Leituras de 2020 (parte 01)

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book near eyeglasses and cappuccino
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Eu não estava animada para fazer muitos planos quando 2020 começou. Parecia estar prevendo que seria um ano complicado. No entanto, entre as poucas metas que estabeleci, decidi que leria o equivalente a 2400 páginas durante o ano, ou seja, um livro de 200 páginas por mês, para reativar o hábito da leitura. Decidi quantificar páginas porque achei mais justo - afinal, um livro de 800 páginas leva muito mais tempo para concluir que um de 300, isso é óbvio. Considerei a meta possível, mas não contava que fosse concluir ainda em junho.

Há tempos eu tentava retomar o hábito de ler, sem sucesso. Na verdade, acredito que li mais do que penso nos últimos anos, se considerar todos os textos que precisei devorar para a universidade. Mas ler por interesse próprio vinha sendo uma atividade bem rara. Em 2020, posso dizer que retomei o hábito. Claro que tive a ajuda da quarentena rs mas também tenho meu mérito. Até agora, estou em 3000 páginas e já atualizei a meta de 2400 para 5000. Por enquanto, vou deixar aqui minhas impressões sobre os títulos que consumi na primeira metade do ano.

O PRISIONEIRO DO CÉU

Esse, confesso, já tinha lido antes. Faz parte da série de livros de Carlos Ruíz Zafón (que infelizmente nos deixou este ano) O Cemitério dos Livros Esquecidos. Esse é um dos meus escritores favoritos, então sua morte prematura me deixou bastante abalada. Tenho todos os seus livros na estante e guardava espaço para mais. A serie da qual O Prisioneiro do Céu faz parte certamente ocupa um lugar especial. Trata-se da história da família Sempere e de uma Barcelona maldita e sedutora delineada nas palavras de Zafón.

Neste livro, Daniel Sempere e seu fiel amigo Femín Romero de Torres se envolvem em mais uma trama de mistérios e conflitos, dessa vez revisitando o próprio passado. Conhecemos mais sobre personagens explorados no primeiro livro e começamos a questionar o que já sabíamos sobre essa história. Ainda que não seja o melhor livro da série (definitivamente não é), oferece bastante suporte para o entendimento da narrativa como um todo.

O motivo de eu ter relido O Prisioneiro do Céu foi refrescar a mente para finalmente ler O Labirinto dos Espíritos. Queria ter uma experiência completa ao ler o último volume de O Cemitério dos Livros Esquecidos. Apesar de ser possível entrar na história por qualquer livro, recomendo a leitura seguindo a ordem dos lançamentos, ainda que não seja a ordem cronológica. 

O LABIRINTO DOS ESPÍRITOS 

Enfim o último. Não esperava que fosse o último da vida do Zafón. Trata-se de uma história densa, repleta de feridas causadas pela Guerra Civil Espanhola e bem situada no contexto político da época. Agora, somos apresentados a uma nova personagem, Alicia Gris, uma investigadora profissional cuja vida foi delineada pela dor e pela paixão pela literatura. Ela é requisitada para desvendar o desaparecimento do ministro Mauricio Valls, e acaba cruzando o caminho de Daniel Sempere enquanto este procura entender os mistérios por trás da morte de sua mãe. Aqui, todas as histórias convergem para um único desfecho.

Sempre fico de pé atrás quando homens escrevem protagonistas mulheres. Alicia, então, era uma personagem que eu analisava criticamente. Apesar de algumas críticas e de considerá-la caricata em certos aspectos, de maneira geral, admiro e gosto da sua construção. É possível sentir as suas dores e entender suas motivações. É uma mulher interessante, destemida, complexa e muito mais inteligente que a maioria dos homens da história. Gostaria que não houvesse uma certa rivalidade entre ela e Bea Sempere, até porque minha estima por Daniel cai bastante nesse livro. Porém, sinto-me capaz de perdoar Zafón por isso.

Não sou uma grande resenhista, eu acho, mas gostaria que meu pequeno relato incentivasse alguém a dar uma chance a essa trama tão maravilhosa. Como eu já disse outras vezes por aqui, uma das grandes decepções da minha vida foi conhecer Barcelona (risos) e descobrir que a atmosfera quase mágica que conhecemos nas páginas de O Cemitério dos Livros Esquecidos não existe além da fronteira das palavras. Quando leio Zafón, eu me sinto caminhando com Daniel Sempere pelas ramblas do Bairro Gótico. Sinto-me sentada com Femín Romero de Torres dentro das celas tenebrosas da prisão de Montjuic. Sou a própria Alicia Gris equilibrando mais uma taça de bebida na mão.

