Serial Killers, quadrinhos e poesia: leituras de janeiro [2021]

19:00



Uma das poucas vantagens da quarentena, apesar das inúmeras desvantagens e sem considerar a pandemia devastadora que nos assola, foi a minha maior disponibilidade e interesse para retomar o hábito da leitura. Quem acompanhou o blog no ano passado sabe que escrevi dois posts, um para cada semestre, para comentar orgulhosa toda a literatura que eu havia consumido em 2020. Gostei tanto de escrever essas resenhas que decidi manter o projeto para 2021, dessa vez com comentários mensais, na esperança de continuar esse ritmo e de compartilhar com máximo de pessoas possíveis tudo aquilo que tenha aquecido meu coração nesses tempos sombrios. 

Nas primeiras semanas do ano, eu li dois livros de poesia, duas histórias em quadrinhos e um publicação meio biográfica - escolhas totalmente inusitadas para mim. Em primeiro lugar, preciso agradecer ao meu amigo Guilherme Portela por ser quase o meu serviço literário pessoal (ele não apenas me indicou, como também emprestou cinco livros em janeiro) e, em segundo lugar, quero deixar uma nota de repúdio a UFRN que não me deixa mais tempo livre para desfrutar leituras despretensiosas (desde o dia 18/01 eu só leio artigos acadêmicos e slide de aula). Dito isso, eu li bastante em janeiro, mas não tanto quanto eu gostaria. Os volumes do mês foram:

Lady Killers - Tori Telfer
Comprei esse livro numa promoção da Amazon ano passado, motivada por algumas semanas ouvindo o podcast Modus Operandi quase todos os dias e por um surto de consumismo na quarentena. Assim como toda edição da editora DarkSide Books, Lady Killers não apenas é um ótimo trabalho literário, também tem um design encantador. As ilustrações sutis dos atos cruéis das mulheres apresentadas nesse livro e o rosa choque suspeito na capa criam a atmosfera certa para a leitura. A autora Tori Telfer discute um pouco a visão social sobre as mulheres serial killers a partir da história de 14 criminosas bastante conhecidas, mas não tanto quanto seus contemporâneos homens. O tema é tratado com leveza, porém com muita seriedade; as escolhidas viveram em épocas muito distantes a nossa para tornar o assunto mais fácil de digerir. 

Por que não se fala tanto sobre assassinas? Quais os perigos de relativizar os seus crimes? Afinal, é normal se interessar pelo assunto? Depois de ler Lady Killers, além de ter respostas razoáveis para essas perguntas, você vai perceber o quanto certos estereótipos referentes ao feminino colaboraram para que muitas dessas damas passassem despercebidas pelas autoridades. É o patriarcado não apenas atrapalhando a vida das mulheres comuns, como também ajudando nos crimes daquelas que são diabólicas. São histórias chocantes e tristes sobre pessoas verdadeiramente cruéis, no entanto, pode ser um bom entretenimento para quem curte entrar na mente humana, até mesmo as mais perversas, e para repensar certos valores da nossa sociedade.

Dormia de Bruços para Segurar o Coração - Ana Luísa Dantas (natalense)
Zine lindo e extremamente sensível publicado digitalmente pela minha amiga pessoal (aprendi num podcast que falar assim é bem chique) Ana Luísa Dantas. Eu já acompanhava os poemas de Aninha pelas redes sociais, primeiro porque ela é uma amiga muito querida, segundo porque ela é uma mulher muito talentosa. Quem me conhece sabe que não sou chegada a poesia, mas lendo Aninha e outras poetisas potiguares eu até penso em dar o braço a torcer. São versos sobre o cotidiano, banalidades, paixões, dores e angústias, sobre o peso e a leveza de existir. Graças a sua sensibilidade, Aninha não subestima nem exagera a realidade: narra a essência poética da vida do jeitinho que ela é. Os poemas, o título e até a arte de capa são maravilhosos (autoria da artista natalense Luiza Fonseca). Quem quiser ler, pode adquirir pela Amazon e usar o aplicativo em qualquer aparelho. É bem baratinho, deem essa força para a minha amiga linda <3

