Mais sentimental que eu?

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Queria não ser tão sentimental. Não deixar a minha porta sempre entreaberta, ainda que seja apenas para uma visita breve na antessala. Queria não me iludir tão fácil que o sujeito ficará para o jantar - mesmo sem ter respondido ao convite mais cedo. Queria não abrir espaço tão rápido na cama para quem já estará ausente na alvorada. Queria não esperar do outro sempre mais que meia palavra enquanto o silêncio preenche o quarto vazio de nós dois.

Às vezes eu decido que ser desapegada. Assim, de repente. Tranco as portas e janelas do coração e anuncio na fachada: visitação limitada ao jardim e aos prazeres. Parece ser definitivo, mas tal aventura jamais durou mais que uma noite. Quando o sol se anuncia, já não posso esconder. O coração já sofre, já espera, já suspira. Sozinho. Autossuficiente, nunca precisou do sinal do outro para construir as próprias fantasias.

Assumo sem orgulho o fardo de ser romântica incorrigível. É a minha essência, sou feita de paixões. Quando o coração fala, eu respondo. Eu brado, sem medo, com toda a força dos pulmões. Corro, me entrego, mergulho destemida no limbo das incertezas. E ao fim do dia eu recolho, zelosa, os meus pedaços para remendar e começar tudo de novo.

Porque o mal de gostar demais é gostar sozinha. É sempre achar que visita é morada, até os curiosos que circulam pelas redondezas. Sei que não é certo, mas confesso, há muito perdi a chave do peito. E ainda que o feche com todos os cadeados, sinto que algum amor sempre acabará entrando pela janela. 

Postado por Ana Letícia Dantas

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