Pedal na Serra do Cuité & outras aventuras

16:19

casa abandonada na estrada

Como eu sou uma daquelas blogueiras raiz presas em 2009 que ainda escrevem posts como se fosse um diário, vim compartilhar um pouquinho da minha vida por aqui (algo que, para falar a verdade, já não faço há um tempo) no meu relato de: como foi passar uns dias fora de casa pela primeira vez na pandemia. Tenho estado presa em um apartamento de 60 m² faz mais de um ano. Eu saio para locais abertos, saio para trabalhar, vou ao supermercado, mas não posso, por exemplo, passar um fim de semana na casa de uma amiga para espairecer em outro ambiente. A faculdade é aqui, o lazer é aqui, às vezes o trabalho também é aqui. Isso sem nem uma varandinha, nenhum quintal para respirar no fim de tarde.

Com isso, meus pais decidiram conversar com minha tia, que ainda mora na cidade onde mainha nasceu (Jaçanã-RN) para passar alguns dias na casa dela agora que eles três tomaram a primeira dose da Oxford. Vários familiares ficaram chocados com a decisão "Tânia saindo de casa? Zélia aceitando visita?", masss nós quatro temos nos cuidado e ainda usamos máscara durante todo o tempo em que estivemos juntos. Claro que é um risco, especialmente sem as duas doses da vacina, porém decidimos enfrentar da forma mais consciente possível.

Foi assim que fiquei cinco dias na serra, vivendo em uma casa ao invés do meu apartamento, suportando um frio tenebroso de 23°c (frio demais para mim, como boa natalense), fazendo umas dez refeições por dia com a mesa farta e gastando um bom tempo deitada na rede sem me preocupar com mais nada.

A parte mais divertida da minha pequena viagem, no entanto, foram os três passeios de bicicleta que fizemos pela Serra do Cuité, uma ramificação do Planalto da Borborema onde ficam as cidades de Jaçanã-RN, Coronel Ezequiel-RN, Nova Floresta-PB e Cuité-PB. Eu e meus pais, guiados pela minha tia Zélia, percorremos ao todo cerca de 55 km pelos caminhos dos sítios da região, curtindo o clima, o silencio e a paisagem belíssima. No primeiro dia, pedalamos até uma pequena capela na extremidade norte da serra, a qual conseguimos avistar de longe quando passamos de carro pela rodovia lá embaixo. Nesse percurso, gravei vários vídeos e tirei fotos porque estava chuvoso, a vegetação estava verdinha e nós ainda ganhamos um arco-íris de presente no final. Também avistamos várias construções abandonadas pelo caminho que, dominadas pela natureza, criavam uma atmosfera de mistério na estrada; e apreciamos o sol se pondo no horizonte enquanto voltávamos para casa sob um céu multicolorido.

Nos outros dois dias não fiz muitos registros porque me concentrei em pedalar, mas me diverti tanto quanto no primeiro. Fizemos um pedal para Cuité, cruzando a fronteira a com Paraíba, e passamos por vários povoados distantes do centro urbano. Depois, fomos até a outra extremidade da serra, de onde podíamos avistar várias cidades da região como Santa Cruz e São Bento. É curioso para mim, que cresci na "cidade grande" observar as construções e a vida das pessoas que moram nesses locais mais afastados. Eu olho pela janela do meu quarto e vejo um bocado de prédios, luzes e os carros passando ligeiros na avenida. Para quem mora na zona rural, a vista é a plantação vasta, os animais pastando e uma ou outra moto usando a estrada de barro. Sim, é besteira de menina da capital essa minha divagação, mas não posso dizer que não existe. 

Também visitamos a Eco Trilha Sandra Virgínia, um circuito de bicicleta que outro tio meu construiu no terreno dele. É um percurso pequeno, entre árvores e pequenos obstáculos, mas cansa bastante :p além da aventura, ele colocou uma série de espaços para interagir pelo caminho, como um pódio, uma "poço dos desejos" e algumas homenagens aos meus avós (já falecidos).

Não vou mentir dizendo que voltei para Natal revigorada e pronta para mais um ano enjaulada. Continuo ansiosa, inquieta e morrendo de medo de morrer rs. Passar alguns dias no frio, com a minha família e os pets da casa me fizeram algum bem, de fato. Mas para eu ficar BEM mesmo só quando 80% da população brasileira estiver vacinada e a gente tiver trocado de presidente. Até lá, essas fugas da realidade não passam de medidas paliativas.

Esqueci de mencionar no começo, mas minha família tem uma ligação muito especial com Jaçanã. Meu bisavô, João Fortunato de Medeiros, foi um dos primeiros a ocupar a região (ele saiu de Acari-RN para a Serra do Cuité em busca de água durante a seca de 1915), que só se tornou cidade nos anos 1960. Quando um dos meus tios, irmão de mamãe, fez sessenta anos, ele inaugurou um memorial contando a nossa história e a história da cidade. Hoje muito moradores nem devem se ligar muito nisso, mas alguns dos meus parentes ainda dão nome a ruas e instituições públicas, como a minha bisavó, Ana Clementina da Conceição, que nomeia uma escola municipal.

Postado por Ana Letícia Dantas


Fotos completamente fora de ordem e tá tudo bem.

winner

entrada da eco trilha

capela


cruzeiro em frente à capela

homenagem ao meu avô na ecotrilha

ecotrilha

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2 comentários

  1. adorei ler a sua historia. Também sofro do mau urbano e em vários momentos lendo o seu relato fiquei aqui imaginando o vento no rosto e sensação de liberdade.

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