Quadrinhos e terror: leituras de abril/maio [2021]

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Inicio de mês é tempo de ( ) receber o pagamento e pagar as faturas ( ) pensar "caramba já estamos na metade do ano?" ( ) resenha dos livros do mês (X) todas as alternativas anteriores. Como não fiz em abril, juntei maio e abril numa coletânea um pouco extensa de livros e links legais que descobri nas últimas semanas. O fato de eu ter tido férias da UFRN ajudou bastante também no meu recente ritmo acelerado de leitura, porém o semestre recomeça em junho e tudo muda outra vez </3 No entanto, como estou gostando muito de tocar esse projeto, é provável que tenha resenha mês que vem sim, nem que seja dos artigos que leio na faculdade (além de que sempre dá um bom número de visualizações, então suponho que outras pessoas estejam curtindo também). Sem mais conversinha, vamos lá:

Box Terríveis Mestres

Alguma promoção da Amazon ano passado me fez adquirir o box Terríveis Mestres e o livro Lady Killers, meio que inaugurando minha carreira como leitura de histórias macabras. Devo dizer que morro de medo de filme de terror, mas livros são muito mais legais. O box é dividido em Histórias favoritas (contos e novelas de H.P. Lovecraft), histórias primordiais (contos e poemas de Edgar Allan Poe) e histórias de horror (Arthur Conan Doyle), além de ter um pôster lindo e um livreto comentando a obra de cada um desses autores. Achei uma escolha excelente porque pude entrar em contato com tres autores do mesmo nicho de uma só vez, já com uma certa curadoria. Minha análise de cada um foi a seguinte: 

Histórias Favoritas - H. P. Lovecraft

Eu não sabia que Lovecraft era racista até ler as histórias dele, sério. Eu já tinha ouvido falar no autor, mas não conhecia essa fama, que logo veio a tona para mim nas primeiras pesquisas a respeito e nas primeiras leituras. Eu sei que o cara viveu no início do século passado, porém as obras dele são lidas até hoje então é necessário lançar um olhar crítico. Tirando isso, era um ótimo escritor e foi genial por ter criado um universo nefasto que ambienta basicamente todas as suas histórias.

O volume de Lovecraft é o mais extenso, contém 400 páginas com quatro contos e duas novelas. Os contos são ótimos, as novelas são enfadonhas, principalmente Nas montanhas da loucura, embora seja importante para entender todo o universo. Gostei especialmente de A cor que caiu do céu e A sombra de Innsmouth. No geral, achei as histórias pouco óbvias, misturando suspense, descrições precisas, terrores primordiais, extraterrestres e os os demônios criados na sua própria mitologia. Em questão de qualidade narrativa, foi o volume da série que eu mais gostei também, pois ele segue um ritmo que se mantém envolvente no decorrer da história, mas sem soar apelativo. Outro aspecto que admirei tanto em Lovecraft quanto em Doyle foram os detalhes "técnicos" inseridos nas narrativas, como no já citado Nas montanhas da loucura, no qual há muitas informações sobre geologia.

Apesar disso, como falei, é preciso ler criticamente. Por exemplo, há citações à prática de vodu como algo ruim, assim como em outras obras famosas do entretenimento. Mas é sempre bom lembrar que essa é uma tradição religiosa ancestral praticada na África e não tem necessariamente a ver com "magia má". Tudo que é de preto, o branco demoniza.

Histórias Primordiais - Edgar Allan Poe

Um velho conhecido do ensino médio, Poe sempre aparecia nas minhas aulas de português. Gosto da maneira como ele é mais terror clássico, envolve bem menos fantasia e mais da perversidade humana mesmo. Esse livro serviu para conhecer mais alguns dos seus contos, além de ter duas versões traduzidas do poema O Corvo, mas não acho que tenha suas melhores histórias. Senti falta, por exemplo, de Berenice, que eu acho particularmente macabro. Além disso, há uma série brasileira com adaptações dos contos de Edgar Allan Poe e o primeiro episódio é justamente O sorriso de Berê!!

