Crônica: escrever para tirar de si

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Photo by Kelly Sikkema on Unsplash

Eu escrevia bastante quando comecei o blog (diários, cartas, crônicas e contos). Diminui o ritmo conforme os anos passaram e, então, o tópico principal dos meus textos se tornou "não estou escrevendo tanto quanto antes". Agora, sinto que entrei na fase de escrever sobre eu escrever muito que não ando escrevendo. Este post não foge à temática. Trata-se de mais uma espécie de desabafo sobre como a escrita sempre me encontra em momentos de caos. Não estou de fato vivendo um momento de tormenta - venho gozando de relativa paz ultimamente, tanto por esforços internos quanto pelo meu companheiro escitalopram. No entanto, a gente sempre dá uma bagunçada nas ideias vez ou outra pra lembrar que ainda sente alguma coisa. Estou sentindo várias coisas e meu melhor meio para acessar esses sentimentos é escrever.

Para ser sincera, da mesma forma que não tenho praticado muito a escrita nos últimos tempos, também não venho conversando muito comigo mesma. Eu sei que há algo dentro de mim tentando entrar em contato, mas eu abafo o som dos chamados com uma série de distrações. Às vezes parece mais fácil evitar lidar com a bagunça interna, como se eu pudesse deixar tudo debaixo do meu tapete mental e seguir minha vida sob a ilusão de normalidade. Funciona, com efeito, por um tempo. No entanto, a bagunça que se acumula em mim pesa no meu peito e causa sensações bem desagradáveis. Assim, aquela questão que provavelmente não era tão complexa se torna um problema difícil de solucionar por pura falta de atenção.

Nesses momentos em que eu venço a procrastinação e sento na frente no computador para escrever qualquer pensamento, os caos parece se organizar de forma que eu entendo muito melhor o que sinto. O meu auto-diálogo e minha escrita andam de mãos dadas, um é sintoma do outro, a ausência do primeiro está estritamente ligada a do segundo. Sempre me comuniquei melhor com as palavras escritas - comigo e com os outros. Minha fala é pouco confiável e segue caminhos inesperados por mim muitas vezes. Eu sinto um maior controle da situação quando escrevo, e isso me alivia bastante (alô, terapia), porém a melhor parte é justamente não tentar manter a ordem, mas seguir o fluxo de palavras que saem do meu coração em ambiente seguro.

Essas reflexões partiram de uma frase que li essa semana na newsletter Cuca Fresca. Era uma citação de um tweet da Cristal (Uma Vida Sem Lixo) respondendo à pergunta da escritora Aline Valek "por que você escreve?". A resposta foi "para tirar as coisas de dentro de mim, ordenar elas a fim de me entender, ao mesmo tempo que buscar eco nos outros" e eu senti que não poderia descrever melhor minha relação com o blog. Eu escrevo para tirar meus pensamentos e sentimentos gritantes de dentro de mim. Eu os organizo em palavras para entender o que significam. E, por fim, eu sinto a necessidade de compartilhar com outras pessoas porque desejo encontrar nelas o eco do que sinto ou penso. No fim das contas, blogar é sobre identificação. 

De todo modo, tenho dois cursos de escrita criativa comprados e pretendo não procrastinar essas aulas até o fim das férias da faculdade. Sei que a prática de ler e escrever pode ser muito mais útil que alguns cursos, porém estou atrelando certa expectativa de que essas aulas me deem o ânimo que preciso para retomar o hábito. Assinar newsletters e acompanhar blogs também me incentiva, porque encontro conexão e tenho insights maravilhosos a partir disso. Talvez esse seja só um surto criativo momentâneo, ou talvez novidades apareçam por aqui em algumas semanas. Nem que seja mais um texto sobre escrever sobre eu escrever muito que não ando escrevendo.

Ah, novamente eu não consigo concluir o texto de uma forma que eu goste. Sou ruim com finais? (alô, terapia²). 

Postado por Ana Letícia Dantas

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