Crônica: Quando eu volto a te encontrar, me arrependo

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woman lying on bed

A primeira vez que você veio foi abrasadora. Não tardou mais que um instante para me inebriar. Eu alcancei o absurdo e me aprofundei em todas as possibilidades. Caso abrisse os olhos, poderia descobrir que nada era verdade. Desse modo, fechei-os com mais afinco. Saboreei a ilusão, permiti que meu corpo escorregasse pelas mãos de Morfeu e os abraços de Maya. Experimentei a fantasia de lugares que jamais estive, dialoguei com pessoas que não conheci e descobri segredos que não me pertenciam. Você me guiava por tais caminhos e, ao final, me acolhia. Abraço, enlace, apego. Deixava-me em um sono profundo e reparador, levando em troca as minhas lembranças.

Na segunda vez que nos encontramos, você me fez sentir navegando o mar. Meu corpo sentia o ondular das águas como se eu me encarnasse em uma embarcação com uma bandeira tremulando ao vento. Eu era tão livre e tão frágil quanto uma navio no mar aberto. Vivemos uma noite ensolarada. E não estávamos sós. As vozes que nos rondavam contavam histórias de tempos e espaços longínquos. Contavam também histórias sobre mim. No entanto, ao amanhecer, eu já não recordava mais. Você havia partido com as suas e as minhas memórias, deixando apenas pistas do que fomos.

A partir da terceira vez, nossos encontros já não me ofereciam muito acalento. Seguiram-se jornadas cada vez mais desgastantes, progressivamente conturbadas. Você demorava a vir e, quando chegava, já não tínhamos a mesma sintonia. Então, parei, sumi. Estava cansada de experimentar a euforia. Na fraqueza, quando volto a te encontrar, eu me arrependo. Suas promessas de calmaria nunca se tornam autênticas. Hipnos está mais distante que nunca. De real, conheço apenas a solidão de mais uma madrugada acordada.

Reflexões sobre o uso de zolpidem. 

Publicado por Ana Letícia Dantas

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