Vermelho Fogo - Regina Azevedo (natalense)
Conheci a poesia de Regina Azevedo alguns anos atrás em um evento na Rua Chile (gatilho de saudade, inclusive) e achei graça de um poema sobre Catuaba. Recentemente, descobri que ela havia lançado seu novo livro e resolvi adquirir junto com Portela (o mesmo que vive me emprestando hehe) sem saber ao certo o que esperar, só porque a capa é linda (por Carol Macedo) e porque gosto de apoiar produções potiguares (dentro do possível). Assim como o zine de Aninha, Vermelho Fogo é sensível a questões presentes na vida de todos nós, tornando muito fácil de se identificar. Não posso dizer que foi uma surpresa ou não esperava gostar tanto, porque eu já sabia que Regina era ótima, mas devo dizer que superou minhas expectativas. Gostei demais! Li em voz alta saboreando cada palavra e realmente deixei os versos queimarem na minha língua. Meus favoritos falavam sobre paixão.

Fun Home - Alison Bechdel
Indicação e empréstimo do meu amigo, mas também ouvi a Helen Ramos indicando no podcast Calcinha Larga semana retrasada. É uma história em quadrinhos autobiográfica sobre a relação da autora, lésbica assumida, com seu falecido pai, gay jamais anunciado. As ilustrações, os diálogos e até a construção cronológica da narrativa criam uma atmosfera mais leve ao abordar tantas memórias pesadas. Bechdel compartilha em tom bom humorado as suas relações familiares disfuncionais, o temperamento difícil do seu pai, como eles se aproximaram através da literatura, seu processo de autodescoberta sexual e seu contato com a teoria feminista. É bonito e melancólico observar como essa série de experiências conturbadas formaram a artista incrível que Alison Bechdel se tornou. 
 
Além de Fun Home, publicado em 2006, nos anos 1980 ela já escrevia tirinhas sobre sua vivencia lésbica e se tornou famosa por isso. Em uma dessas tirinhas, faz uma brincadeira sobre a presença feminina em filmes (se há mulheres, se elas falam e se tópico do diálogo é algo não relacionado a homens) que ficou conhecida como o Teste de Bechdel, usado até hoje para medir a influencia do machismo em obras cinematográficas. Em 2012 lançou Are You My Mother, outro drama cômico em quadrinhos, dessa vez sobre sua mãe, o qual certamente está na minha lista de leituras desejadas assim que chegar ao Brasil.

Aquele Verão - Dandara Palankof, Jillian Tamaki e Mariko Tamaki
História em quadrinhos fofinha e sensível sobre família, amadurecimento e amizade. Narra o verão de duas garotas pré-adolescentes e suas percepções acerca dos problemas dos adultos ao redor. Não se propõe a ser heroico; as protagonistas são bastante humanas, com raciocínios compatíveis para suas idades, e, apesar de curto, não é superficial. Aborda temas bastante reais e um tanto pesados, mas sob o filtro da inocência e a curiosidade do final da infância. Foi bem gostoso de ler e eu acabei bem rápido, é um bom entretenimento para uma tarde de domingo preguiçosa.   

Além das leituras, também assisti Os Bridgertons na Netflix e passei duas semanas pensando no sorriso do duque. Ouvi muito podcast, é claro rs Conheci o Hoje Tem, da Leila Germano, (há um episódio sensacional sobre ética na fofoca, obrigatório para quem é zé povinho que nem eu) e o Tias do Pavê (que é uma bagunça e não tem atualização desde outubro, mas me ganhou pela energia caótica). Gostaria de ter lido mais, visto mais filmes, consumido mais cultura no geral, porém, depois de passar o dia inteiro trabalhando e estudando, tudo o que eu desejo é desligar meu cérebro até para o entretenimento. Não sei como vai ficar minha saúde física e mental nos próximos meses, mas eu espero que a escrita siga funcionando como processo de cura para mim, pois não está fácil. Espero também que pelo menos uma pessoinha tenha lido até o final (eu falo/escrevo demais, assumo) e acolha alguma das minhas recomendações. Caso já tenha lido ou se interesse por algum desses títulos, me chama que a gente conversa <3 

Publicado por Ana Letícia Dantas

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