Crônica: a janela

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Foto de Vlado Paunovic no Pexels

Sentei com as pernas junto ao corpo em frente à janela para assistir à chuva. Sempre tive alguma vontade de escrever sobre ela - a janela. É feita de alumínio e vidro, com grades que me protegeram de cair quando criança, mas ainda me privam de colocar a cabeça para fora e olhar em outras direções. Existe uma pequena fração de céu que consigo enxergar além dos fundos dos outros prédios. Não vejo as pessoas na rua, nem os carros se movimentando. Não há flores por perto. 

A janela do vizinho é bem de frente à minha. Sinto uma constante apreensão refletindo sobre o que o outro vê através da cortina. Um dia já inventei uma história, dentro da minha cabeça mesmo, de que eu e essa pessoa virávamos amigas. Logo depois pensei ser uma péssima ideia, ter que cumprimentar alguém sempre que cruzássemos o olhar seria cansativo. Nunca foi um problema, eu nunca vi o outro morador porque as cortinas estão sempre fechadas. Mas ainda não sei e pondero sobre o que ele enxerga de mim.

Tenho o sonho genuíno de morar num lugar com janelas enormes e uma vista bonita. Seja a paisagem da mata, da praia ou até de uma selva de pedra. Não quero me deparar com fundos de prédios, janelas alheias, nem muros cegos. Eu quero ver o céu cinzento quando está nublado, o colorido do fim de tarde e o azul brilhante de qualquer dia de verão. Quero me debruçar no parapeito sem grades (e sem vizinhos). Por hora, sigo imaginando.

Postado por Ana Letícia

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