Não considero meu favorito, mas para quem gosta do gênero terror é muito importante ter contato com Poe porque ele claramente influenciou muitos dos autores posteriores. Inclusive, ele o mais antigo dessa lista, morrendo antes do nascimento dos demais, que foram contemporâneos. 

Histórias de Horror - Arthur Conan Doyle

Ai galera, muito ruim. Sei que ele é um autor aclamado, criador de Sherlock Holmes e tudo mais. Porém os contos dele parecem não passar de novelinhas (me sentindo pretenciosa ao extremo aqui). Vou até me dar o trabalho de criticar um por um. O caso de lady Sannox começa interessante, quase como uma fofoca, mas o desenvolvimento deixa a desejar muito; para mim essa era a história com maior potencial, até pelo terror gráfico gerado pelas descrições, mas termina tão rápido que me deu a impressão de que ele estava com preguiça de escrever. A nova catatumba é bem novelesca também, quase um roteiro do SBT. O gato brasileiro é até legal, mas me irrita como a personagem brasileira é mal desenvolvida e não faz sentido algum. O funil de couro apenas não conseguiu ser convincente para mim. O terro da Fenda de Blue John é o mais legalzinho, confesso (agora eu que já estou com preguiça de falar sobre). Por fim, O horror nas alturas é bem interessante, reúne muitas informações sobre aviação e é feito num formato bem legal, PORÉM, achei o "horror" em si meio idiota -risos.

Perdão, Doyle, não é nada pessoal, não quero atrapalhar sua passagem espiritual (não sei em que plano ele está depois de quase 100 anos de morte). Eu só não gosto do que você escreveu. Foi quase um martírio terminar esse volume, mas de certo não foi a pior coisa que já li, nem a mais chata, afinal eu conclui todas as 126 páginas (nem sempre tenho essa dedicação).

Maus - Art Spiegelman

Evitei essa leitura por meses por medo de me deixar triste, mas acabei devorando em uma tarde me sentindo simplesmente reflexiva. Não que o tema não seja pesado: Maus é um livro das memórias do pai do autor, um sobrevivente judeu dos campos de concentração nazistas. Porém, o modo como é narrado em quadrinhos, a contextualização nos acontecimentos do presente e a própria escolha do artista em representar as pessoas como animais ajudam a tornar a experiência menos deprimente, mas não menos séria. É muito interessante conhecer os detalhes da guerra pelo olhar de uma pessoa que esteve lá de verdade, ao mesmo tempo em que acompanhamos a sua vida anos após esses horrores, com problemas de uma vida comum. E é muito legal também a metalinguagem existente no texto, no qual o autor também divaga sobre sua criação e sua responsabilidade sobre isso. 

Como disse, as pessoas são animais. Os judeus são ratos, em referência a crença nazista de que eles seriam uma raça inferior. Os alemães são gatos, os poloneses porcos e os americanos cachorros. Nos quadrinhos em si não há cenas tão fortes e os ratos são ligeiramente fofos, mas nas capas do capítulos as ilustrações são mais fortes. Reiterando, eu não fiquei exatamente triste ao ler, até esbocei um sorriso ou outro com umas pitadas de humor, mas me senti senti lendo algo super sério e delicado que precisa mesmo ser lembrado para nunca mais ser repetido. Recomendo a todo mundo que curte um bom quadrinho, conhecer mais sobre história e/ou só quer uma leitura bem interessante.

Ironicamente (ou não), nesse mesmo dia li um bocado de notícias sobre o massacre que está ocorrendo na Palestina. Foi um soco no estomago. 

Arlindo - Ilustralu

Meu lindo, amado, precioso Arlindo! Acompanhei a saga toda no twitter e claro que garanti meu exemplar capa dura da maravilhosa artista potiguar Ilustralu! Não perdi tempo e reli tudo de novo, agora com o livro em minhas mãos, e obviamente me emocionei com a história de Arlindo de novo, um adolescente gay não assumido no interior do Rio Grande do Norte que precisa lidar com o preconceito dentro e fora de casa. Muito feliz que esse é o terceiro livro de uma mulher da minha terra que adquiro esse ano. É muito bom ler algo com que me identifico tanto, como as várias passagens ou detalhes de Arlindo que remetem ao cotidiano de qualquer jovem potiguar. 