SURGE ET AMBULA

Fugindo um pouco da ficção, li essa publicação que estava na minha estante há muitos anos (desde muito antes de eu entrar no curso de arquitetura) porque um dos organizadores é meu primo. É uma reunião de artigos sobre a cidade de Natal entre o final do século XIX e o início do século XX, a qual oferece um bom panorama de como a cidade se modernizou nesse período. Confesso que até hoje não sei o que significa Surge Et Ambula, preciso perguntar a George. Poucos são os autores que não conheço, porque os artigos são todos frutos do grupo de pesquisa em história da cidade e do urbanismo da UFRN (ou seja, a maioria foram/são meus professores).

Apesar de ser um livro acadêmico, fiquei bastante empolgada em ler, não apenas como estudante de arquitetura e urbanismo, mas como amante e moradora de Natal. Os artigos, que variam entre diversos assuntos como sanitarismo e a questão dos retirantes, são todos bem importantes para entender processos que refletem na realidade da cidade até hoje. Além disso, é útil para compreender temas referentes não apenas à Natal, mas a nível de Brasil também. 

O único problema é que, como observo em livros que reúnem várias publicações, em determinado momento se torna um pouco repetitivo. Então, lá para o final, eu já estava cansada de ler sobre os mesmos assuntos. No entanto, a leitura no geral é bem interessante, esse é realmente um período da história natalense que gosto de estudar. Vale a pena para estudantes e curiosos.

GARDNER'S ART THROUGH THE AGES

Como já escrevi em outro post, comprei esse livro de mais de 800 páginas sobre arte em inglês em um sebo em São Paulo, mas também tenho a versão digital. Sempre me interessei bastante por história da arte, mas não tinha tido muito contato até entrar na faculdade. Quando o professor me passou o PDF, não sabia se daria conta de terminar. Mas a quarentena acabou me ajudando a devorar... Li desde o paleolítico até sobre exposições temporárias na atualidade. Acompanhei atenta o desenvolvimento da arte e da arquitetura ao longo dos séculos. Claro que não foi possível aprofundar em nenhum período ou estilo, é muita história mesmo para um livro de quase mil páginas. Mas dá um bom panorama e base para pesquisas mais aprofundadas.

Se você ficou interessado, mas tem receio pelo inglês, não se preocupe: a linguagem é muito simples de entender. Claro que eu precisei do tradutor em algumas palavras específicas, porém, com um nível intermediário é perfeitamente possível entender o que está escrito. Além disso, expandi um pouco meu vocabulário, então posso dizer também que foi uma ótima aula de inglês também hehe.

O FEMINISMO É PARA TODOS

Indicado pela minha ilustre amiga Aninha, esse livro da Bell Hooks é uma maravilhosa porta de entrada para qualquer pessoa interessada em ler sobre o feminismo. Aborda a questão histórica e como ela mesma se envolveu na causa, além de apontar bastante os problemas de uma visão menos radical do movimento. Ela passa por muitas questões, destacando que a importância de não reduzir o feminismo a uma luta das mulheres brancas e elitizadas. É preciso enxergar a interseccionalidade. 

Usando linguagem simples e um texto super acessível, Bell Hooks trata de vários temas de forma bem didática, como a relação do feminismo com as questões raciais e com a luta de classes. Um dos assuntos tratados no livro que me chamou mais atenção foi a relação entre as crianças e o patriarcado, como a nossa sociedade é cruel com elas. Ao contrário do que dizem as más línguas por aí, o feminismo é sim sobre defender os direitos da infância. Um sistema de poder oprime o lado mais fraco... e no mundo em que vivemos, crianças sequer são lembradas como seres humanos em muitos casos. 

O título não é em vão. Convido a todos a experienciarem essa leitura - mulheres e homens. Afinal, Bell Hooks também aborda um pouco o lugar dos homens nessa causa. São pouco mais de 100 páginas, é rapidinho. Custa nada se informar, né?

