Crônica: De pé na cozinha

15:05

Photo by Caleb Thal on Stoksy

Tarde de quinta-feira, verão sulista, dia frio e chuvoso. Casa vazia, vizinhança silenciosa. De pé na cozinha, invejei por um momento a protagonista daquele filme de terça, que parecia imergir-se em completa paz quando parava tudo para preparar e apreciar seu café; enquanto eu, há anos, sou cotidianamente levada por xícaras de café à reviver as lembranças da nossa história. Esperando a água ferver, mais uma vez sou arrastada até você. 

Me lembro muito vividamente de ver você se dedicar, por dias, no fim da tarde, a encontrar uma medida que me fizesse declarar o café aceitável, já que na época eu achava tão detestável e você jurava ser a oitava maravilha. Quando finalmente achamos o equilíbrio entre as quantidades (hoje aceito, absurdas) de açúcar e leite, você me disse que tinha certeza de que logo eu estaria completamente rendida e o tomaria puro diariamente. Aceitaria o mais amargo.

É claro que você estava falando de café, mas ao lembrar hoje me pareceu uma piadinha do universo (ou sua mesmo) sobre o rumo da nossa história. Digno da acidez estomacal depois de um café forte e sem açúcar. Em meio a tanta mágoa, tento preservar no meu lembrar o que tivemos de bom, o que nem sempre é uma tarefa fácil.

Não tenho conseguido escrever, sabia? Duvido que saiba. Ainda em pé na minha cozinha gelada e pequena, me incomodo com esse fato da minha vida adulta. Por mais doloroso que seja admitir, a verdade é que toda tentativa de escrita, me leva até você - tal qual as xícaras de café. Os textos que ousam trilhar outro caminho findam no fracasso. E por mim estava tudo bem. Nenhum fracasso seria maior do que aceitar ainda escrever sobre nós dois depois desses muitos (longos) anos.

Mas hoje  percebi que você já tirou demais de mim, querendo ou não. Então, aqui estou, me rendo, te escrevo mais uma vez. A água já ferveu, e eu vou continuar tomando o seu... aliás, o meu café. Amargo. Que seja. Mas não abrirei mão de mais nenhuma parte de mim. Não por você. 

Postado por Bárbara Andrade

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