Leituras de 2020 (parte 2)

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Photo by Susan Yin on Unsplash

Assim como comentei os títulos que li no primeiro semestre de 2020, voltei para comentar as demais leituras. Não diria que são resenhas ou críticas elaboradas, mas comentários que eu faria a qualquer amigo numa conversa despretensiosa. Como dito no post anterior, tinha a pretensão de ler 2500 páginas este ano, porém mais que dupliquei a meta, chegando a 6500. Não é tanto quanto meu amigo Eduardo, com 32 livros na conta, mas ter lido 16 livros em 2020 é uma vitória pessoal, pois estava há tempos afastada das palavras, mesmo me sentindo tão confortável próxima a elas.

As histórias afinal me ajudaram bastante a sobreviver a esse ano maluco. Com a realidade quase distópica do Brasil de Bolsonaro na pandemia, é fundamental se perder em outros universos, outras possibilidades. Seja em séries, filmes, jogos ou livros, aposto que a maioria praticou o escapismo através da ficção nos últimos meses. Nos momentos mais solitários, sem a presença dos meus amigos de carne e osso, foram personagens como Daenerys, Sandman e Nora Grey que me fizeram companhia. 

ARQUITETURA EM DIÁLOGO

Assim que fui aprovada no curso de Arquitetura e Urbanismo, no início de 2018, eu me perguntei quando meu primo George, que é professor do departamento, me daria aulas. Por ironia do destino, naquele semestre ele foi designado para uma das disciplinas iniciais, então tive a oportunidade de ser sua aluna logo no começo. Ganhei de presente esse livro. George sempre foi alguém que incentivou meu hábito de leitura, muito mais que qualquer outro familiar. Ele me deu meus primeiros exemplares de Harry Potter e costumava me chamar de Emília na infância. Era de se esperar que sua recepção também fosse literária.

Não entendi nada na primeira leitura e deixei de lado. O livro ficou na minha estante de 2018 até agora, na pandemia, quando eu decidi ser suficientemente madura para ler. Não é nada complicado - trata-se de um compilado de entrevistas com grandes arquitetos do final do século XX sobre sua forma de trabalhar -, mas para uma caloura verde era difícil de absorver. Algumas entrevistas são super interessantes, como a do escritório Herzog e De Meuron, realizada muitos anos antes da construção da Arena do Morro, um projeto deles para a minha cidade, Natal. Outras são simplesmente insuportáveis. De modo geral, me agradou muito a experiência de leitura que a edição da Ubu proporciona, conhecer a carreira e o pensamento de arquitetos com legados tão importantes e descobrir a história por trás de algumas obras famosas.

Me entristece, no entanto, a maioria esmagadora de nomes masculinos. Há apenas uma mulher entrevistada no livro. Há quem associe, nos dias de hoje, arquitetura a mulheres e lgbts no geral. Porém essa profissão é historicamente um domínio do homem cis hétero branco. Ainda hoje, mesmo com o estereótipo na faculdade, os grandes profissionais são homens. E isso tudo não é fruto de uma mera coincidência, como sabemos. É projeto de sociedade. 

ENTENDER A ARQUITETURA

Certo dia, o site da editora GG Brasil entrou em promoção e eu não pude evitar entregar um bocado do meu dinheiro para eles. Uma das minhas aquisições foi o Entender a Arquitetura, um livro com o qual eu flertava desde que entrei no curso. De fato, teria sido melhor aproveitado nos meus períodos iniciais. Não me arrependo da compra, mas sinto que essa é uma leitura muito mais introdutória e rasa do que eu preciso a essa altura. Na primeira parte, há discussões super interessantes sobre o que é Arquitetura, a tríade vitruviana, qual o papel do arquiteto e outras questões pertinentes. Muito do conteúdo eu já vi na faculdade, porém, considerei uma síntese interessante desses conhecimentos. A segunda parte do livro trata sobre a História da Arquitetura de maneira bem generalizada. Novamente, eu já sabia muito do que foi dito, mas li com prazer por ser um tema que muito me interessa. No fim das contas, aproveitei a leitura, no entanto, temo que ela não tenha sido tãaao significativa assim. 

