Blogosfera, crescimento e o que não sinto falta da adolescência

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Photo by Romina BM on Unsplash


Comecei com essa história de blog no início da adolescência, nos primeiros anos da década de 2010 (estranho escrever isso) e possivelmente o final de toda uma geração de blogueiras que cresceram na internet. Naquela época, acompanhei inúmeras garotas ascenderem nesse meio digital e migrarem do velho blogspot para Youtube e Instagram. Ao mesmo tempo, passei a diminuir o consumo de seus conteúdos gradativamente, pois parou de fazer sentido com a minha vida ao passo que se tornou irreal demais. Segui com poucas referências de blog nos últimos anos, mantendo o meu aos tropeços, porém sem me denominar "blogueira", porque esse termo se tornou sinônimo para outra categoria. Sinto falta de ler desabafos, acompanhar mudanças ou só me divertir com alguns escritos despretenciosos com maior frequência. Ainda que as demais redes se proponham a documentar a rotina da mesma forma, os floreios e maquiagens parecem ser inevitáveis.  

Sendo bem sincera, assim com a maioria das pessoas que mantiveram blogs na adolescencia e cresceram, também sofri um afastamento da blogosfera a medida que as responsabilidades me engoliram. Hoje escrevo menos histórias e mais e-mails sem graça de gente grande. Acho que fui me tornando cada vez mais a chata que se preocupa demias com faculdade e trabalho e cada vez menos aquela pessoa sonhadora que vê beleza em todo canto. Uma chata com sindrome de impostora, diga-se de passagem, porque, por mais que faculdade+trabalho exijam de mim a maior parte do meu tempo, eu nunca sinto que estou fazendo o bastante, nem bem o suficiente. Enfim, o surto do dia.

Toda essa introdução para dizer que adoro quando alguns elementos da antiga blogosfera retornam e as pessoas voltam a usar seus blogs pessoais como antigamente. Esse mês, a Mulher Vitrola criou uma blogagem coletiva, algo que nunca participei, mas entendi que era bem comum lá para os anos 2000. Consiste em postar coletivamente sobre um assunto em comum para fortalecer a comunidade e estimular nossas mentes criativas. O primeiro tema é algo sobre lembranças, e eu pulei de site em site lendo as postagens de outras pessoas para ter ideias, achando curioso o bocado de referências de uma época que eu era apenas um neném (ainda sou, né? risos). Para falar a verdade, eu adoro perceber as nunces, diferenças e interseções entre as gerações. Será que é um mal que carrego por ter nascido ali no limbo entre Millenium e GenZ? De todo modo, a maioria dos textos são de pessoas alguns anos mais velhas que eu, então me sinto meio intimidada de compartilhar minhas experiências no meio de gente grande. Mas vale a pena a tentativa e eu estou tentando não me importar tanto com isso.
Finalmente entrando no tema principal do texto, pensei muito em escrever sobre algo do passado que eu sinta falta, mas relendo alguns diários antigos recentemente percebi que mais do que saudades, eu sinto alívio que certos períodos e pensamentos da minha vida tenham ficado para trás. Sim, esse é um post sobre como eu não sinto falta da adolescência. Como é bom ter 22 anos apesar de eu ter dito há três paragrafos que era horrível trabalhar e estudar e ser adulta. Veja bem, minha vida é bem mais complicada agora, mas certos dramas me sinto feliz de não viver mais. Vou citar o primeiro exemplo: quando eu criei o Caçadora de Galáxias, aos 13 anos, um dos meus maiores objetivos de vida era emagrecer. Não, eu não era uma pessoa gorda, mas era uma garota com a mente seriamente danificada pela pressão estética e com possíveis problemas de transtorno alimentar que não cheguei a tratar direito na época. Era horrível usar biquinis, roupas que marcassem o corpo e lidar com a culpa pós refeição. Não sinto falta de chegar chorando depois da escola porque não gostava de mim mesma ou recursar momentos divertidos por estar insegura demais.

Também não sinto falta de gastar tempo e dinheiro fazendo progressiva para alisar o cabelo. Nem de ter que ficar dependendo dos meus pais para comprar as roupas que eu gostava de usar. Outro hábito muito chato da época era nunca usar maquiagem para me sentir diferente das outras garotas. Ah, eu queria desesperadamente ser diferente de todas elas, afinal, me doía demais me comparar e sentir que eu era menos. Felizmente um dos meus maiores avanços dos últimos anos foi descobrir o feminismo, a sororidade e a união entre as mulheres. Não falo do discurso branco liberal de que somos-todas-iguais, mas da perspectiva genuína de que não precisamos nos comparar, nos odiar, ser inimigas. Apesar das diferenças e dos privilégios, a gente pode segurar as mãos umas das outras contra o patriarcado (e o capitalismo!).

É bobo de dizer mas não sinto saudade da escola, mas isso precisa ser mencionado. O ensino fundamental foi um martírio, o ensino médio até que foi divertido, porém todo o contato com física e química deve ficar preferencialmente no passado. Não que estudar Arquitetura e Urbanismo seja sempre uma delícia (não é!!!!!!!), porém ao menos eu não lido com fórmulas de dinâmica, nem com reações inorgânicas sem sentido. Outro aspecto muito irritante de ser jovem demais é a preocupação excessiva com encaixe. Gostar disso ou desgostar daquilo para se sentir parte de um grupo específico. Acho graça lembrar o quanto neguei gostar de Crepúsculo por anos, para então me revelar uma grande fã do casal Edward e Bella (daquelas que leu as passagens proibidas de Amanhecer e tudo). 

Tem um bocado de coisas do passado que eu não sinto falta e, por mais que exista aspectos que eu gostaria de resgatar, como o hábito de escrever mais histórias e o ócio para apreciar as coisas simples, eu me sinto bem melhor agora. Afinal, naquela época não poderia ter nada que tenho hoje, mas agora posso tentar incluir alguns pontos de nostalgia no meu presente. Penso também que meu eu daqui a dez anos (com profissão e família, ou não) vai se sentir do mesmo jeito que eu me sinto agora, lamentando e saudosa sobre os vinte e poucos. Ao menos espero ter algo para sentir saudade, não apenas lembranças de estar em casa com medo de ser contaminada por um vírus. 

Eu acho que me perdi nos meus pensamentos algumas (muitas) vezes escrevendo esse post. Ultimamente não consigo escrever um texto inteiro sem mudar a linha de raciocínio 15x no percurso. Mas como diz o ditado, melhor feito que perfeito, né? Se tem algo de que sinto falta, é minha autocrítica muito menor no passado. 


Postado por Ana Letícia Dantas

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