Crônica: Nada será como antes

17:08

Photo by Allef Vinicius on Unsplash

A primeira vez que alguém me quebrou, pensei estar encarando o fim do mundo. Agora enxergo o passado com uma leveza inesperada e estou certa de que não há nada que o tempo não seja capaz de curar. Não há mágoa que não se dissolva na maturidade e não existe paixão que não se esfrie com a neblina do cotidiano. Os sentimentos são transmutados, as pessoas ganham novos lugares, as relações têm outros sentidos. Aquelas narrativas construíram minha essência, ignorá-las seria me encarar totalmente diferente, inexistente. Não cabe sequer o arrependimento - que a gente acaba esquecendo também.

Sentia-me aflita ao pensar que nada seria como antes. Errei ao crer que essa era uma constatação ruim. As pessoas que protagonizaram aquelas histórias já não existem mais. Eu não tomaria as mesmas atitudes e nem os mesmos caminhos. Sei quais são as escolhas ruins apenas porque já falhei diversas vezes. Conheço a beleza porque a encontrei de variadas maneiras. E, ao mesmo tempo, sei de muito pouco, ainda há bastante para descobrir.

As memórias que restaram serão perenes dentro de mim, imutáveis - para o bem ou para o mal. Com o tempo, serão cada vez menos acessíveis, porém deixando marcas inegáveis. Há espaço abundante para novas histórias. O limite é a existência. Eu me construo a cada narrativa, mesmo quando me sinto quebrada. Encontro sorrisos por outros caminhos. Enxergo quem sou por novas perspectivas. Caso alguém, naquele época, tivesse me advertido, o conselho teria pouca eficácia. Essa é uma descoberta particular. Desse modo, esse meu texto-conselho, afinal, também é inútil.

Publicado por Ana Letícia Dantas

Posts relacionados

0 comentários