Torto Arado é um dos melhores livros que já li: leituras de março [2021]

15:54

Unsplash

Achei fevereiro um mês difícil, mas, para minha infeliz surpresa, março conseguiu ser ainda mais complicado. As poucas certezas que eu pensava ter em janeiro desbotaram, e o mundo ao redor se tornou significativamente mais sombrio com o aumento alarmante de mortes diárias no Brasil. Não foi um período fácil, nem no âmbito pessoal, nem no contexto externo. Novamente, a literatura foi minha aliada para suportar tempos tão sombrios, ainda que as histórias que li não sejam nenhum conto de fadas. Aqui estão minhas impressões sobre elas (sem spoiler hehe) atreladas a alguns links que julguei interessantes:

Torto Arado - Itamar Vieira Junior
No meu aniversário, ganhei um exemplar com uma enorme dedicatória de presente do meu melhor amigo. Apesar de na época ficar insegura de acrescentar mais um volume a minha (já extensa) lista de leitura, ele me disse ter certeza de que eu iria adorar. Como não gostar daquele que vem sendo considerado um novo clássico da literatura brasileira? Torto Arado é mais do que a história de duas irmãs, é a história de toda uma comunidade e dos seus ancestrais. Bibiana e Belonisia são ligadas, além do sangue, por uma tragédia compartilhada na infância, a qual as forçou a desenvolverem uma cumplicidade única para sobreviver. Ambas crescem e desenvolvem sua individualidade, tornando-se mulheres fortes e singulares, tomando caminhos distintos, mas sem perder o afeto que as une. Nascidas em um povoado de gente trabalhadora sem direito à terra que cultivam, as irmãs e outros personagens vão aprender as origens dessa dinâmica e questionar esse modelo de existência numa jornada de sangue, luta e muita coragem.

Torto Arado é uma aula sobre desigualdade social, reforma agrária e cultura afro-brasileira. A narração é envolvente, num ritmo agradável, com personagens bem desenvolvidos e uma história tão bonita quanto dolorosa. Escrito por um pesquisador e escritor renomado, Itamar Vieria Junior, o livro não cai em lugares comuns nem parece simplesmente conveniente em nenhum momento. As personagens femininas não guardam os clichês que a gente se acostuma a ler em obras de autoria masculina, pelo contrário: o autor é sensível e exprime verdade até em momentos em que a violência contra a mulher é mais particular. Talvez os mais críticos e estudiosos tenham suas considerações críticas sobre a leitura, mas eu como leiga não enxergo NADA de ruim nessa obra, é incrível do início ao fim. Um dos livros mais especiais, importantes e verdadeiros que já li. Obrigada, Andrey, por "entrar na livraria, perguntar pelo livro, encontrá-lo, vê-lo, assustar com o preço, decidir que o levaria, pagar, embrulhar" com carinho, como você mesmo escreveu.

Sandman 3 - Neil Gaiman
Eu não sei explicar por que Sandman é um dos meus personagens favoritos da vida se ele é também um dos maiores babacas da literatura. É algo sobre o romantismo e seriedade com o dever, ou o mistério e o respeito que ele impõe. Mas apesar de amá-lo não posso dizer que é o meu Perpétuo favorito. No terceiro volume definitivo, não há tanto a presença da maravilhosa Morte, porém, Delírio aparece com mais frequência e Destruição é devidamente apresentado. De espirito juvenil e coração inocente, a mais nova dos Perpétuos costuma ser subjugada pelos irmãos, mas guarda uma força e sabedoria que nem mesmo Destino possui. Não por acaso, a personificação da inconstância tem uma ligação especial com seu irmão, Destruição, e não se conforma com seu afastamento, insistindo para que Morfeu a ajude a procurá-lo. 

Neil Gaiman nunca decepciona na qualidade da história, e todos os ilustradores responsáveis por essa obra são fenomenais. Eu me demoro em cada quadro e me delicio com a experiência dos diálogos e dos desenhos. No entanto, como era de se esperar de algo escrito nos anos 1990, há alguns deslizes e passagens sexistas tanto nesse volume quanto nos anteriores, apesar de esse explorar muito menos violência explícita contra a mulher do que o 1 e o 2. As histórias no final são um pouco cansativas também, mas ainda valem a pena a leitura. Destaco especialmente "Ramadã", cujas ilustrações são estonteantes, e "Um Conto de Duas Cidades", a qual tem um estilo de desenho bem diferente das demais histórias e me encanta, obviamente, por trazer a urbe como um personagem.

Agradecimento especial novamente ao meu amigo Guilherme por me emprestar um bocado de graphic novels e não ficar bravo quando demoro a devolver. 

Publicado por Ana Letícia Dantas

Posts relacionados

0 comentários