E para os que já são Arlinders como eu, continuem atentos no twitter (onde toda a história segue disponível num fio, para quem não comprou a versão física) porque Luiza de Sousa segue postando um tipo de spin-off sobre Lindo e Lis jovem adultos no carnaval de Olinda, e está muito bommm. 

Monstress - Marjorie Liu e Sana Takeda

Não entendi nada da história nas primeiras cinquenta páginas, eu acho. Não sabia se era falha do meu inglês ou o entendimento era difícil mesmo, mas eventualmente descobri que foi escolha das autoras não contextualizar logo de cara - a explicação vem aos poucos. Trata-se da jornada de uma ex-prisioneira de guerra atrás de vingança pela morte da sua mãe num mundo matriarcal e marcado pela segregação. Maika é uma arcana, uma raça que nasceu da união de Antigos (seres antropomórficos poderosos) e humanos, que tem aparência de uma pessoa normal, mas guarda enormes poderes e um passado repleto de mistério. Nesse universo alternativo também existe uma raça de Gatos e outra de Deuses Antigos, tudo baseado na cultura japonesa. Maika é aprisionada por bruxas, mulheres humanas dotadas de magia, que odeiam Arcanos e Antigos mas desejam seus ossos para criar uma substancia poderosa chamada de Lilium. Na fuga, a jovem massacra diversos inimigos e salva outros de sua espécie, protegendo especialmente a pequena Kippa, uma das personagens mais incríveis que já tive contato na literatura <3 depois disso, acho que não devo falar mais nada para não dar spoiler, mas a jornada da heroína toma rumos perigosos e imprevisíveis. 

Não sei se sinto vontade de ler os próximos volumes da série, mas a história é mesmo intrigante e bem desenvolvida. O universo dominado por mulheres me encantou bastante, porque desafia muito da literatura fantástica que conhecemos até hoje, majoritariamente protagonizada por homens. Além de tudo, todas as ilustrações são tão bonitas que é difícil descrever, com uma riqueza de detalhes invejável. Também é bem legal o fato de a protagonista não ser certinha, ela é uma pessoa bem questionável para falar a verdade, apesar de ter bom coração. Por outro lado, a personalidade sombria de Maika é equilibrada pela fofura de Kippa, por quem eu quase choro de amor em todas as páginas, e que talvez me faça acompanhar o resto da história só para saber se ela termina feliz. 
 
Links 

Eu me apaixonei por esse blog e por essa série de posts. A lista definitiva de homens-carro, que já está em sua terceira edição, relaciona de forma sarcástica homens e carros de acordo com sua personalidade. Não necessariamente um homem é o carro que dirige. Mas pode ser (como é o caso do meu amigo motorista de um fortwo). 

Acho que vi esse vídeo por causa de outra newsletter ou blog que li. Fala a respeito do entretenimento e do escapismo durante esses tempos difíceis que temos vivido. Conhecia o Thiago do twitter, mas nunca tinha dado chance ao canal e estou maravilhada com a qualidade do conteúdo.

Para apresentar a voces o melhor podcast que conheço: o meu. É um projeto de quarentena que eu comecei a gravar de forma despretensiosa e dou continuidade quando me dá vontade. Esse mês eu e Gabi gravamos sobre as diferenças culturais entre Natal e Lisboa.
Uma newsletter maravilhosa escrita pela jornalista Anna Vitória Rocha sobre fazer 27 anos. Eu estou uns cinco anos atrás, mas me identifiquei com vários processos narrados por ela e com algumas reflexões pandêmicas. Recomendo conhecer o blog e a outra newsletter dela.

Uma análise muuuito interessante sobre como a Nestlé introduziu o leite condensado na nossa culinária e matou as receitas de doce originais. 

Postado por Ana Letícia Dantas


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