Crônica: Um adendo: sinto sua falta

01:29

Carregado por anny | Disponível em Pinterest

Te escrevi uma longa carta na última madrugada e, no último parágrafo, me despedi dizendo que estava bem - "mesmo". Reafirmei meu afeto. Falei de saudade. Assinei. Dobrei o papel colorido lentamente e... chorei copiosamente, até adormecer, uma tentativa evidentemente falha de desfazer o nó que sufocava meu peito. Na manhã seguinte, digitei no meu celular um post escriptum, intitulado "adendo", relatando a epifania noturna que tive sobre a minha própria tristeza. A verdade é que nem sempre estava tudo tão bem assim.  

Sequer passei a limpo. 

Quando sentei para escrever sobre as grandes novidades, contar minhas últimas aventuras e me gabar das recentes conquistas, nem havia decidido se te enviaria a carta quando chegasse ao fim da redação. Não sabia se teria a coragem necessária para selar o envelope, enfrentar o sempre lotado ônibus a caminho do centro, aguardar minha senha ser chamada e, por fim, optar pela postagem simples quando questionada pela agente postal. Que dirá ter a coragem de deixar ecoando ao fim de sua leitura um P.S. falando sobre minhas mazelas e bloqueios. Eu, que precisava reunir coragem para enviar a bendita, não conseguia sequer imaginar sua cara lendo que só ultimamente só me permito sentir as minhas emoções de verdade quando corto cebolas e as lágrimas se tornam inevitáveis. Estou contida o tempo inteiro.

Sei que o orgulho nunca foi o seu preferido entre meus traços, mas sigo levando-o comigo e, gradativamente, vou reduzindo seu tamanho. Por mais difícil que seja admitir, ainda me dói ver você tão bem sem mim. Complicado aceitar a minha solidão sabendo que a sua vida seguiu em frente enquanto me sinto estagnada há tanto tempo. Complicado e necessário. Por isso te escrevo repetidamente. O mesmo destinatário, o mesmo tema, quase a mesma carta.

Recentemente me mudei de apartamento. No meio da loucura, perdi meu caderno de escritos. Acho que junto perdi a inibição de te escrever publicamente. Por fim, não te enviarei a carta. Mas registro aqui a confissão contida: você faz falta. E tudo bem.

Postado por Bárbara Andrade

Posts relacionados

0 comentários