aterradora simplicidade, dizem as más línguas que com o medo de irem para o inferno - medo absolutamente infundado porque se ele existe, já deve estar cheio de homens, inclusive alguns sacerdotes dos mais conceituados.” [A ESMO, 1908]

Há textos otimistas, sobretudo acerca da paisagem (atualmente em risco nas discussões do Plano Diretor). Em “Lourival e seu tempo III” a descrição é tão precisa que é quase possível enxergar a cena entre as palavras. O Potengi aparece colorido e mágico nessa crônica. Hoje, é considerado apenas uma barreira a ser vencida para chegar à outras partes da cidade, que cresceu dando-lhe as costas em um gesto de ingratidão. 

“Visto do Rifoles é igualmente magnífico o cenário da nossa baía. Como se torna fantástica na hora que começa o crepúsculo vespertino. Nesse instante, do azul puríssimo do rio, desprendem-se uns longes de poesia capazes de inspirar não somente os artistas de raça, mas todos os que podem pensar e sentir. Nada mais encantador do que, nesse momento, o Potengi descendo para o mar, nas horas da vazante, sereno e calmo, conduzindo nas curvas do estuário, dando à perspectiva uns tons suaves de mágica, de tela policroma. O rio adquire, então, nuances de uma delicadeza tal, há nas suas águas, docemente onduladas pela viração do norte, uma tão longe variedade de tintas, de cores alteradas pela refração da luz, que a gente fica minutos e minutos embebida na contemplação desse panorama evocador de outros lugares guardados no fundo da memória e que surge de repente, como através de um sonho amigo aos nossos olhos turvos de saudosa melancolia. E as cores violáceas do crepúsculo, descendo do céu arroxeado e caindo nas linhas enfumadas das dunas alvas, quase desfeitas pela sombra da noite que vem tombando, quase mergulhadas no galpão de trevos que , por toda a parte, se alastra, criando o mistério das coisas insondáveis.” [LOURIVAL E SEU TEMPO III, 1907]

Apesar do desgosto frequentemente registrado em suas crônicas, a real intenção de Henrique Castriciano era incentivar os seu leitores a “educar a retina” e lançar sobre Natal novos olhares (afinal, vivia-se um momento de significativas modificações). É curioso como ele produziu esse efeito em mim ainda que mais de 100 anos depois. Passei a prestar mais atenção nas ruas, na natureza emblemática que nos cerca e nos detalhes do dia a dia. Encontro poesia até nos matinhos que crescem no meio-fio. Penso na Natal de 1908 e na Natal beirando 2020 e reflito sobre as mudanças e as permanências. Enquanto corrigia meu trabalho, a professora escreveu “ainda bem que mudou” em tom de ironia sobre o panorama angustiado de Castriciano sobre a cidade.

Eu me pergunto, no entanto, o quanto essas impressões são verdadeiras ou apenas uma manutenção de ideias na nossa mente. Em várias das crônicas castricianas há críticas à falta de opções de lazer na capital. Hoje em dia fazemos a mesma reclamação. É inegável que o poder público tem sua (grande) parcela de culpa ao não proporcionar espaços adequados para nós frequentármos, falhar com a segurança pública e sequer viabilizar a ocupação das calçadas, que em muitos casos estão em péssimo estado. Porém, quanto mais a gente se apropria da cidade, mais vivacidade proporcionamos a ela. Será que não temos mesmo opções melhores ou apenas escolhemos gastar nossas tardes de domingo em um shopping? Apreciamos os eventos locais? Usufruímos dos parques a nossa disposição?

A obra completa de Henrique Castriciano pode ser encontrada no acervo especial da Bibioteca Central Zila Mamede, na UFRN. Procure por Seleta: textos e poesias. Nesse caso, o livro não pode ser retirado para empréstimo, sequer sair da sala onde é guardado. Mas vale a pena o esforço. Para dar uma noção de como os assuntos são variados, Castriciano parece ter um interesse especial no hinduísmo e também trata sobre política. Talvez se interessasse bastante pela Natal de hoje em dia, ou tecesse críticas modernas ao marasmo. Ou ainda ele exista em nós, flâneurs do século XIX, quando experimentamos a urbe e ocupamos os seus espaços. De qualquer forma, entenda esse texto como um incentivo para abrir os olhos (:

Publicado por Ana Letícia Dantas

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