As outras histórias que os livros me contaram

17:00


Há alguns meses, eu encontrei um livro de História da Arte no Estante Virtual por 60 reais. Era a 10° edição do Gardner's Art Through the Ages, com mais de 1000 páginas e em ótimo estado de conservação. Comprei e enviei para a casa de dois amigos em São Paulo (obrigada Dante e Vitor) porque poderia buscar quando viajasse para o carnaval. Está na minha mesa de cabeceira desde então, pois 2019 foi conturbado e eu não tive como parar para me aprofundar nas leituras. Porém, agora que estou verdadeiramente de férias, abri o livro para folhear um pouco e encontrei essa relíquia. A nota fiscal do primeiro comprador em 1997. Como sobreviveu até hoje, eu não sei. Provavelmente a impressão era diferente, visto que as notas atuais mal duram uma semana. Chamei os meus pais para ver e eles reagiram sem muita empolgação. Afinal, por que eu estaria tão animada com esse comprovante?

No meu íntimo, eu estava segurando uma item valioso. Imaginei o que se passava na cabeça daquela pessoa no momento da aquisição e como era a livraria na época. Eu nasceria mais de um ano depois, mas, de alguma forma, eu e aquele comprador estávamos conectados. Além da nota fiscal, encontrei as outras anotações. Alguns “checks” ao lado das imagens que jamais entenderei. As palavras “romantismo” e “realismo” escritas em inglês várias vezes. Só faltou o nome na contracapa. Numa rápida pesquisa online, descobri que a Alexander Book Company ainda existe no centro de San Francisco, nos Estados Unidos. Na fachada anunciam "três andares de livros". Não que importe muito, mas satisfez minha curiosidade. Se algum dia eu por os pés pessoalmente lá, preciso parabeniza-los pela nota fiscal com durabilidade maior que duas décadas. 

Sou terminantemente contra a ideia de que livros são entidades sagradas que devem ser conservadas a qualquer custo. É claro, qualquer item de valor, especialmente emocional, requer cuidados. Ninguém está pensando em usar livros para limpar cocô de cachorro (alguns deles por respeito ao cocô mesmo), mas é absolutamente normal grifar trechos importantes, escrever os próprios pensamentos e aquele desgaste natural pelo uso recorrente. Eu tenho pena dos livros de quem os trata como coisas imaculadas e lê até meio atravessado para conservar a lombada. Depois, guarda numa estante sozinho e mantém como puro item de decoração, privando outros olhares de conhecerem aquela história. 

Ao comprar livros em sebos ou mesmo tomar emprestado, eu descubro o enredo principal e as outras narrativas que o cercam. Eu encontro a nota fiscal e imagino como era aquela pessoa que comprou, o que se passava em sua mente. Eu vejo os grifos nas frases e me pergunto por que foram importantes para quem os fez. Até Harry Potter não teria se destacado como aluno de Porções no sexto ano se não fossem as anotações deixadas pelo Príncipe Mestiço. Dedicatórias, então, são quase como encontrar ouro em papel. Há quem chame de sacrilégio, porém eu considero histórias a parte - e me sinto ansiosa para encontrá-las. 

Publicado por Ana Letícia Dantas


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