SUSSURRO

Eu me lembrava de ter sido fissurada por esse romance na adolescência, sem recordar ao certo o porquê. Em 2020, passando por um sofrido período de corações partidos, decidi que tudo o que  eu precisava era de uma boa história de amor para esquecer os dramas da vida real. Logo nas primeiras páginas eu ri da minha escolha, porque o livro é por vezes bem juvenil e contém certos absurdos, mas a narrativa sedutora e eletrizante de Becca Fitzpatrick me impulsionou a seguir adiante. O relacionamento entre os protagonistas se desenvolve de forma pouco provável, algumas questões narrativas me incomodam bastante (como o fato de tudo parecer conveniente demais) e há alguns pensamentos questionáveis (porém típicos dos anos 2000). No entanto, todos esses aspectos se tornavam cada vez menos relevantes no decorrer dos capítulos e eu devorei as 260 páginas em pouco mais de 24h.

Trata-se da história de uma humana apaixonada por um anjo caído BASTANTE bizarro, porém, com descrições capazes de aguçar a mente de qualquer um (moreno, forte, bonito, etc). Nora e Patch se conhecem durante uma aula de biologia, de uma forma bem pouco amigável, e criam de imediato uma tensão que beira paixão e inimizade. Ele exala perigo, mas ela é uma garota corajosa. Quase o plot de Crepúsculo, não é? E as semelhanças não morrem por aí, mas não vou me aprofundar nessa discussão. Ainda assim, Sussurro consegue ser uma história bem original, especialmente nos livros seguintes da série. Nora é a típica garota tímida e estudiosa que aparentemente sempre chama atenção caras sobrenaturais na ficção, mas há um motivo bem específico na sua ancestralidade para que Patch cruze seu caminho. Por isso, seu protagonismo excede as barreiras do romance, o que torna tudo mais interessante.

Não é um livro de grande qualidade, mas é um dos meus favoritos. Como eu disse, tenho um fraco por romances juvenis. De fato, a Ana de 13 anos e de 21 não são tão diferentes assim.

PINTURA A PASTEL NA PRÁTICA

Responsável por um dos meus milhões de surtos artísticos de consumismo - sou ótima em comprar material de desenho e pintura por impulso. Ganhei o livro em um sorteio em 2019 (curiosamente, ganhei muitos sorteios nesse ano) e não sabia bem o que fazer com ele, porque já tinha experimentado pastel seco e desgostado. Considerei pôr à venda, mas dei uma chance à leitura, pesquisei algumas referencias no Pinterest e acabei me interessando pelo pastel oleoso. É uma técnica simples, despretensiosa, exige bem menos capricho que pintar aquarela. Achei uma boa opção para os desenhos de rua que gosto de fazer. O livro é bem legal, oferece conhecimento sobre técnicas e a história do material, além de ideias inspiradoras sobre momentos e lugares para pintar. Todas as páginas são ilustradas e diagramadas de uma forma muito espontânea, dá vontade de pegar o pastel e começar a rabiscar imediatamente, com o capricho típico da GG Brasil. Creio que não teria comprado o livro por iniciativa própria, mas adorei recebê-lo. Espero que meu surto consumista não tenha sido em vão e eu realmente explore mais essa técnica, especialmente quando voltar a sair de casa com mais frequência.

Obs: Para quem não entende, diria que pastel seco e pastel oleoso são os irmãos mais velhos e mais sérios do giz de quadro e do giz de cera. Comprei a caixa com 50 cores na Amazon por uns 40 reais, se não me falha a memória.

