Do alto da colina

19:04


Meu tema favorito para escrever costuma estar além das paredes do meu quarto, onde eu me sento confortavelmente na frente do computador para narrar esta e outras crônicas. Gosto de contar as histórias que permeiam as ruas e se encontram nas esquinas. Aquelas que são varridas pelo vento e se escondem no meio-fio. Eu aprecio o cotidiano, do inusitado ao mais banal. Acredito na beleza e poesia do dia a dia, é minha constante fonte de inspiração. 

Em tempos de quarentena, não deveria me arriscar fora de casa, mas decidi que pedalar sozinha pelo bairro não era exatamente um comportamento de risco. Por isso, no final da tarde, tirei a bicicleta da garagem, deixei os fones de ouvido na cama e resolvi me aventurar por uma praça em uma colina, para ter um extra de desafio. Essa acabou sendo uma vivência quase que catártica, especialmente porque eu não tinha grandes expectativas quanto a isso.

Eram umas 17h30 e o céu já revelava tons rosados. Comecei devagar e fui acelerando, pegando impulso para a subida. A primeira foi fácil, mas eu repeti o percurso umas cinco vezes. Na academia, o momento em que meu coração acelera e meus pulmões começam a pedir arrego é o pior possível, mas na rua essa experiência se torna muito mais suportável. Eu não estava sozinha. Haviam pessoas caminhando ou correndo, sozinhas ou em grupo, durante todo o caminho. Do lado esquerdo, a vegetação crescia sem restrições, e a calçada à direita estava repleta de flores charmosas as quais eu ainda não descobri o nome. Às vezes cachorros corriam ao meu lado e nós competíamos sobre quem era o mais rápido. Eles nunca venciam. Outros ciclistas passavam por mim muito mais preparados. Trocávamos olhares em silêncio. 

A melhor parte, no entanto, era chegar ao alto da colina, sem fôlego, e descer a ladeira sem me preocupar em apertar o freio. À medida que eu ganhava velocidade, sentia meus cabelos dançarem com o vento e a sensação de liberdade invadir o meu corpo. Os prédios coloridos passavam depressa pelos meus olhos. Eu ouvia os pássaros, o vento e a minha respiração, apenas. Sentia que não havia nenhum outro lugar no mundo para se estar, eu me encontrava no presente, meus pensamentos não fugiam. Quando a bicicleta começava a perder força, eu voltava a pedalar. E pedalava até o alto da colina para descer novamente.

Eu contornava a praça de novo enquanto a noite caía. Os postes revelaram a sua iluminação alaranjada que deixa tudo com um ar de certo mistério. Os idosos que caminhavam e conversavam opiniões políticas controversas já haviam se retirado. O rapaz com seu cachorro branco continuava sentado no banco da praça. O funcionário da oficina me observava passar por ele mais uma vez. E eu fazia minha última descida, ajeitando os óculos no rosto para não perder nenhum detalhe daquele espetáculo.

Publicado por Ana Letícia Dantas

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