Meu quarto, meu casulo

14:22

detalhe da penteadeira com a luminária que ganhei de presente da preciosa marina chen

Nessa quarentena, mais do que nunca, meu quarto tem sido meu casulo. É onde passo a maior parte dos meus dias. Quando não estou no meu quarto, estou na cozinha roubando mais um pedaço dos pães da minha mãe ou na sala fazendo companhia a mesma enquanto assistimos novela. Gasto meu tempo, principalmente, sentada na cadeira em frente ao computador, deitada na cama adormecida ou me balançando na rede. Habito esse ambiente há mais de vinte anos, com diversas alterações enquanto eu crescia. Primeiro, é claro, havia um berço. Depois, bonecas e outros brinquedos se espalhavam pelo quarto. Quando os sonhos infantis se dissolveram, desenhos e posters de artistas invadiram as paredes. Aos poucos os móveis foram mudando, de forma e de lugar, assim como eu mudei também.

Atualmente, há uma cama de ferro (de solteiro) bastante antiga no centro do cômodo, doação de uma tia bastante tempo atrás. Minha mãe já cogitou mudar, mas eu recusei. A trama da cabeceira tem certo charme. Ao lado, um gaveteiro, antes marrom, agora branco, onde repousam livros grandes demais para a estante. Acima, há um mural de ferro, meu sonho de adolescente, agora com fotos antigas e que já deveriam ter sido atualizadas. Ao lado, uma penteadeira camarim, pedido que fiz quando percebi que gostava de me arrumar, depois de uma adolescência inteira negando esse fato. Na parede oposta, existe uma estante suspensa com dezenas de livros e uma bancada sobre a qual eu desenvolvo a maior parte das minhas atividades. Por fim, meu guarda-roupa atual, que se limita a uma arara e dois gaveteiros - gosto bastante dele, porque me dá uma consciência muito maior da quantidade e quais peças possuo. 

Acima da cama, existe uma janela por onde eu espreito as estrelas quando me deito. É gradeada por questões de segurança, detalhe que sempre detestei. Porém, a vista é com certeza a parte menos empolgante. Diria que uma das principais vantagens de morar em um apartamento é a visão que se tem da janela, mas, no meu caso, é um malefício. Vejo, em primeiro plano, a janela dos apartamentos vizinhos, excluindo a minha privacidade. Vejo o jardim sem graça do prédio, uma rua pela qual ninguém passa e os fundos de alguns estabelecimentos comerciais, com suas pinturas gastas e aparelhos de ar-condicionado. Além disso, o vento não entra por essa janela, situação agravada pelo fato de o sol incidir a tarde inteira sobre a parede ao lado, transformando o quarto em uma verdadeira sauna dia e noite. No verão, são dois ventiladores ligados no máximo para resolver. 

Tudo isso foi construído aos poucos, a cada ano um móvel era acrescido ou substituído no quarto, até o resultado atual, pelo qual sou apaixonada. É tudo branco, com paredes azuis, e decorado com itens que significam muito para mim e a minha história. No entanto, a maior parte dos móveis não foi realmente escolhida por mim. A cama chegou quando eu era criança e permanece porque eu gosto. A bancada e a estante, assim como o guarda-roupa, foram sugestões da minha mãe que eu aceitei de bom grado. Apenas penteadeira e a pintura das paredes foram ideias minhas.

Apesar de, como estudante e estagiária de arquitetura e urbanismo, já ter feito ou desenhado muitos projetos de móveis planejados, eu pessoalmente não gosto muito da aparência arbitrária que a marcenaria gera. Não acho abominável, pelo contrário, sou super a favor. A sala de estar do meu apartamento teve um projeto (não foi meu, eu tinha uns 17 anos na época) e os móveis foram feitos sob medida, algo muito útil para um ambiente tão pequeno e que o deixou bastante elegante, além de satisfazer completamente aos desejos da minha mãe. No entanto, o meu gosto particular tende a móveis colocados de maneira mais flexível, por vezes construídos a partir de outros mais antigos, peças simples e inteligentes, e uma decoração profundamente marcada pela personalidade do morador. Aquilo que dá cara de casa, sabe? Claro que cada caso é diferente e, quando formada, eu vou ter um bilhão de perspectivas para avaliar nos meus futuros projetos, porém, sinto que essa tendência vai me acompanhar de algum modo na vida profissional. 

Dito isso, gosto de pensar como o meu quarto seria um tanto diferente se eu tivesse tomado todas as escolhas. Quem sabe, quando eu me mudar para um lugar que não seja a casa dos meus pais. É provável que minha primeira morada longe do ninho seja um apartamento pequeno e banal. Gostaria que ele tivesse uma vista bonita, pelo menos, porque me imagino uma mulher bem-resolvida consigo e com a carreira no futuro, bebendo vinhos caros na varanda. Mas eu realmente espero um dia morar em uma casa aconchegante, numa rua pacata, com um quintal florido onde eu vou me deitar numa espreguiçadeira com meu chá de canela para ler Zafón. A janela do meu quarto vai dar para o jardim, penso eu. Nos dias chuvosos, vou abrir as cortinas, respirar o cheiro de grama úmida e ver as flores se curvando para os pingos pesados que caem sobre elas. Vou deitar na minha cama e apreciar o meu casulo, sorrindo com a minha tranquilidade. Por enquanto, o faço em minha cama de ferro, olhando as estrelas através da janela gradeada.

a penteadeira iluminada, o mural de fotos, o gaveteiro sobre o qual estão livros grandes demais e outros que estou lendo no momento

fotos antigas e lembranças de viagens

guarda-roupa em arara que deixa o quarto colorido e me deixa ciente das peças que possuo



Publicado por Ana Letícia Dantas

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