SOL DA MEIA NOITE

Leitura obrigatória para todos os fãs da saga, Sol da Meia noite nos ajuda a entender muitas questões sobre Crepúsculo como um todo. Esse passeio pela mente caótica de Edward Cullen explica como seus poderes de telepatia funcionam, quais são as histórias por trás dos membros da sua família e o que ele sentia ao estar próximo à Bella. Não que o romance deles seja menos absurdo, mas se torna ainda mais interessante, especialmente porque a Bella é uma personagem realmente cativante. Eu sofri tanto quanto da primeira vez acompanhando o início tumultuado desse relacionamento, a dor do Edward sobre a possibilidade de machucar sua amada e sua incapacidade de ficar longe dela. Também achei incrível acompanhar os acontecimentos do primeiro livro sob outra perspectiva, porque nunca explicaram exatamente para a Bella como as mentiras contadas pelos Cullen para salvá-la foram acobertadas. Algumas outras descobertas são bem interessantes: Edward é muito ciumento, mas simpatizou com o Jacob a princípio; Bella não foi a primeira a investir no Edward; e o vampiro acabou interferindo propositalmente no destino de outro casal na escola. Ah, nada disso é spoiler né?

Mais um livro de romance adolescente com narrativa questionário. Ah, eu amo demais. 

SANDMAN I e II

Eu não sei nem como começar a falar sobre Sandman e temo não conseguir explicar direito tudo o que sinto sobre essa história. Minha iniciativa de ler nasceu quando descobri que Lúcifer, da série da Netflix, é um personagem inspirado nos quadrinhos de Sandman. Depois, folheei a edição definitiva na casa de um amigo e me senti atraída pela narrativa. Nunca fui de ler histórias em quadrinho, por isso me senti insegura para começar. Mas em algum momento da quarentena outro amigo me ofereceu emprestado os dois primeiros volumes definitivos (são ao todo quatro livros que reúnem os quadrinhos originalmente publicados nos anos 1990) e eu topei a aventura.

Sandman é genial. Não é o primeiro trabalho que leio do Neil Gaiman, mas sem dúvidas o melhor. Sandman, ou Senhor dos Sonhos, é muito mais que um deus, está muito acima dos humanos; é poderoso, sábio e ciente de seus deveres. Sua fraqueza está no seu ego - como é de se esperar de qualquer homem. Além de Morfeu, conhecemos seus irmãos, os perpétuos, tão poderosos quanto ele, e por vários arcos acompanhamos as histórias destes e de muitos outros personagens se entrelaçarem no Sonhar. Nenhuma delas é propriamente feliz, ainda que alguns finais nos iludam. Várias crenças e religiões se sobrepõem num universo que pode ser um só, repleto de magia, porém sem nenhuma sombra de otimismo. Trata do etéreo, do sublime, assim como trata de violência, depravação, opressão e preconceito. É, sobretudo, a história de um mundo de homens cretinos - o nosso.

A GUERRA DOS TRONOS

Foi muito difícil terminar esse livro. Ah, como eu me arrastei. Não que a história seja ruim, não que Martin não seja um escritor maravilhoso. Mas é uma leitura pesada, com acontecimento trágicos o tempo inteiro e eu já assisti a série toda. Alguns personagens são excessivamente imaturos a essa altura e eu não conseguia parar de pensar no que ia acontecer. Além disso, eu li muuuitos livros longos esse ano, até demais. Em determinado ponto, não aguentava mais estar lendo a mesma história, ainda que seja uma história realmente muito boa. O que me movia, na verdade, era a expectativa por mais capítulos da Daenerys, sem dúvidas as partes mais interessantes. Os da Sansa são os piores, especialmente para quem já é fã, pois nos primeiros livros ela é muito inocente e arrogante, duas péssimas características dentro das disputas pelo trono de ferro.

Cada capítulo é narrado sob a perspectiva de um personagem, completando uma peça dessa trama complexa. São muito detalhes e Martin não deixa nada fora do lugar, como se a mais pura verdade estivesse simplesmente gravada naquelas páginas. Todas as descrições são muito minuciosas, os personagens são muito reais e nada parece acontecer para convergir num final feliz. Quem conhece a Guerra dos Tronos sabe que não há finais felizes mesmo. Terminei, enfim, o primeiro livro. A Fúria dos Reis me espera na estante, mas não sei dizer quando terei a audácia de enfrentá-lo. Se bem me lembro, a sequencia de acontecimentos trágicos só aumenta nos livros seguintes. Talvez não seja a melhor escolha para esse momento.


Postado por Ana Letícia Dantas

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