Crônica: A década só começa em 2021

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Eu sabia que 2020 não era o início da nova década, mas ignorei deliberadamente porque números fechados são muito mais bonitos. O universo cobrou o preço por essa manobra - a maior parte do ano existiu em um limbo de desespero há muito tempo não testemunhado pela humanidade nessas proporções, em escala global. Agora, sinto-me feliz em admitir que 2021 é o início de uma nova era. E feliz principalmente com a ilusão de que o mero trocar de números no calendário significa alguma mudança palpável. Ainda que no Brasil de Bolsonaro, ainda que na Natal de Álvaro Dias, 2021 guarda, para mim, a esperança de dias melhores - ainda que o agora se apresente em dias tão sombrios.

Tudo tem mudado muito.

Iniciar a nova década me trouxe uma série de reflexões e lembranças da última vez que passei por esse ritual. Em 2011, eu estava no ensino fundamental e começava a me entender como gente (eu tinha 12 anos na época). Eu gostava de ler livros de fantasia, assistir séries da Nickelodeon de madrugada e ouvia incessantemente Paramore e Lady Gaga nas minhas muitas horas vagas. Em 2021 eu não mudei tanto assim - porém agora vejo séries da Netflix e viciei em Chromatica. Mais do que a mudança de dez anos para cá, eu reflito sobre a mudança de um ano atrás para o agora. Às vésperas do meu aniversário, que é em fevereiro, eu vivia todos os prazeres e ilusões que uma garota de vinte anos pode desfrutar, sem qualquer pista do caos que se instalaria nos meses seguintes. Um mês atrás, eu vivia mais uma segunda-feira desanimada, encarando mais uma semana que se iniciava e terminaria exatamente como várias outras anteriores.

Uma semana atrás eu pintei o cabelo pela primeira vez. O avermelhado nos meus fios ainda me surpreende toda vez que me olho no espelho - eu ainda me sinto uma outra personagem habitando o corpo presente. Nos últimos dias, tomei café sem fazer careta e sem que ninguém me oferecesse. O sono que eu sinto pela manhã enfim venceu minha aversão pelo amargo e eu até considerei que um dia posso apreciar o gosto. Hoje eu li um poema e, inesperadamente, gostei. Talvez minha intriga de tantos anos com os versos e as rimas estejam chegando ao fim. Talvez eu me torne o tipo de pessoa que gosta de ler poesia.

Tudo tem mudado pouco.

Uma nova década se inicia e talvez isso não signifique nada. Em uma época de pandemia, em um país abandonado por todos os deuses, tudo tende à monotonia (de um cotidiano indubitavelmente cruel). Todos os dias são iguais e tudo muda tão rápido que mal posso acompanhar. Todos os dias são domingos ou segundas, mas toda semana parece diferente. A essa altura eu sei que é impossível prever o futuro. Talvez a nova década signifique mesmo dias melhores. Em uma época de pandemia há pouco espaço para esperança, no entanto, ela segue brotando das minhas rachaduras. 

Publicado por Ana Letícia Dantas

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