Crônica: Eu não sou discreta

14:13



Desde que descobri o podcast Calcinha Larga, da Camila Frender, Helen Ramos e Tati Bernardi, escuto os novos episódios religiosamente toda semana (até quando não gosto muito do convidado, só porque vale a pena). Ouvindo o programa hoje, com a Dandara Pagu (criadora do maravilhoso bloco Vacas Profanas no carnaval de Olinda, adorei saber), escutei ela falar sobre um acontecimento que a fez repensar se não estava se expondo demais na internet - reflexão que a própria Tati, que escreve tanto sobre si, já levantou várias vezes no podcast. O que mexeu comigo dessa vez foi a conclusão da Dandara sobre isso: ela não é uma pessoa reservada, ela não cresceu num ambiente discreto e essa romantização do ser "misterioso" às vezes é só uma ferramenta de controle das elites.

É claro que não existe problema algum em ser uma pessoa discreta, se você gosta. É incrível - se essa for sua essência. O que questiono é como a gente que é expansiva, fala demais sobre si (seja nas redes, seja fora dela) se sente mal por ser quem é, porque existe uma espécie de ideia fixada na sociedade de que ser reservado é chique. Ser reservado é sinal de que você tem status, elegância. Não vive como a Dandara viveu, em uma cara com inúmeros familiares amontoados e paredes finas o bastante para estragar qualquer segredo. 

No meu núcleo familiar a gente nunca escondeu nada. Tudo o que acontece com meus pais, eles compartilham entre si e comigo (eu é que sou mais reservada com eles, por certo conservadorismo e alguns tabus). Nunca fomos nem de longe as pessoas com melhor situação financeira na família e nunca tentamos parecer nada que não fosse o real. Em contraste, com certos parentes é difícil manter essa mesma transparência, pois sempre se pede silencio - até entre eu-papai-mamãe, pedido obviamente ignorando. Não por coincidência, corresponde uma parte da minha família que vive de aparências e relações frágeis revestidas de simulações. Pessoas que se importam demasiadamente em estar bem na fita, em parecer elegante e veem graça demais em tudo aquilo que é material.

Veja bem, é bom guardar segredo. É super importante guardar para si algumas informações. E, novamente, é ótimo ser reservado se sua personalidade for assim. Mas eu estou cansada de me sentir culpada por não ser a mulher meiga, quieta, elegante e discreta que aprendi a admirar. Pelo contrário - eu sou aquela que fala abertamente sobre (quase) tudo, fala muito e fala alto (alô Juliette!). Eu tenho twitter, eu tenho instagram, eu tenho blog, eu tenho podcast. Falar o que sinto - em especial, escrever sobre o que sinto - é catártico para mim, como se tudo que está aqui dentro precisasse escapulir. Não há razões para ser o oposto do que meu coração deseja. Por isso aqui eu assino formalmente o compromisso de parar de me cobrar para ser assim e enfim me admirar pelo que sou de fato. 

Postado por Ana Letícia Dantas

Posts relacionados

0 comentários