QUADRO DA ARQUITETURA NO BRASIL

Outro livro de não ficção que li tanto por fins acadêmicos quanto por certo prazer. Eu gosto muito de estudar história, então, para mim, a desculpa de ler Quadro da Arquitetura no Brasil para uma disciplina do semestre suplementar da UFRN foi ótima. Na verdade, nesse semestre me matriculei nas matérias já pensando nos livros que eu queria ler. Ainda não dei conta de todos, mas vou com calma mesmo e vai dar certo. Esse é o caso também dos dois últimos da lista, mas disso falarei em breve.

Esse livro, de Nestor Goulart Reis Filhos, é um dos principais quando se trata de história da arquitetura brasileira. Como os outros da lista, tem linguagem simples e objetiva, o que considero fundamental em qualquer publicação. Começa dando uma visão geral entre o lote urbano e a arquitetura do período colonial até o modernismo brasileiro, depois se aprofunda em questões mais arquiteturais e finaliza com uma breve discussão super interessante sobre preservação do patrimônio histórico.

O que me chamou mais a atenção foi o quanto a estrutura social escravocrata que tivemos influenciou as construções no Brasil, mesmo após a abolição da escravidão. Apesar da prática ter sido oficialmente encerrada, o pensamento segregador influenciou a lógica da organização do espaço por muito tempo - e influencia até hoje, na verdade. A diferença é que antigamente os escravos dormiam no porão das casas, agora, os empregados dormem num quartinho pequeno, depois de tudo, bem ao lado da cozinha, por exemplo.

A MORENINHA

A Moreninha, assim como O Cortiço, são livros que li para uma disciplina envolvendo arquitetura e literatura que me matriculei no semestre suplementar. Era para ler só um trecho, mas eu só entrei na matéria para ter a desculpa de ler os livros, então li tudinho mesmo. Na disciplina também haviam dois outros títulos, mas esses eu li só o trecho indicado porque sou ser humano e não dou conta de tudo. Ainda teve outra disciplina envolvendo literatura que me matriculei, mas essa acabei saindo (e salvei os livros para ler depois).

Quatro amigos, estuantes de medicina, apostam que um deles, Augusto, irá se apaixonar de verdade por alguma moça a partir do fim de semana na ilha de ... (não, ele não revela o nome) durante a comemoração do aniversário da avó de Filipe. Confiante de que ia ganhar a aposta, Augusto não se interessa de cara pela Moreninha, mas aos poucos a garota vai ganhando seu coração... 

A Moreninha é considerado o primeiro romance romântico do Brasil. Não dá para negar, poia a cada página voltava na minha mente todas as aulas de literatura que tive no colégio. Todos os clichês do romantismo estão aqui: o amor, o indianismo, a idealização da mulher e a exaltação da natureza. Também está presente a escravidão, normal na época, o que me causou um pouco de repulsa, confesso. A linguagem é difícil, bem típica do século XIX, então na primeira página já pensei em desistir. Porém, passado o primeiro susto, a leitura flui e vale a pena. Gostei muito mais da história do que eu esperava!

O CORTIÇO

Por fim, para fechar esse primeiro semestre do ano, li O Cortiço, um clássico romance naturalista brasileiro. Digamos que eu tinha muitos spoilers sobre a história, claro, porque dificilmente se passa pelo ensino médio sem conhecer esse livro. Ainda sim, isso não atrapalhou minha experiencia. A narrativa eletrizante e muitas vezes barulhenta, eu diria, envolve o leitor independente do seu nível de conhecimento sobre os fatos. Não é fácil de digerir. A maioria das descrições me causava embrulho no estomago em certa medida. Em alguns momentos, morri de raiva dos personagens. Em outros, queria entrar na história para lhes oferecer um pouco de juízo e afago. No geral, é todo mundo propositalmente tão caricato que às vezes esquecia estar lendo algo de 1890 e pensava que o cortiço existia agora, em 2020, e eu estava dentro dele

Os principais enredos são o de João Romão, dono do cortiço, e do próprio cortiço, um organismo com vida própria que moldou e era moldado por seus moradores. Cada uma das figuras que habitavam no local era importante para o seu funcionamento. Entre brigas, traições e intrigas, os moradores se uniam sempre que necessário para manter sua unidade. Para João Romão, no entanto, isso pouco importava, contato que estivesse entrando dinheiro no caixa. Pouco a pouco, o lugar evoluía junto com seus integrantes, para o bem e para o mal, até culminar num final trágico para muitos e feliz para uma minoria.

Publicado por Ana Letícia Dantas

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